A relação entre diabetes e obesidade envolve fatores que vão além da alimentação e do peso. Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, as duas condições podem interferir no tratamento uma da outra.
A obesidade é uma doença crônica, por isso, o tratamento não funciona como o de uma condição que exige uma medicação por poucos dias. A pessoa precisa manter o acompanhamento e lidar com diferentes fatores ao longo do tempo.
Além disso, pessoas com diabetes tipo 2 que participam de estudos sobre tratamento da obesidade apresentam resposta menor à perda de peso do que pessoas sem diabetes.
“Ter diabetes e ter obesidade dificulta o tratamento da obesidade”, explicou Denise Franco durante entrevista ao DiabetesCast.
A relação também acontece no sentido contrário. A obesidade pode dificultar o controle do diabetes tipo 2 e aumentar a resistência à insulina.
Por que quem tem diabetes pode ter mais dificuldade para perder peso?
Denise Franco explica que o tratamento da obesidade envolve acesso à terapia, continuidade do acompanhamento e aspectos emocionais.
Além disso, a própria característica crônica da doença interfere na adesão. A pessoa não começa um tratamento com uma data definida para encerrá-lo.
Esse cenário pode levar à necessidade de acrescentar medicamentos ao longo do acompanhamento. Portanto, o tratamento exige mudanças que possam ser mantidas por períodos prolongados.
A especialista também destaca que o acesso ao tratamento interfere nesse processo. Nem todas as pessoas conseguem ter acesso às mesmas opções de cuidado ou manter o acompanhamento necessário.
Por isso, reduzir a questão a uma escolha individual não explica toda a relação entre obesidade, diabetes e perda de peso.
Obesidade também interfere no tratamento do diabetes tipo 2
A obesidade aparece como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. No entanto, ela não explica sozinha o surgimento da doença.
Segundo Denise Franco, existe um componente genético importante. Pessoas que têm familiares com diabetes tipo 2 apresentam maior possibilidade de desenvolver a condição.
Nesse contexto, o estilo de vida pode atuar sobre fatores de risco. A especialista cita a obesidade e o sedentarismo entre os principais fatores que podem sofrer intervenção.
A endocrinologista também afirma que cerca de 90% das pessoas com diabetes tipo 2 apresentam obesidade. No entanto, existe uma parcela de pessoas com diabetes tipo 2 que não tem obesidade.
Estudos citados durante a entrevista mostram que mudanças no estilo de vida podem postergar o aparecimento do diabetes tipo 2 em pessoas com pré-diabetes ou risco aumentado.
Essa mudança envolve alimentação planejada e atividade física programada. Ainda assim, reduzir fatores de risco não significa eliminar completamente a possibilidade de desenvolver diabetes.
Manter a mudança pode fazer diferença no risco de diabetes
A duração das mudanças também entra nessa equação. Denise Franco explica que pessoas que conseguiram manter um estilo de vida diferente e permaneceram ativas ficaram mais tempo sem desenvolver a doença.
No entanto, algumas pessoas desse grupo desenvolveram diabetes posteriormente. Nesse caso, a intervenção pode ter contribuído para adiar o aparecimento da doença.
Isso significa que a mudança de hábitos não garante que uma pessoa nunca terá diabetes tipo 2. Ela pode, porém, reduzir o risco ou retardar o diagnóstico em determinados grupos.
Esse ponto também ajuda a explicar por que a afirmação de que diabetes tipo 2 acontece apenas por causa do estilo de vida não representa toda a realidade da doença.
Diabetes tipo 1 também pode acontecer junto com obesidade
A relação entre diabetes e obesidade não se limita ao tipo 2. Segundo Denise Franco, o número de pessoas com diabetes tipo 1 e obesidade também está aumentando.
Esse cenário muda algumas questões do tratamento. No diabetes tipo 1, a insulina continua sendo a base da terapia, porque a pessoa precisa substituir a insulina que o organismo não produz adequadamente.
No entanto, o aumento do peso pode elevar a resistência à insulina. Com isso, a pessoa pode precisar ajustar as doses de insulina basal e também as doses utilizadas nas refeições.
A obesidade também aumenta fatores de risco cardiovascular em pessoas com diabetes tipo 1. Além disso, a especialista cita possíveis impactos nas articulações e na saúde mental.
Portanto, o acompanhamento precisa considerar mais do que a glicemia. O peso pode interferir na quantidade de insulina utilizada e em outros aspectos da rotina de quem vive com diabetes tipo 1.
Nova recomendação aborda obesidade em pessoas com diabetes tipo 1
Durante a entrevista, Denise Franco citou uma nova recomendação da Associação Americana de Diabetes para o manejo da obesidade em pessoas com diabetes tipo 1.
Segundo a endocrinologista, a publicação apresenta orientações para lidar com a presença das duas condições.
A especialista também explicou que existem estudos clínicos em andamento sobre o uso de medicamentos para obesidade em pessoas com diabetes tipo 1. Algumas dessas medicações já são utilizadas por pessoas com diabetes tipo 1, mas o tema ainda envolve investigação clínica.
Nesse contexto, a recomendação representa uma atualização na forma de abordar uma situação que passou a receber mais atenção: a presença simultânea de diabetes tipo 1 e obesidade.
Alimentação também interfere no controle da glicemia
A alimentação aparece como parte do cuidado, mas não deve ser analisada de forma isolada.
Durante a entrevista, Denise Franco explicou que uma alimentação organizada pode contribuir para o controle da glicemia. Ela citou como exemplo a composição de um prato com 50% de salada, 25% de carboidratos e 25% de proteínas e gorduras.
Além disso, a alimentação influencia a quantidade de insulina necessária para o controle da glicemia em pessoas com diabetes tipo 1.
Quando o peso aumenta, a resistência à insulina pode aumentar. Com isso, a pessoa pode precisar de ajustes na insulina basal e nas doses utilizadas nas refeições.
No entanto, esse cuidado não se aplica apenas a quem tem diabetes. Uma alimentação equilibrada também pode contribuir para reduzir riscos relacionados à pressão arterial, ao colesterol e à glicemia.
Obesidade infantil aumenta e diabetes tipo 2 aparece mais entre crianças
A relação entre obesidade e diabetes também envolve crianças e adolescentes.
Denise Franco relatou uma experiência realizada cerca de dez anos atrás em um programa voltado à redução do estigma relacionado ao diabetes nas escolas. A iniciativa contou com participação da Federação Internacional de Diabetes, da ADJ e da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Durante o projeto, profissionais avaliavam peso e altura de crianças e levavam informações sobre alimentação saudável e diabetes tipo 1 e tipo 2.
Segundo Denise, um dos pontos observados foi o aumento da diferença entre o índice de massa corporal esperado e o encontrado em crianças na idade pré-escolar e no início da fase escolar.
A expectativa já naquele período era que o excesso de peso na infância pudesse influenciar a ocorrência de obesidade na vida adulta.
De acordo com a endocrinologista, o cenário não mudou e o número de crianças com obesidade aumentou. Além disso, o diabetes tipo 2 passou a aparecer com mais frequência entre crianças e adolescentes.
Criança não tem apenas diabetes tipo 1
O diabetes tipo 1 continua sendo o tipo mais frequente entre crianças e adolescentes. No entanto, não é o único.
Segundo Denise Franco, crianças e adolescentes também podem desenvolver diabetes tipo 2. Embora a incidência ainda não seja alta no Brasil, a especialista afirma que ela está aumentando.
Existe ainda o diabetes monogênico, conhecido como MODY. Nesse caso, alterações genéticas estão relacionadas ao desenvolvimento da doença.
Por isso, a presença de diabetes na infância não permite concluir automaticamente que se trata de diabetes tipo 1.
Sedentarismo infantil envolve mais do que o uso de telas
O aumento do sedentarismo também entrou na discussão sobre obesidade infantil. No entanto, Denise Franco destaca que não existe uma única causa.
A alimentação, a atividade física, o espaço disponível para brincar, as políticas públicas e o custo dos alimentos podem influenciar esse cenário.
O uso de telas também aparece nesse contexto. A redução do espaço para atividades físicas e brincadeiras pode contribuir para uma rotina menos ativa.
Por outro lado, a especialista reforça que a obesidade resulta da combinação de diferentes fatores. Portanto, não é possível atribuir o problema exclusivamente às telas ou à alimentação.
Estilo de vida não explica sozinho o diabetes tipo 2
A associação direta entre diabetes tipo 2 e estilo de vida também pode gerar estigma.
Segundo Denise Franco, uma pessoa pode ter hábitos considerados pouco saudáveis e não desenvolver diabetes tipo 2. Ao mesmo tempo, pessoas com hábitos considerados saudáveis podem desenvolver a doença.
A genética participa desse processo. A herança familiar pode aumentar a possibilidade de desenvolver diabetes tipo 2.
Além disso, estudos identificaram diferentes formas de apresentação da doença. Denise citou uma publicação que dividiu o diabetes em cinco grupos de características diferentes.
Entre esses grupos, um deles reúne pessoas mais magras. Isso reforça que o diabetes tipo 2 não depende apenas da presença de obesidade.
Culpa e preconceito podem atrasar o cuidado
A forma como profissionais e pacientes conversam sobre obesidade também interfere no cuidado.
Durante a entrevista, Denise Franco discutiu o estigma relacionado ao peso e explicou que algumas pessoas podem evitar ou retardar o tratamento por medo de sofrer preconceito.
A especialista citou situações em que profissionais atribuem diferentes queixas à obesidade antes de investigar outras causas.
Esse tipo de abordagem pode fazer com que a pessoa não receba atenção adequada para outros problemas de saúde.
Por isso, Denise defende que profissionais estejam preparados para atender pessoas com obesidade e conduzir a conversa de forma adequada.
O objetivo é tratar a obesidade como uma doença crônica e não apenas como uma questão de aparência.
Obesidade pode influenciar os estágios iniciais do diabetes tipo 1
A entrevista também abordou uma questão menos conhecida: a relação entre obesidade e os estágios iniciais do diabetes tipo 1.
Segundo Denise Franco, estudos avaliaram a influência do estilo de vida em pessoas que apresentam anticorpos associados ao diabetes tipo 1.
Nessas situações, a orientação inclui alimentação equilibrada e atividade física. A especialista explica que essas medidas podem postergar o aparecimento da doença em algumas pessoas.
No entanto, isso não significa prevenir o diabetes tipo 1.
A doença apresenta estágios. No estágio 1, a pessoa apresenta anticorpos associados ao diabetes tipo 1, mas não apresenta alteração da glicemia.
No estágio 2, a pessoa apresenta pelo menos dois desses anticorpos e também apresenta alteração da glicemia.
Já no estágio 3 ocorre o diagnóstico do diabetes, com a presença dos anticorpos e alteração da glicemia.
Segundo Denise, quando a pessoa recebe o diagnóstico, a doença já passou por uma história anterior que nem sempre era identificada.
Rastreio pode identificar pessoas antes do diagnóstico
O rastreamento do diabetes tipo 1 também passou a ganhar espaço porque hoje existem opções para identificar pessoas em estágios anteriores da doença.
Denise Franco explicou que já existe, nos Estados Unidos, uma medicação aprovada para pessoas no estágio 2 do diabetes tipo 1.
Segundo ela, o objetivo dessa medicação é retardar a progressão para o diagnóstico e preservar o peptídeo C, marcador relacionado à reserva das células beta.
A existência de uma intervenção nesse estágio amplia a importância da identificação precoce das alterações relacionadas ao diabetes tipo 1.
O tratamento precisa considerar a pessoa além do peso
A relação entre diabetes e obesidade envolve fatores genéticos, alimentação, atividade física, acesso ao tratamento, adesão, saúde mental e características próprias de cada tipo de diabetes.
No diabetes tipo 2, mudanças no estilo de vida podem reduzir o risco ou postergar o aparecimento da doença em pessoas com risco aumentado. No entanto, elas não eliminam o papel da genética.
No diabetes tipo 1, a insulina continua como base do tratamento. Porém, a presença de obesidade pode aumentar a resistência à insulina, alterar a necessidade de doses e acrescentar fatores de risco.
Enquanto isso, crianças e adolescentes também passaram a fazer parte dessa discussão, diante do aumento da obesidade e da ocorrência de diabetes tipo 2 nessa faixa etária.
Nesse cenário, o tratamento precisa considerar a doença, os fatores que interferem nela e as condições que podem dificultar o cuidado.
