O tratamento do diabetes tipo 1 vem ganhando novas possibilidades à medida que a ciência amplia o conhecimento.
O processo autoimune que leva à doença pode começar muito antes de a hiperglicemia se manifestar.
Essa fase anterior ao diagnóstico clínico passou a ser considerada uma oportunidade para acompanhar a evolução da doença e, em situações específicas, utilizar estratégias capazes de retardar sua progressão. Durante o EASD 2026, em Milão, na Itália, a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco conversou com o médico Matías Ré sobre as novidades no tratamento do diabetes tipo 1 e os avanços nessa fase inicial.
O diabetes tipo 1 começa antes dos sintomas
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune em que o sistema imunológico ataca as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode ocorrer durante um período em que a pessoa ainda não apresenta hiperglicemia nem os sintomas característicos do diagnóstico clínico.
Atualmente, a doença é dividida em três estágios. No estágio 1, existem sinais de autoimunidade, mas a glicose permanece normal e não há sintomas. No estágio 2, além da autoimunidade, já aparecem alterações da glicose, ainda sem os sintomas clínicos. O estágio 3 corresponde ao diabetes tipo 1 clínico, quando a hiperglicemia e os sintomas se manifestam.
Foi justamente essa evolução que Matías destacou durante a entrevista:
“O diabetes tipo 1 começa muito tempo antes de aparecerem a hiperglicemia e os sintomas.”
Essa compreensão amplia a possibilidade de intervenção. Em vez de pensar no tratamento apenas a partir do diagnóstico clínico, pesquisadores passaram a estudar maneiras de atuar também durante as fases anteriores.
O que há de novo no tratamento?
Entre as estratégias que já chegaram à prática clínica está o teplizumabe, uma imunoterapia que atua sobre o processo autoimune relacionado ao diabetes tipo 1.
O medicamento é utilizado, em situações específicas, para retardar a progressão do estágio 2 para o estágio 3 da doença. As recomendações internacionais de 2026 consideram o teplizumabe uma opção para pessoas selecionadas com diabetes tipo 1 em estágio 2.
Durante a conversa no EASD 2026, Matías citou o medicamento como um dos exemplos dos avanços que já chegaram à prática:
“Nesses períodos pré-clínicos, hoje, em outubro de 2026, já temos alguns medicamentos aprovados na Europa e nos Estados Unidos, como, por exemplo, o teplizumabe.”
Na União Europeia, o medicamento é autorizado para adultos e crianças a partir de 8 anos com diabetes tipo 1 em estágio 2, com o objetivo de retardar a progressão para o estágio 3. Nos Estados Unidos, o teplizumabe também é aprovado para pessoas em estágio 2 dentro de critérios específicos.
O tratamento, portanto, não é destinado a todas as pessoas com diabetes tipo 1. A indicação depende do estágio da doença e de uma avaliação médica especializada.
Quanto tempo é possível ganhar?
Um dos principais estudos que avaliou o teplizumabe acompanhou pessoas com diabetes tipo 1 em estágio 2. Entre os participantes tratados com o medicamento, o tempo mediano até o diagnóstico do estágio 3 foi de 48,4 meses, contra 24,4 meses entre aqueles que receberam placebo.
O resultado mostra que, naquele estudo, o medicamento conseguiu retardar a progressão para o diabetes tipo 1 clínico. Isso não significa, porém, que todas as pessoas terão o mesmo período de atraso.
Para Matías, esse tempo conquistado antes da manifestação clínica tem importância que vai além do resultado do exame:
“Esses anos que conseguimos retardar são realmente anos ganhos de vida, anos ganhos de educação, com menos aplicações de insulina e, provavelmente, com uma manifestação do diabetes que tenha menos impacto.”
Esse período também pode permitir acompanhamento mais próximo e preparação da pessoa e da família para uma eventual evolução da doença. O momento em que o tratamento com insulina será necessário depende da progressão do diabetes e da avaliação da equipe de saúde.
Novas estratégias vão além do teplizumabe
O teplizumabe é um dos exemplos de uma mudança mais ampla na pesquisa do diabetes tipo 1. O objetivo dos estudos não é apenas controlar a glicose depois que a doença aparece, mas também interferir nos mecanismos autoimunes que levam à perda da produção de insulina.
Pesquisas continuam avaliando diferentes estratégias para preservar a função das células beta, retardar a progressão da doença e modificar sua evolução em diferentes fases.
Essa mudança também está relacionada ao avanço do rastreamento. Ao identificar pessoas que apresentam sinais de autoimunidade antes do diagnóstico clínico, os pesquisadores conseguem estudar a evolução da doença e avaliar intervenções em um momento mais precoce.
A busca por uma cura ainda continua
Embora novas estratégias já consigam retardar a progressão do diabetes tipo 1 em situações específicas, elas não eliminam a doença.
O próprio Matías destacou esse limite durante a entrevista:
“Hoje não temos cura.”
O objetivo do teplizumabe não é eliminar o diabetes tipo 1, mas retardar a progressão da doença em pessoas que atendem aos critérios para o tratamento.
O medicamento atua em uma fase em que o processo autoimune já está acontecendo, mas o diabetes ainda não chegou ao estágio clínico. Por isso, o tratamento representa uma forma de ganhar tempo, e não de impedir definitivamente o desenvolvimento da doença.
O que esperar dos próximos avanços?
Para Matías, o que já existe hoje pode ser apenas o começo de uma mudança ainda maior no tratamento do diabetes tipo 1.
“Obviamente, isso provavelmente é apenas o começo do que vem pela frente.”
A perspectiva é que o avanço do conhecimento sobre os estágios iniciais da doença permita desenvolver novas estratégias capazes de interferir cada vez mais cedo no processo autoimune.
O EASD 2026 mostra esse movimento na pesquisa do diabetes tipo 1: o tratamento começa a ser pensado não apenas depois do aparecimento da hiperglicemia, mas também durante as fases que antecedem o diagnóstico clínico.
