Um ponto escuro que parece atravessar o campo de visão, pequenos fios que se movimentam quando os olhos mudam de direção ou uma mancha que aparece de repente podem causar estranhamento.
Para quem tem diabetes, a situação pode gerar outra preocupação: será que existe alguma relação da visão com a condição?
Essas alterações são conhecidas como moscas volantes e podem aparecer por diferentes motivos. Em muitos casos, estão relacionadas às mudanças naturais do vítreo, uma espécie de gel transparente que preenche o interior do olho. Mas o aparecimento repentino de muitas manchas, principalmente quando vem acompanhado de outros sinais, merece atenção.
A oftalmologista Letícia Rubman explica que não é possível avaliar uma queixa da visão isoladamente. É preciso considerar a idade da pessoa, o histórico ocular e, no caso do diabetes, há quanto tempo a condição está presente.
Nem todo pontinho preto significa um problema na retina
As moscas volantes são percebidas como pontos, fios, manchas ou pequenas sombras que parecem se movimentar no campo de visão. Elas podem ficar mais evidentes quando a pessoa olha para uma superfície clara, como uma parede branca ou o céu.
Segundo Letícia, o fenômeno está relacionado ao vítreo, estrutura que ocupa grande parte do interior do olho.
“Dentro do globo ocular a gente tem uma gelatina, como se fosse uma gelatina incolor.”
Com o passar do tempo, esse gel pode sofrer alterações e formar pequenas condensações. As sombras dessas estruturas são percebidas pela pessoa como pontos ou fios diante dos olhos.
Por isso, ter uma mosca volante antiga e estável não significa, por si só, que exista uma complicação do diabetes. O contexto em que ela aparece é importante.
Quando uma mosca volante merece investigação?
A principal diferença está na mudança do padrão.
Uma pessoa que já percebe alguns pontos há bastante tempo e não apresenta outras alterações tem uma situação diferente daquela que passa a enxergar, de maneira repentina, várias manchas novas.
A American Academy of Ophthalmology orienta procurar avaliação oftalmológica rapidamente quando surgem muitas moscas volantes novas, flashes de luz ou uma sombra que cubra parte da visão. Esses sinais podem estar relacionados a alterações na retina, incluindo rasgos ou descolamento.
No diabetes, a investigação ganha uma particularidade. A doença pode provocar alterações nos vasos sanguíneos da retina e, em estágios mais avançados, algumas dessas alterações podem favorecer sangramentos dentro do olho.
Por isso, uma queixa nova não deve ser automaticamente atribuída à idade ou considerada apenas uma característica já conhecida.
O diabetes muda a forma de olhar para esse sintoma
É justamente nesse ponto que o histórico da pessoa faz diferença.
Durante a entrevista, Letícia chama atenção para uma situação que merece cuidado: uma pessoa jovem, com diabetes há muitos anos, que passa a apresentar uma alteração nova na visão.
“Um paciente de 25, 30 anos, com uma queixa como se fosse uma mosca volante, mas que tem diabetes há 15 anos, bom, peraí.”
A fala mostra por que a mesma queixa pode ter significados diferentes dependendo do contexto.
Isso não significa que toda pessoa jovem com diabetes que perceba uma mosca volante esteja diante de uma complicação da doença. Significa que o sintoma precisa ser interpretado junto com o histórico clínico e, quando necessário, investigado por um oftalmologista.
Retinopatia diabética pode começar sem mudar a visão
Outro ponto importante é que a retinopatia diabética não costuma começar com uma alteração na visão evidente.
A doença ocorre quando níveis elevados de glicose ao longo do tempo contribuem para alterações nos pequenos vasos sanguíneos da retina. Nas fases iniciais, essas mudanças podem não provocar sintomas perceptíveis.
É justamente por isso que o acompanhamento oftalmológico não deve depender apenas da presença de algum incômodo nos olhos.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda iniciar o rastreamento da retinopatia em adultos com diabetes tipo 2 no momento do diagnóstico. Para adultos com diabetes tipo 1, a recomendação é começar após cinco anos de duração da doença.
Após a avaliação inicial, a frequência dos exames depende dos achados. Na ausência de retinopatia ou em casos leves, o acompanhamento pode ser anual, enquanto alterações mais avançadas podem exigir intervalos menores.
O exame ajuda a descobrir o que está por trás da alteração
Para investigar a retina, o oftalmologista pode realizar exames como a avaliação do fundo de olho, o mapeamento de retina e a retinografia.
A avaliação inicial pode ser feita com as pupilas dilatadas e incluir exames capazes de registrar ou observar diretamente a retina. A retinografia também pode ser utilizada para ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente em locais onde o atendimento oftalmológico é mais limitado.
A tecnologia, portanto, pode ajudar na identificação de alterações, mas não elimina a necessidade de avaliação especializada em todas as situações.
E há uma diferença importante entre rastrear uma doença que pode não apresentar sintomas e investigar uma mudança que acabou de aparecer. No segundo caso, o relato da pessoa também é uma parte importante da avaliação.
E se os pontos vierem acompanhados de flashes?
Os flashes são diferentes das moscas volantes. Eles podem ser percebidos como pequenos clarões ou riscos luminosos, mesmo quando não existe uma fonte de luz no ambiente.
Quando aparecem junto com um aumento repentino de moscas volantes, sombra no campo de visão ou perda visual, a avaliação deve ser feita rapidamente. Esses sinais podem indicar alterações na retina que precisam de atendimento.
Uma perda visual súbita também não deve ser automaticamente atribuída ao diabetes. Existem diversas causas possíveis para uma alteração repentina na visão, e somente uma avaliação oftalmológica pode determinar o que está acontecendo.
Controle do diabetes também faz parte do cuidado com os olhos
O acompanhamento da retina não substitui o cuidado diário com o diabetes. O controle da glicose e o acompanhamento médico fazem parte da prevenção e do cuidado com as complicações que podem afetar os olhos.
Para Letícia, esse acompanhamento deve ser contínuo e não depender apenas do aparecimento de sintomas.
“Eu falo que do primeiro ao décimo lugar é o controle clínico do diabetes do paciente. Isso é o mais importante.”
A orientação é olhar para a saúde dos olhos como parte do acompanhamento da própria condição, e não esperar que algum sintoma apareça para procurar ajuda.
No caso das moscas volantes, a mensagem é semelhante: um ponto que já existe há anos e não mudou não representa a mesma situação de uma alteração que surge de repente ou vem acompanhada de flashes, sombra ou redução da visão.
Por isso, conhecer o próprio padrão da visão também ajuda. Quando algo muda, essa informação pode ser importante para que o oftalmologista decida se é necessário investigar.
E, como reforça Letícia ao falar sobre o cuidado com quem vive com diabetes, a orientação não é viver com medo das complicações, mas manter o acompanhamento e procurar avaliação quando houver uma mudança.
“Não tenha medo. Cuide de você.”
