Antes mesmo de surgirem os primeiros sintomas do diabetes tipo 1, o organismo pode apresentar sinais de que o processo autoimune já começou.
Exames de sangue conseguem identificar autoanticorpos relacionados à doença quando a pessoa ainda não percebe nenhuma alteração e a glicose pode permanecer dentro da faixa normal.
Essa possibilidade de reconhecer o diabetes tipo 1 antes da manifestação clínica vem ganhando espaço nas pesquisas. Durante o EASD 2026, em Milão, na Itália, o médico e pesquisador brasileiro Décio Eizirik, professor da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, conversou com Denise Franco e Clayton Macedo sobre os avanços no rastreamento e o que acontece depois que esses marcadores são identificados.
O que os autoanticorpos têm a ver com o diabetes tipo 1?
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune em que o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
Uma das formas de identificar esse processo antes dos sintomas é procurar, por meio de exames de sangue, autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1. Entre eles estão os autoanticorpos contra insulina, GAD, IA-2 e ZnT8.
Segundo Eizirik, o avanço do rastreamento permite identificar pessoas que apresentam esses marcadores antes que o diabetes se manifeste clinicamente.
“Hoje em dia é possível fazer rastreamento a nível de população e identificar pessoas que têm anticorpos contra as células que produzem insulina.”
A presença desses autoanticorpos, porém, não indica que os sintomas aparecerão imediatamente. O intervalo até o desenvolvimento do diabetes pode variar bastante.
O intervalo entre os autoanticorpos e o diagnóstico
É justamente essa diferença de tempo que chama a atenção dos pesquisadores.
De acordo com Eizirik, depois que os autoanticorpos aparecem, o início do diabetes tipo 1 pode acontecer em períodos muito diferentes.
“O desenvolvimento da doença, depois que os anticorpos aparecem, pode demorar entre alguns meses a mais de 20 anos.”
A idade em que os autoanticorpos são identificados, a quantidade e o tipo de marcadores encontrados estão entre os fatores considerados na avaliação do risco de progressão. Por isso, o resultado do exame não determina sozinho quando a doença vai se manifestar.
As diretrizes da American Diabetes Association (ADA) de 2026 reconhecem diferentes estágios do diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas e consideram a presença de múltiplos autoanticorpos um importante marcador de risco.
Por que identificar a doença antes dos sintomas?
O rastreamento permite antecipar a identificação do diabetes tipo 1 e acompanhar a pessoa durante um período em que a doença ainda não apresenta os sinais clínicos mais conhecidos.
A partir da identificação dos autoanticorpos, exames complementares podem ser utilizados para acompanhar a glicose e observar se há sinais de progressão. Esse acompanhamento é especialmente importante quando são encontrados múltiplos autoanticorpos.
A identificação precoce também pode reduzir o risco de o diagnóstico acontecer somente diante de uma complicação aguda, como a cetoacidose diabética. As recomendações internacionais destacam o acompanhamento de pessoas identificadas nos estágios iniciais como uma forma de reconhecer alterações antes da manifestação clínica.
Quem pode fazer o rastreamento?
O rastreamento de autoanticorpos já é recomendado internacionalmente para pessoas que apresentam maior risco de desenvolver diabetes tipo 1.
As diretrizes da ADA recomendam a investigação de pessoas com histórico familiar da doença ou risco genético aumentado. Os exames podem pesquisar diferentes autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1.
A possibilidade de ampliar o rastreamento para a população geral também vem sendo estudada. Programas de investigação populacional já existem em alguns locais, enquanto pesquisadores avaliam como essa estratégia pode ser aplicada em diferentes grupos.
Para Eizirik, a possibilidade de identificar pessoas com autoanticorpos antes do diagnóstico clínico representa uma mudança importante na forma de acompanhar o diabetes tipo 1.
O acompanhamento depois da identificação
Encontrar autoanticorpos não significa que a pessoa desenvolverá sintomas imediatamente. O resultado precisa ser interpretado junto com outros exames e informações clínicas.
Quando múltiplos autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 são identificados, o risco de progressão é maior. Nesses casos, o acompanhamento permite observar alterações na glicose e outros sinais de evolução da doença.
Esse período anterior ao diagnóstico clínico também se tornou importante para as pesquisas. Ao identificar pessoas em diferentes fases do processo autoimune, os pesquisadores conseguem estudar melhor como a doença evolui e quais fatores estão relacionados à sua progressão.
Pesquisas buscam retardar o início da doença
A identificação precoce trouxe outra possibilidade para a pesquisa: tentar interferir no processo autoimune antes que o diabetes tipo 1 se manifeste.
Segundo Eizirik, o conhecimento acumulado sobre os mecanismos da doença abriu espaço para investigar terapias capazes de tentar prevenir ou retardar seu início.
“Isso abre a perspectiva de terapias para tentar prevenir que a doença inicie ou pelo menos postergar o início dessa doença.”
Mas, para o pesquisador, ainda existe um caminho entre compreender os mecanismos da doença e conseguir impedir sua progressão.
“A gente está vivendo essa fase que está se acumulando uma grande quantidade de pesquisa, uma melhor compreensão da doença, mas a gente ainda não chegou ao ponto de traduzir esse conhecimento em terapias que previnam a doença.”
Um exemplo desse campo de pesquisa é o teplizumabe, uma imunoterapia que, em situações específicas, consegue retardar a progressão para o diabetes tipo 1 clínico em pessoas que já apresentam sinais de autoimunidade e alterações da glicose.
A estratégia não significa que a doença tenha sido evitada definitivamente. O objetivo é atrasar sua manifestação clínica e, com isso, ganhar tempo antes do diagnóstico.
Prevenir o diabetes tipo 1 ainda é um desafio
O avanço do rastreamento permite identificar pessoas em risco antes dos sintomas e acompanhar a evolução da doença. Em situações específicas, pesquisas também já demonstraram que é possível retardar a chegada ao diabetes tipo 1 clínico.
Ainda assim, prevenir definitivamente a doença continua sendo um desafio.
É nesse intervalo entre o aparecimento dos autoanticorpos e o início dos sintomas que parte importante das pesquisas atuais se concentra. Como esse período pode durar de alguns meses a mais de 20 anos, identificar a autoimunidade mais cedo cria uma oportunidade para acompanhar a evolução e estudar formas de interferir nesse processo.
No EASD 2026, esse cenário foi apresentado como parte de uma mudança na pesquisa do diabetes tipo 1: reconhecer a doença antes dos sintomas e transformar esse conhecimento em novas possibilidades de prevenção e tratamento.
