A caneta reutilizável de insulina está cada vez mais presentes na rotina de pessoas com diabetes, inclusive entre pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O dispositivo permite substituir apenas o refil, também chamado de cartucho ou carpule, quando a insulina termina. Mas um cuidado é fundamental: não é recomendado colocar qualquer refil em qualquer caneta.
Cada modelo é desenvolvido para funcionar com determinados cartuchos de insulina. Usar um refil diferente daquele indicado para o dispositivo pode comprometer o encaixe e impedir que seja garantida a administração correta da dose.
O alerta foi feito pela enfermeira educadora em diabetes Gabriela Cavicchioli, durante participação no DiabetesCast ao lado da também enfermeira educadora Gisele Filgueiras.
“Um ponto muito, muito importante é a gente usar sempre a insulina da mesma marca da caneta.”
Gabriela explicou que a compatibilidade não é apenas uma questão de o cartucho aparentemente caber dentro do dispositivo.
“A gente não usa diferente porque o fabricante não consegue garantir que o encaixe é adequado. Consequentemente, a gente não consegue garantir que a dose está certa.”
A orientação ganha importância em um momento em que o SUS amplia a utilização de canetas reutilizáveis. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 2,1 milhões desses dispositivos foram distribuídos em 2025 para aplicação das insulinas NPH e regular.
Qual a diferença entre caneta descartável e reutilizável?
As duas têm o mesmo objetivo: permitir a administração da dose de insulina prescrita. A principal diferença está no que acontece quando o medicamento termina.
Na caneta descartável, a insulina já vem dentro do dispositivo. Depois que o conteúdo acaba, a caneta inteira é descartada.
“Terminou, eu descarto ela inteira”, explicou Gabriela durante a entrevista.
Já a caneta reutilizável permanece com o paciente. O que é substituído é o cartucho que contém a insulina.
“Nós temos as canetas reutilizáveis. […] Eu tenho um carpule, que é onde vem a insulina.”
Depois que o refil termina, ele é retirado e um novo é colocado no dispositivo.
A American Diabetes Association (ADA) também diferencia os dispositivos dessa forma. Nas canetas reutilizáveis, os cartuchos são substituídos, enquanto o corpo da caneta continua sendo utilizado. A entidade ressalta ainda que cada caneta funciona apenas com determinados tipos de insulina.
Posso colocar qualquer refil de insulina na caneta reutilizável?
Não é essa a orientação.
Mesmo que dois cartuchos tenham dimensões aparentemente semelhantes, isso não significa que sejam intercambiáveis.
O dispositivo e o cartucho formam um sistema desenvolvido para administrar determinada quantidade de insulina quando o paciente seleciona a dose. Por isso, a compatibilidade indicada pelo fabricante precisa ser respeitada.
A precisão da dose é um dos requisitos fundamentais desses dispositivos. Estudos que avaliam canetas de insulina utilizam justamente critérios de precisão e exatidão para verificar se a quantidade selecionada corresponde à quantidade efetivamente administrada.
Por isso, diante de uma troca de marca, tipo de insulina ou dispositivo, o paciente não deve simplesmente testar se determinado refil “encaixa”.
A equipe de saúde ou o farmacêutico pode orientar qual cartucho deve ser utilizado com aquela caneta.
Canetas reutilizáveis estão sendo distribuídas pelo SUS
O uso desses dispositivos também passou a fazer parte da rotina de pacientes que recebem insulina pelo sistema público.
Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde informou que o SUS disponibilizava caneta reutilizável para aplicação das insulinas humanas NPH e regular nas Unidades Básicas de Saúde. Segundo a pasta, o dispositivo tem validade de três anos após o primeiro uso.
Durante o DiabetesCast, as especialistas apresentaram alguns dos modelos encontrados no sistema público.
Gabriela explicou que uma nova caneta passou a substituir gradualmente um modelo anterior utilizado para NPH e regular.
“Algumas pessoas ainda têm ela. […] Mas conforme essa caneta quebre, e todas as pessoas novas, a substituição vai ser por essa.”
Segundo a educadora, o modelo mais recente pode ser utilizado com os cartuchos específicos de NPH e regular destinados ao dispositivo.
Isso reforça a necessidade de receber orientação sempre que houver mudança de caneta. O fato de a pessoa já utilizar insulina há muitos anos não significa necessariamente que todos os dispositivos funcionem da mesma maneira.
Colocou o refil novo? Ainda existe um cuidado antes da aplicação
A troca do cartucho é apenas uma das etapas.
Depois de colocar um novo refil na caneta reutilizável, é necessário preparar o dispositivo de acordo com as instruções específicas daquele modelo antes de administrar a dose.
Durante o DiabetesCast, Gabriela introduziu justamente essa etapa ao demonstrar a utilização de uma caneta:
“Vamos supor que eu acabei de colocar um carpule aqui novinho. Como que eu faço a técnica de preparo da caneta?”
A preparação normalmente inclui colocar uma agulha nova e realizar o teste de segurança ou fluxo indicado pelo fabricante. Esse procedimento ajuda a verificar se a insulina está saindo pela ponta da agulha antes da seleção da dose prescrita.
A ADA explica que as canetas são hoje uma das principais formas de administração de insulina e destaca que esses dispositivos podem facilitar a aplicação e a precisão da dose, inclusive para pessoas com dificuldades de destreza ou visão.
A caneta quebrou ou não está funcionando: o que fazer?
Outro ponto importante é observar o funcionamento do dispositivo.
Uma caneta reutilizável pode permanecer com o paciente por um período prolongado, mas isso não significa que sinais de defeito devam ser ignorados.
Dificuldade para selecionar a dose, botão travando, vazamento ou qualquer comportamento diferente do habitual precisam ser avaliados antes de continuar utilizando o dispositivo.
No caso das canetas fornecidas pelo SUS, a orientação é procurar a unidade de saúde responsável pelo acompanhamento e pela dispensação dos insumos.
Durante a entrevista, Gabriela explicou que pacientes que ainda utilizam um modelo anterior distribuído para NPH e regular não precisam necessariamente substituí-lo se ele estiver funcionando normalmente. Caso apresente problema, a substituição ocorre pelo dispositivo atualmente disponibilizado.
“Quem ainda não recebeu, saiba que em determinado momento, se a sua não estiver funcionando de maneira adequada, é essa que você vai receber.”
A dose de insulina depende também da técnica correta
Quando a glicose fica acima do esperado, é comum pensar primeiro na alimentação ou na quantidade de insulina utilizada. Mas a técnica de aplicação também precisa entrar nessa avaliação.
Além de utilizar o cartucho compatível, é importante colocar corretamente a agulha, realizar o teste de fluxo conforme a orientação do dispositivo, selecionar a dose prescrita e executar adequadamente a aplicação.
A caneta de insulina é um dispositivo desenvolvido justamente para administrar doses com precisão. Por isso, improvisar combinações entre canetas e refis que não foram desenvolvidos para funcionar juntos não é recomendado.
Para quem recebe uma nova caneta reutilizável no SUS ou passa a utilizar um modelo diferente, uma orientação prática pode evitar erros: antes da primeira aplicação, peça à equipe de saúde para mostrar como colocar o refil, preparar o dispositivo e selecionar a dose.
Como resumiu Gabriela durante o DiabetesCast, o princípio das canetas reutilizáveis pode ser semelhante, mas existe um cuidado que não deve ser ignorado:
“Sempre [usar] a insulina da mesma marca da caneta.”
