O diabetes não impede atletas de atuarem no futebol profissional, mas exige uma rotina de controle antes, durante e depois dos jogos. Os jogadores com diabetes precisam seguir protocolos de monitoramento glicêmico, ajustes na alimentação, controle da insulina e acompanhamento constante da equipe médica para reduzir riscos durante treinos e partidas.
Segundo diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes, o futebol exige atenção porque o esforço físico intenso pode alterar rapidamente os níveis de glicose no sangue. Hipoglicemias e hiperglicemias podem comprometer o desempenho físico, a recuperação muscular e até a tomada de decisão dentro de campo.
O fisiologista Prof. Dr. William Komatsu explicou, em entrevista ao Portal Um Diabético, que o alto gasto energético do futebol interfere diretamente no controle glicêmico dos atletas.
“Hipoglicemias podem comprometer performance e cognição, enquanto hiperglicemias afetam recuperação e risco de lesões.”
Como funciona o controle da glicemia no futebol profissional
Jogadores com diabetes realizam medições frequentes da glicemia ao longo do dia. No futebol, o protocolo costuma incluir verificações antes do aquecimento, minutos antes do jogo, no intervalo e após a partida.
Muitos atletas utilizam sensores de monitoramento contínuo de glicose para acompanhar as variações em tempo real. Segundo William Komatsu, os dispositivos já fazem parte da rotina de alguns clubes e seleções internacionais.
“Clubes europeus de ponta e seleções nacionais já utilizam sensores de monitoramento contínuo em atletas com diabetes.”
O fisiologista explicou que sensores como FreeStyle Libre permitem que a comissão técnica acompanhe os dados remotamente por aplicativos conectados.
Além do monitoramento, o atleta também precisa adaptar o uso de insulina e a alimentação conforme a intensidade dos treinos e partidas.
Alimentação e insulina entram no planejamento do jogo
A preparação começa horas antes da bola rolar. Jogadores com diabetes precisam calcular a ingestão de carboidratos e ajustar doses de insulina para evitar quedas bruscas da glicemia durante o esforço físico.
Segundo o fisiologista, atletas com diabetes tipo 1 geralmente precisam reduzir a insulina basal antes do exercício. Em alguns casos, o ajuste pode chegar a 50%, dependendo da intensidade do treino.
“O atleta precisa ajustar carboidratos, hidratação e doses de insulina conforme a intensidade do treino e do jogo.”
A alimentação costuma seguir uma estratégia de periodização nutricional. O plano inclui carboidratos ajustados ao volume de treino, proteínas para recuperação muscular e refeições fracionadas para reduzir picos glicêmicos.
Antes das partidas, a recomendação é consumir carboidratos de baixo índice glicêmico. Depois dos jogos, a equipe médica trabalha na reposição de glicogênio e monitora possíveis episódios de hipoglicemia tardia.
O que acontece quando a glicemia sai do controle durante o jogo
Clubes que acompanham atletas com diabetes costumam ter protocolos específicos para emergências relacionadas à glicemia.
Segundo William Komatsu, sinais como tontura, tremor, suor frio, confusão mental e alteração na fala indicam hipoglicemia e podem exigir a saída imediata do atleta da atividade.
Hiperglicemias também exigem atenção. O fisiologista afirmou que glicemias acima de 300 mg/dL associadas à cetose podem causar fadiga extrema, náusea e alterações cognitivas.
“Qualquer alteração cognitiva ou motora incomum exige atenção imediata da equipe médica.”
Os clubes mantêm kits de emergência com glucagon e equipamentos de medição rápida. Equipes médicas também treinam preparadores físicos e integrantes da comissão técnica para agir em situações de risco.
Viagens, concentração e treinos exigem adaptações
A rotina de viagens também muda para jogadores com diabetes. O atleta precisa organizar o transporte de insulina, sensores, medicações e kits de emergência durante deslocamentos nacionais e internacionais.
Segundo o fisiologista, o planejamento envolve armazenamento correto dos medicamentos, adaptação a fusos horários e controle da alimentação fora de casa.
Treinos e recuperação muscular também podem sofrer alterações dependendo do controle glicêmico. Glicemias elevadas podem retardar a recuperação física após partidas intensas.
William Komatsu explicou que o treino de força ajuda a aumentar a captação de glicose muscular e melhora a sensibilidade à insulina.
Acompanhamento psicológico também faz parte da rotina
Além da parte física, atletas convivem com a carga mental do controle constante do diabetes. O medo de hipoglicemias durante partidas, a necessidade de monitoramento contínuo e a pressão por desempenho fazem parte da rotina desses jogadores.
Segundo o fisiologista, o acompanhamento psicológico ajuda no controle da ansiedade pré-jogo e na adesão ao tratamento.
“O mito de que pessoas com diabetes não podem ser atletas ainda persiste.”
O especialista afirmou que informação científica e acompanhamento multidisciplinar ajudam atletas a competir em alto rendimento.
Jogadores famosos que atuaram com diabetes
Alguns atletas conhecidos do futebol seguiram carreira profissional convivendo com diabetes.
O ex-atacante Washington, com passagens por Athletico-PR, Fluminense e São Paulo, convive com o diabetes desde os 21 anos.
O atacante Fernandinho também continuou atuando profissionalmente após o diagnóstico, utilizando acompanhamento específico para manter o controle glicêmico.
O ex-jogador Romário já falou publicamente sobre o controle do diabetes tipo 2.
No futsal, o goleiro Lucas Oliveira se tornou uma das referências da modalidade convivendo com diabetes desde a infância.
Fora do Brasil, atletas como Gary Mabbutt, ex-Tottenham, e Jordan Morris, do Seattle Sounders, também seguiram carreira no futebol profissional após o diagnóstico de diabetes.
