O confronto entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo coloca frente a frente dois países com realidades muito diferentes dentro e fora dos gramados. Quando o assunto é diabetes, a distância entre eles não está apenas no tamanho da população, mas principalmente na forma como o cuidado é organizado.
Segundo a International Diabetes Federation (IDF), o Brasil tem 16,6 milhões de adultos entre 20 e 79 anos vivendo com diabetes, o equivalente a uma prevalência de 10,6% nessa faixa etária. O país ocupa uma das primeiras posições no ranking mundial em número absoluto de casos.
A Noruega, por sua vez, tem uma população de cerca de 5,6 milhões de habitantes e registra aproximadamente 246 mil adultos com diabetes, com uma prevalência estimada em torno de 5% entre os adultos. Em números absolutos, a diferença é enorme. No entanto, quando o assunto é qualidade da assistência, o país europeu é frequentemente citado como uma referência internacional, principalmente no cuidado das pessoas com diabetes tipo 1.
O motivo não é apenas o investimento em tecnologia. A Noruega construiu, ao longo das últimas décadas, um modelo baseado em acesso universal ao tratamento, educação em diabetes, monitoramento contínuo dos pacientes e avaliação permanente dos resultados. É essa combinação que explica por que o país apresenta indicadores de controle glicêmico entre os melhores da Europa, mesmo convivendo com uma das maiores incidências de diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes do mundo.
O que faz a Noruega ser uma referência?
Ao contrário do que muitos imaginam, o diferencial da Noruega não está apenas na tecnologia. O país reúne três pilares que funcionam de forma integrada: acesso ao tratamento, educação em diabetes e acompanhamento contínuo.
O sistema público de saúde norueguês financia o tratamento das pessoas com diabetes que atendem aos critérios clínicos estabelecidos nacionalmente. Isso inclui consultas com equipes multiprofissionais, medicamentos, monitoramento e, quando indicado, tecnologias como sensores contínuos de glicose e bombas de insulina.
Além disso, a Noruega mantém dois dos registros nacionais mais completos do mundo: o Norwegian Diabetes Register for Adults e o Norwegian Childhood Diabetes Registry. Esses bancos de dados acompanham indicadores como hemoglobina glicada (HbA1c), episódios de hipoglicemia grave, uso de tecnologias, internações e complicações relacionadas ao diabetes.
Essas informações são utilizadas para avaliar a qualidade da assistência em hospitais e clínicas, identificar diferenças entre regiões e orientar melhorias nas políticas públicas.
Sensores e bombas fazem parte da rotina
Um dos aspectos que mais chamam a atenção é o acesso às tecnologias.
Na Noruega, a maior parte das crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 utiliza sensores contínuos de glicose (CGM). O uso de bombas de insulina também cresceu de forma consistente nos últimos anos, assim como os sistemas híbridos de alça fechada, conhecidos popularmente como “pâncreas artificial”.
Esses equipamentos permitem acompanhar a glicose em tempo real e ajudam no ajuste mais preciso da insulina, reduzindo episódios de hipoglicemia e melhorando o controle glicêmico.
Os dados do Norwegian Childhood Diabetes Registry mostram que, paralelamente ao aumento do uso dessas tecnologias, houve melhora progressiva da hemoglobina glicada média e redução dos episódios graves de hipoglicemia em crianças e adolescentes.
No entanto, os próprios pesquisadores ressaltam que os bons resultados não podem ser atribuídos apenas aos equipamentos.
Educação em diabetes faz parte do tratamento
Receber um sensor ou uma bomba de insulina não encerra o tratamento.
Na Noruega, pessoas recém-diagnosticadas e seus familiares participam de programas estruturados de educação em diabetes. Eles aprendem a interpretar os dados do sensor, calcular carboidratos, ajustar doses de insulina, prevenir hipoglicemias e tomar decisões em situações do dia a dia, como atividade física, viagens ou doenças.
Esse acompanhamento continua ao longo da vida. As equipes de saúde revisam regularmente as metas de tratamento e fazem ajustes individualizados sempre que necessário.
Especialistas consideram que essa combinação entre tecnologia, educação e monitoramento contínuo explica boa parte dos resultados obtidos pelo país.
E como está o Brasil?
O Brasil também avançou nos últimos anos.
O Sistema Único de Saúde ampliou o acesso à insulina glargina para grupos específicos e diversos estados passaram a oferecer sensores contínuos de glicose para pessoas com diabetes tipo 1. No entanto, a implementação ainda acontece de forma desigual.
Enquanto algumas redes estaduais já disponibilizam sensores para um número maior de pacientes, outras ainda enfrentam dificuldades relacionadas à estrutura, financiamento e organização dos serviços.
Outro desafio é que o acesso às tecnologias não ocorre de maneira uniforme em todo o país. Em muitos casos, pacientes precisam recorrer à Justiça ou dependem de programas estaduais específicos para obter equipamentos que já fazem parte da rotina em outros países.
Além disso, o Brasil ainda não possui um registro nacional com abrangência semelhante ao da Noruega para monitorar continuamente indicadores clínicos da população com diabetes.
O que o Brasil pode aprender?
A experiência norueguesa mostra que tecnologia, sozinha, não resolve o problema.
Os resultados observados no país europeu indicam que o acesso aos equipamentos precisa estar acompanhado de educação em diabetes, consultas regulares, equipes multiprofissionais e acompanhamento permanente dos indicadores de saúde.
Para quem vive com diabetes, essa também é uma mensagem importante. Conhecer a própria glicemia, compreender como alimentação, atividade física e insulina interferem no controle da doença e manter acompanhamento regular com a equipe de saúde continuam sendo atitudes fundamentais para reduzir o risco de complicações.
Enquanto Brasil e Noruega disputam uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, a diferença mais importante entre os dois países talvez não esteja apenas no futebol. Ela também aparece na forma como cada sistema de saúde organiza o cuidado às pessoas com diabetes. A experiência norueguesa mostra que investir em educação, tecnologia e acompanhamento contínuo pode transformar resultados e oferecer mais qualidade de vida para milhares de pacientes.