Lixar os pés, retirar um calo ou tentar remover uma pele mais grossa pode parecer parte da rotina de cuidados. Para quem tem diabetes e apresenta perda de sensibilidade nos pés, no entanto, esses procedimentos podem causar lesões sem que a pessoa perceba.
O alerta foi feito pela enfermeira especializada em diabetes Gabriela Cavicchioli e pelo ortopedista Eduardo Araújo, especialista em cirurgias do pé e tornozelo, durante o DiabetesCast.
A preocupação está relacionada principalmente à neuropatia. A alteração pode reduzir a capacidade de sentir dor e outros estímulos nos pés. Com isso, uma pessoa pode se machucar durante um procedimento e não perceber o que aconteceu.
Por que a lixa pode representar um risco?
A dor funciona como um sinal de alerta quando alguma parte do corpo sofre uma agressão. Segundo Eduardo Araújo, a neuropatia pode comprometer esse mecanismo nos pés.
O especialista compara essa perda de sensibilidade ao painel de um carro. Quando uma luz deixa de funcionar, o motorista não recebe o aviso de que existe um problema.
A pessoa continua caminhando mesmo quando existe pressão, atrito ou uma pequena lesão.
“Você não sente a dor, ele não se adapta tanto”, explicou Eduardo durante o episódio.
A repetição dessa pressão pode favorecer o surgimento de uma ferida. Por isso, a recomendação apresentada pelos especialistas é evitar procedimentos mecânicos que possam machucar a pele.
Calo pode indicar que existe um problema
A presença de um calo também pode trazer uma informação sobre a forma como o pé está recebendo pressão.
Gabriela explica que a calosidade pode ser uma lesão pré-ulcerativa, ou seja, uma alteração que antecede o aparecimento de uma úlcera.
O corpo produz mais pele naquela região como resposta ao excesso de pressão. Por isso, encontrar um calo novo pode indicar uma mudança na distribuição da pressão durante a pisada.
A neuropatia também pode interferir nesse processo. Segundo Eduardo, a alteração da sensibilidade pode mudar a forma como a pessoa pisa e criar novos pontos de pressão.
O problema está justamente na ausência de dor. Sem esse sinal, a pessoa pode continuar colocando peso sobre a mesma região.
Retirar o calo em casa pode esconder uma ferida
O uso de cortadores, lâminas ou lixas para retirar um calo também preocupa os especialistas.
Gabriela relata que, em alguns casos, o profissional remove a camada de pele e encontra uma ferida por baixo. Por isso, a orientação é não tentar cortar ou desbastar a calosidade em casa.
A avaliação profissional permite observar a condição da pele e identificar se existe uma alteração associada ao ponto de pressão.
Além disso, a presença de uma calosidade nova pode indicar que o pé precisa de uma avaliação mais detalhada.
Como identificar a perda de sensibilidade?
A avaliação da sensibilidade faz parte do acompanhamento da pessoa com diabetes. Gabriela explica que o profissional pode utilizar o monofilamento para verificar a sensibilidade protetora.
O instrumento possui um filamento que aplica uma pressão específica sobre pontos do pé. Segundo a enfermeira, o procedimento não provoca dor nem machuca.
A avaliação também permite identificar alterações que a pessoa pode não perceber no dia a dia.
Para pessoas com diabetes tipo 2, Gabriela orienta que a avaliação dos pés seja realizada uma vez por ano. No diabetes tipo 1, a orientação apresentada durante o episódio é iniciar a avaliação cerca de cinco anos após o diagnóstico ou depois do início da puberdade.
Quando existe alteração, a frequência do acompanhamento pode mudar.
Atenção primária pode identificar o risco
A avaliação dos pés não precisa começar em um consultório especializado. Segundo Gabriela, médicos e enfermeiros da atenção primária podem realizar o acompanhamento.
A proposta é identificar alterações antes que elas avancem e definir quando o paciente precisa de outros cuidados.
Eduardo afirma que muitos pacientes chegam ao especialista quando a lesão já está em estágio avançado. Segundo ele, parte desses casos poderia ser identificada antes, durante o acompanhamento na atenção primária.
A avaliação também permite orientar o paciente sobre os cuidados que deve manter em casa.
Olhar os pés todos os dias faz parte do cuidado
A observação diária aparece entre as principais orientações apresentadas pelos especialistas.
Gabriela recomenda que a pessoa procure mudanças na pele, calosidades, vermelhidão, feridas, alterações nas unhas e sinais de frieira.
Ela também orienta manter a pele hidratada para reduzir o ressecamento e as rachaduras. O creme deve ser aplicado no pé, mas não entre os dedos.
Segundo a enfermeira, a região entre os dedos concentra calor e umidade, condições que favorecem o crescimento de fungos.
O corte das unhas também exige atenção. A orientação apresentada é respeitar o formato da unha e evitar cortar profundamente as laterais.
O que fazer ao perceber uma alteração?
Uma calosidade nova, uma mudança na pele, uma unha encravada ou uma ferida são sinais que precisam ser avaliados.
A orientação dos especialistas é procurar um profissional em vez de tentar resolver o problema com uma lixa, lâmina ou outro instrumento.
Esse cuidado ganha importância quando a pessoa já apresenta perda de sensibilidade ou dificuldade para enxergar os próprios pés.
Eduardo também destaca a necessidade de ajuda profissional para pessoas com déficit visual. Nesses casos, outra pessoa ou um profissional pode auxiliar na identificação e no cuidado de alterações nos pés.
