Receber a orientação de que chegou o momento de começar a usar insulina ainda pode assustar quem convive com diabetes tipo 2. Para algumas pessoas, a mudança no tratamento é interpretada como sinal de que a doença “piorou” ou até de que houve alguma falha nos cuidados. Mas essa associação não é correta.
O diabetes tipo 2 é uma condição que pode mudar ao longo dos anos e, em determinadas situações, a insulina passa a ser necessária para ajudar a manter a glicose dentro das metas estabelecidas para cada pessoa.
A dúvida foi abordada pelas enfermeiras educadoras em diabetes Gabriela Cavicchioli e Gisele Filgueiras, durante participação no DiabetesCast. Na entrevista, Gabriela chamou atenção justamente para o sentimento de culpa que pode surgir quando a insulinoterapia é indicada.
“A gente precisa entender que isso é uma evolução esperada dentro do diabetes tipo 2.”
Segundo a especialista, isso não significa que todas as pessoas com diabetes tipo 2 necessariamente precisarão utilizar insulina. O ponto principal é entender que, quando existe indicação, começar o tratamento não deve ser encarado como consequência de um suposto fracasso do paciente.
“Não quer dizer que todo mundo vai precisar fazer a aplicação, mas não quer dizer que a pessoa não se cuidou, não fez nada certo”, explicou Gabriela.
Por que uma pessoa com diabetes tipo 2 pode precisar de insulina?
Para entender essa mudança no tratamento, é importante lembrar o que acontece no organismo de quem tem diabetes tipo 2.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) explica que a condição é caracterizada por diferentes alterações, entre elas a resistência à ação da insulina e uma deficiência parcial na secreção desse hormônio pelas células beta do pâncreas.
Isso ajuda a explicar por que o tratamento não necessariamente permanece igual durante toda a vida.
Medicamentos, alimentação adequada, atividade física e outras estratégias podem ser suficientes em determinadas fases. Em outras, dependendo do quadro clínico e das metas glicêmicas, o médico pode indicar mudanças no tratamento, incluindo o uso de insulina.
A própria diretriz da SBD prevê situações nas quais a terapia baseada em insulina é recomendada para pessoas com diabetes tipo 2, especialmente diante de hiperglicemia importante acompanhada de sintomas.
Usar insulina não significa que a pessoa “falhou” no tratamento
Esse é um dos principais mitos abordados durante a entrevista.
Gabriela explicou que algumas pessoas chegam ao consultório com sentimento de culpa quando recebem a prescrição de insulina. Outras associam o medicamento a complicações que aconteceram com parentes ou conhecidos.
“Quando o médico prescreve insulina para quem tem diabetes tipo 2, as pessoas acabam tendo um sentimento de culpa ou achando que tem algo errado.”
A educadora reforça, no entanto, que a insulina é uma opção terapêutica e que, quando indicada, seu início no momento adequado faz parte dos cuidados para reduzir o risco de complicações relacionadas ao diabetes.
Essa mudança de percepção é importante porque o medo da insulina pode fazer com que algumas pessoas enxerguem a intensificação do tratamento como punição.
Durante o DiabetesCast, o jornalista Tom Bueno também chamou atenção para uma situação que ainda pode ocorrer na comunicação entre profissional e paciente: apresentar a insulina como uma espécie de ameaça caso a pessoa não consiga atingir determinada meta.
“Se você não fizer direito, eu vou ter que passar insulina.”
A frase foi citada durante a conversa justamente como exemplo de uma abordagem que contribui para criar uma imagem negativa do tratamento.
Então começar insulina significa que o diabetes ficou mais grave?
Não necessariamente.
A indicação de insulina precisa ser analisada dentro do contexto clínico de cada paciente. Ela pode ocorrer porque o organismo já não consegue produzir insulina em quantidade suficiente para atender às necessidades metabólicas, porque os níveis de glicose estão muito elevados ou por situações específicas em que a insulinoterapia é considerada a estratégia mais adequada.
Os Standards of Care in Diabetes 2026, da American Diabetes Association (ADA), recomendam considerar o início da insulina em adultos com diabetes tipo 2 quando existem sintomas de hiperglicemia ou quando os níveis de glicose estão muito elevados. Como referência, o documento cita hemoglobina glicada acima de 10% ou glicemia igual ou superior a 300 mg/dL. Esses números, porém, não devem ser usados isoladamente pelo paciente para decidir iniciar ou modificar um tratamento.
A diretriz brasileira também prevê o uso de insulina em determinadas situações clínicas e estabelece estratégias para iniciar e, quando necessário, intensificar a insulinoterapia no diabetes tipo 2.
Portanto, a necessidade de insulina pode refletir uma mudança nas necessidades do organismo e do tratamento, mas não deve ser interpretada automaticamente como sinal de que a pessoa cuidou mal do diabetes.

Diabetes tipo 1 é diferente
Quando o assunto é diabetes tipo 1, a relação com a insulina é diferente.
Nesse tipo de diabetes ocorre destruição das células beta pancreáticas, geralmente por um processo autoimune, levando a uma deficiência grave na produção de insulina.
Por isso, a SBD recomenda iniciar a insulinoterapia imediatamente após o diagnóstico clínico do diabetes tipo 1, inclusive para prevenir descompensação metabólica e cetoacidose diabética.
Nesse caso, portanto, usar insulina não representa uma etapa posterior do tratamento: a reposição de insulina é essencial desde o diagnóstico.
O tratamento do diabetes pode mudar ao longo do tempo
Outro ponto importante é abandonar a ideia de que existe uma única estratégia de tratamento válida para toda a vida.
As recomendações atuais consideram fatores como níveis de glicose e hemoglobina glicada, risco de hipoglicemia, peso, presença de doenças cardiovasculares ou renais e outras características individuais para definir e modificar o tratamento do diabetes tipo 2.
Isso significa que intensificar o tratamento quando necessário faz parte do acompanhamento da doença.
Para quem recebe uma nova prescrição de insulina, também é fundamental ter orientação sobre dose, horários, monitorização da glicose, técnica de aplicação, armazenamento e reconhecimento e tratamento da hipoglicemia.
E a mensagem deixada pelas especialistas durante o DiabetesCast é especialmente importante para quem encara o início da insulinoterapia com medo ou culpa: precisar de insulina não significa ter fracassado no cuidado com o diabetes. Significa que o tratamento está sendo ajustado às necessidades daquele momento.
