Antes de sair de casa, boa parte dos brasileiros passa pela mesma cena: a xícara de café ao lado do pão na mesa do café da manhã. Não é exagero. O Brasil é o segundo maior consumidor dessa bebida do mundo, e o hábito levanta uma dúvida recorrente entre quem convive com diabetes: afinal, ele interfere no controle da glicose?
Pode todos os dias?
Segundo dados da ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café), o país movimenta cerca de 21,4 milhões de sacas por ano. Na prática, isso equivale a um consumo médio de aproximadamente 1.400 xícaras por habitante ao ano, ou seja, quase 4 xícaras diárias. Além disso, o consumo se concentra fortemente na Região Sudeste, puxado por São Paulo e Minas Gerais. Diante desse cenário, entender o impacto real dessa bebida na glicemia deixa de ser curiosidade e passa a ser uma questão prática do dia a dia.
O que diz a ciência
De forma geral, a ciência e a prática clínica indicam que o impacto dessa bebida tende a ser baixo, principalmente quando a bebida é consumida sem açúcar. Ainda assim, estudos experimentais mostram que a cafeína isolada pode reduzir temporariamente a sensibilidade à insulina, o que pode gerar elevação discreta da glicose após refeições ricas em carboidratos.
Um ensaio publicado no Journal of Nutrition observou glicemia pós-prandial mais alta em pessoas com diabetes tipo 2 que ingeriram cafeína antes de um teste de tolerância à glicose. No entanto, os próprios autores destacam que esse efeito foi agudo e pontual, e não representa necessariamente o impacto do consumo habitual da bebida.
Consumo regular e risco de diabetes tipo 2
Quando o olhar se volta para estudos de longo prazo, o cenário muda. Revisões sistemáticas mostram que o consumo habitual e moderado dessa bebida está associado a menor risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2.
Essa relação aparece tanto na bebida com cafeína quanto no descafeinado, o que sugere que compostos como os ácidos clorogênicos e os polifenóis também têm papel metabólico relevante. Segundo a American Diabetes Association, padrões alimentares saudáveis podem incluir o café, desde que sem adição excessiva de açúcar ou xaropes calóricos.
O verdadeiro vilão: o açúcar, não a bebida em si
Na prática clínica, a orientação é clara. A nutricionista e educadora em diabetes Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes, explica que não há motivo para excluir o café da rotina de quem tem diabetes.
“A cafeína pode causar um leve efeito na glicemia, mas é muito sutil. Portanto, não existe recomendação de cortar o café para quem tem diabetes”, afirmou a especialista.
Segundo Maristela, o maior impacto glicêmico não vem da bebida pura, mas do açúcar adicionado à bebida.
“O problema não é o café. O açúcar, sim, impacta a glicemia”, resumiu.
Por que algumas pessoas sentem a glicose subir
Mesmo sem açúcar, algumas pessoas relatam variação na glicemia após o café. Isso, porém, não significa que a bebida seja a única responsável. A glicemia sofre influência de diversos fatores ao mesmo tempo, como qualidade do sono, estresse, atividade física e ajuste da insulina basal. Além disso, a sensibilidade individual à cafeína varia de pessoa para pessoa, o que explica reações diferentes de um indivíduo para outro. Nesse contexto, observar o próprio padrão glicêmico ajuda a entender o que realmente influencia cada caso.
O que muda na rotina de quem convive com diabetes
Na prática, a orientação segue equilibrada: a bebida sem açúcar pode fazer parte da rotina alimentar, desde que a pessoa observe sua resposta individual e mantenha acompanhamento com a equipe de saúde. Como resume Maristela Strufaldi, o alarme não se justifica.
“Não é para ter terrorismo. Quem convive com diabetes pode ficar com o seu cafezinho.”
