A glicemia das 3h da manhã pode ajudar a entender o que acontece com a pessoa com diabetes durante o sono. A medida permite observar se a glicose permanece alta, cai durante a madrugada ou apresenta alterações que não são percebidas durante a noite.
A nutricionista educadora em diabetes e membro do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Tarcila Campos, explica que essa informação pode ajudar na avaliação do tratamento, principalmente para quem usa insulina.
Segundo ela, a glicemia alta ao acordar não indica, sozinha, o que aconteceu durante a madrugada. Por isso, observar o comportamento da glicose durante o sono pode ajudar a diferenciar situações que exigem abordagens diferentes.
Diabetes e glicemia durante a madrugada
Uma pessoa com diabetes pode acordar com a glicose alta mesmo sem ter consumido uma refeição fora do habitual na noite anterior. Nesse contexto, a investigação precisa considerar o comportamento da glicemia durante o sono.
Tarcila explica que existem situações diferentes. A pessoa pode passar várias horas com a glicose elevada ou pode apresentar uma queda durante a madrugada.
Além disso, o organismo pode reagir a uma hipoglicemia sem que a pessoa perceba. Nesse caso, os hormônios responsáveis pela resposta do corpo à queda da glicose podem atuar para elevar novamente a glicemia.
Por outro lado, a pessoa pode interpretar a glicemia alta ao acordar como consequência da alimentação da noite anterior. No entanto, sem observar a curva durante a madrugada, não é possível saber o que ocorreu naquele período.
O que a glicemia das 3h pode mostrar
A medida feita durante a madrugada pode funcionar como uma informação adicional para entender o comportamento da glicose.
Tarcila explica que uma das possibilidades consiste em identificar se a pessoa permanece com a glicemia alta durante a noite. Nesse caso, a equipe de saúde pode avaliar o tratamento e a necessidade de ajustes.
Outra possibilidade envolve uma queda da glicose durante o sono. O organismo pode reagir a essa queda e elevar a glicemia novamente antes do despertar.
Por isso, apenas verificar a glicemia ao acordar pode não mostrar todo o processo que ocorreu durante a noite.
Por que a monitorização ajuda quem usa insulina
A monitorização ganha importância para pessoas que usam insulina e enfrentam dúvidas sobre o comportamento da glicose durante a madrugada.
Segundo Tarcila, uma estratégia pode envolver a realização de uma medida por volta das 3h em alguns dias. A partir dessas informações, a pessoa e a equipe de saúde conseguem observar um padrão.
O uso de um sensor de glicose também permite acompanhar o comportamento da glicemia durante várias horas. Dessa forma, a pessoa consegue visualizar a curva e identificar momentos de queda ou elevação.
No entanto, a decisão sobre a frequência das medições e sobre mudanças no tratamento deve considerar o tratamento utilizado e a avaliação da equipe de saúde.
Medo de hipoglicemia pode mudar a rotina antes de dormir
O receio de ter uma hipoglicemia durante o sono aparece com frequência entre pessoas que já passaram por esse tipo de episódio.
Esse medo pode levar algumas pessoas a comer antes de dormir para tentar evitar uma nova queda. No entanto, Tarcila explica que a ceia não representa uma necessidade para todas as pessoas com diabetes.
A necessidade depende do tratamento, do horário das refeições, do tipo de insulina utilizada e do comportamento da glicemia durante a madrugada.
Além disso, uma quantidade maior de carboidratos antes de dormir pode manter a glicose elevada durante várias horas.
Ceia não é obrigatória para todas as pessoas com diabetes
A ideia de que toda pessoa com diabetes precisa comer antes de dormir não se aplica a todos os casos.
Tarcila explica que a alimentação noturna precisa considerar o tratamento de cada pessoa. Quem utiliza determinados tipos de insulina pode ter necessidades diferentes de quem utiliza outras estratégias de tratamento.
A NPH e a insulina regular, por exemplo, apresentam períodos de ação que precisam entrar no planejamento alimentar.
Segundo a nutricionista, quem utiliza NPH e regular precisa conhecer os horários de aplicação e os períodos de ação dessas insulinas. Essas informações ajudam a definir uma estratégia alimentar adequada.
Por outro lado, quem não apresenta necessidade de uma ceia não precisa criar esse hábito apenas por ter diabetes.
Glicemia alta ao acordar precisa ser investigada
A glicemia elevada pela manhã pode ter diferentes explicações. Por isso, observar apenas o valor do jejum não permite identificar necessariamente o que ocorreu durante a noite.
Se a pessoa mantém a glicemia alta durante toda a madrugada, o tratamento pode precisar de avaliação. Se ocorre uma queda seguida de recuperação, a situação também exige uma análise diferente.
Nesse contexto, registrar informações sobre alimentação, atividade física, horários e glicemia pode ajudar a equipe de saúde a identificar padrões.
Além disso, mudanças na rotina podem alterar a resposta da glicose. Horários diferentes para refeições, atividade física e alimentação fora de casa podem modificar o comportamento glicêmico.
Álcool pode aumentar o risco de hipoglicemia durante o sono
O consumo de álcool também aparece como um ponto de atenção para quem usa insulina.
Segundo Tarcila, o álcool interfere no trabalho do fígado. O órgão participa da manutenção da glicose no sangue, mas passa a priorizar o processamento do álcool.
Enquanto isso, a insulina aplicada continua atuando no organismo. Dessa forma, a pessoa pode apresentar maior risco de hipoglicemia durante a madrugada.
Esse efeito está relacionado ao álcool, independentemente do tipo de bebida. Portanto, escolher uma bebida com menos carboidratos não elimina o risco associado ao consumo de álcool.
Atividade física também pode mudar a glicemia durante a madrugada
A atividade física pode aumentar a resposta do organismo à insulina. Por isso, algumas pessoas podem apresentar maior risco de hipoglicemia depois de se exercitar.
Nesse cenário, a glicemia durante a madrugada pode fornecer informações importantes. A pessoa pode identificar se existe uma queda após a atividade física e discutir uma estratégia com a equipe de saúde.
O comportamento, entretanto, varia de acordo com o tratamento e com as características de cada pessoa.
O que observar antes de mudar a alimentação
A principal informação trazida por Tarcila é que a alimentação antes de dormir não deve ser definida apenas pelo medo da hipoglicemia.
É preciso observar o tratamento utilizado, os horários das refeições, a atividade física e o comportamento da glicemia.
Além disso, a quantidade de carboidrato da ceia pode influenciar a glicemia durante a madrugada. A combinação com proteínas e gorduras também pode modificar a resposta alimentar.
Por isso, uma ceia que funciona para uma pessoa pode não produzir o mesmo resultado em outra.
A monitorização ajuda justamente a identificar essas diferenças e fornece informações para que a equipe de saúde avalie o tratamento.
