Durante muitos anos, o diagnóstico do diabetes tipo 1 costumava acontecer apenas quando os sintomas já estavam evidentes. Hoje, esse cenário começa a mudar. Com o avanço das pesquisas, já é possível identificar pessoas com risco de desenvolver a doença antes mesmo do aparecimento dos sintomas mais graves.
Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, esse é um dos principais avanços recentes no entendimento do diabetes tipo 1. A doença passou a ser reconhecida como um processo que começa anos antes do diagnóstico tradicional, permitindo acompanhamento e intervenção em fases mais precoces.
“O diabetes tipo 1 não começa no momento do diagnóstico. Hoje conseguimos reconhecer estágios da doença antes que ela provoque complicações”, explica a especialista.
Diabetes tipo 1 não acontece apenas em crianças
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
Embora o maior número de diagnósticos aconteça entre crianças e adolescentes de 7 a 15 anos, a doença pode surgir em qualquer idade.
Denise Franco relata que já acompanhou um paciente que recebeu o diagnóstico aos 72 anos. Segundo ela, adultos e idosos também podem desenvolver diabetes tipo 1 e, em alguns casos, inicialmente recebem diagnóstico de diabetes tipo 2 até que exames confirmem a presença da autoimunidade.
O que pode desencadear o diabetes tipo 1?
A especialista explica que existe uma predisposição genética para o desenvolvimento da doença. Isso significa que algumas pessoas já nascem com maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 1.
No entanto, essa predisposição não significa que a doença aparecerá obrigatoriamente.
Fatores ambientais podem participar desse processo. Entre eles estão infecções por vírus, alimentação, situações de estresse e outros fatores capazes de modificar o funcionamento do sistema imunológico.
Segundo Denise Franco, esses fatores não causam diretamente o diabetes tipo 1. Eles podem funcionar como desencadeadores em pessoas que já apresentam predisposição genética.
Estresse não causa diabetes tipo 1, mas pode antecipar o diagnóstico
Uma dúvida comum entre famílias envolve a relação entre situações emocionais e o aparecimento da doença.
Denise Franco explica que momentos de estresse aumentam a necessidade de produção de insulina pelo organismo. Se as células beta já estiverem sendo atacadas pelo sistema imunológico, elas podem não conseguir responder a essa demanda.
Nesse cenário, o diabetes que já estava em desenvolvimento pode se manifestar naquele momento.
Além disso, situações que ativam intensamente o sistema imunológico também podem contribuir para acelerar esse processo em pessoas geneticamente predispostas.
Por que muitos diagnósticos ainda acontecem na UTI?
No Brasil, muitos casos de diabetes tipo 1 ainda são descobertos durante um quadro de cetoacidose diabética, uma complicação causada pela falta importante de insulina.
Segundo Denise Franco, esse ainda é um dos principais desafios.
Quando isso acontece, a pessoa costuma apresentar glicemia muito elevada, desidratação e necessidade de tratamento hospitalar, frequentemente em unidade de terapia intensiva.
A médica explica que a glicose elevada faz o organismo eliminar grande quantidade de água pela urina. Ao mesmo tempo, a ausência de insulina impede que o corpo utilize a glicose como fonte de energia.
Com isso, ocorre um desequilíbrio químico chamado acidose, que dificulta o funcionamento normal do organismo e exige tratamento imediato com hidratação venosa, insulina e correção das alterações dos eletrólitos.
Além dos riscos clínicos, Denise Franco destaca o impacto emocional desse momento para o paciente e para toda a família.
Como funciona o rastreamento do diabetes tipo 1?
Hoje, a ciência divide o diabetes tipo 1 em estágios.
No estágio 1, a pessoa apresenta pelo menos dois autoanticorpos positivos contra as células beta, mas ainda não possui alterações na glicemia.
Entre os autoanticorpos mais conhecidos estão o anti-GAD, mais frequente em adultos, e o anti-insulina, mais comum em crianças.
No estágio 2, além dos autoanticorpos, começam a aparecer alterações na glicemia. No entanto, a pessoa ainda não preenche os critérios diagnósticos para diabetes.
Já o estágio 3 corresponde ao diagnóstico clínico da doença, quando existem autoanticorpos associados aos critérios laboratoriais, como glicemia de jejum igual ou superior a 126 mg/dL ou hemoglobina glicada igual ou superior a 6,5%.
Segundo Denise Franco, identificar alguém nos estágios iniciais permite acompanhamento próximo e reduz a chance de que o diagnóstico aconteça durante uma cetoacidose diabética.
Quem pode fazer o rastreamento?
A pesquisadora explica que o rastreamento ganha importância principalmente entre familiares de pessoas com diabetes tipo 1.
Quando um membro da família recebe o diagnóstico, parentes podem realizar a pesquisa de autoanticorpos.
Caso sejam identificados os marcadores da doença, essa pessoa pode ser acompanhada ao longo do tempo para detectar alterações na glicemia antes do aparecimento dos sintomas graves.
Segundo Denise Franco, essa estratégia permite reduzir o risco de novos diagnósticos em situações de emergência dentro da mesma família.
Medicamentos já podem ser usados antes do diagnóstico completo
Outro avanço citado pela especialista envolve o desenvolvimento de terapias para pessoas que apresentam autoanticorpos positivos e alterações iniciais da glicemia, mas ainda não desenvolveram diabetes tipo 1.
Segundo Denise Franco, esses medicamentos não representam uma cura.
O objetivo é preservar por mais tempo as células beta que ainda produzem insulina, reduzir a inflamação causada pela resposta autoimune e prolongar a produção natural de insulina.
Com isso, aumenta a chance de um início da doença com maior reserva de produção de insulina, menor risco de complicações e menor probabilidade de diagnóstico em cetoacidose diabética.
Brasil participa de estudos sobre novas terapias para diabetes tipo 1
Além do avanço no rastreamento, Denise Franco afirma que o Brasil passou a participar de estudos clínicos internacionais voltados ao desenvolvimento de novas terapias para diabetes tipo 1.
Segundo ela, atualmente existem pelo menos três estudos clínicos em andamento no país voltados tanto para pessoas com diagnóstico recente quanto para indivíduos identificados no estágio 2 da doença após o rastreamento familiar.
Essas pesquisas buscam preservar as células beta por mais tempo e ampliar as opções de tratamento antes das fases mais avançadas da doença.
