O diagnóstico do diabetes costuma marcar o início de uma nova rotina. Além de aprender sobre medicamentos, alimentação e monitoramento da glicemia, a pessoa precisa lidar com mudanças que afetam a vida diária. Segundo o psicólogo Cláudio Cancellieri, esse momento também pode definir como ela enxergará o tratamento nos anos seguintes.
Durante participação no DiabetesCast, o especialista afirmou que o início do tratamento representa uma oportunidade para construir uma relação mais saudável com a condição. Para ele, o cuidado com a saúde mental deve começar logo após o diagnóstico.
O primeiro contato com o diabetes pode mudar toda a jornada
Cláudio Cancellieri chama esse período de “janela terapêutica”. Segundo ele, é nesse momento que a pessoa começa a formar crenças sobre o diabetes e sobre o próprio tratamento.
Se as primeiras orientações forem claras, o paciente tende a compreender melhor a condição e incorporar o autocuidado à rotina. Por outro lado, experiências negativas podem gerar medo, culpa e sofrimento que acompanham a pessoa durante muitos anos.
“O momento do diagnóstico é a janela terapêutica para o serviço de saúde mental atuar. Se a pessoa não tem boas experiências e boas orientações nesse período, cria crenças relacionadas ao tratamento que pode levar para o resto da vida”, explicou.
O autocuidado depende da saúde mental
Para o psicólogo, existe um ponto que precisa ser compreendido antes de qualquer orientação sobre alimentação ou medicamentos.
“O autocuidado só acontece quando estamos bem. Se não estamos bem, não nos cuidamos”, afirmou.
Segundo ele, viver com diabetes exige decisões diárias. Contar carboidratos, aplicar insulina, interpretar resultados e fazer ajustes fazem parte da rotina. Quando essas tarefas passam a superar os recursos emocionais disponíveis, surge o sofrimento relacionado ao autocuidado.
Esse quadro recebe o nome de distresse no diabetes e pode evoluir para o burnout, caracterizado pelo esgotamento em relação ao tratamento.
Apoio faz diferença desde o início
Cláudio destaca que o diabetes não afeta apenas quem recebeu o diagnóstico.
“Diabetes é uma doença da família, do grupo, não é do indivíduo, porque afeta a todos e todos têm que participar”, afirmou.
Segundo ele, o apoio de familiares e amigos ajuda a reduzir sentimentos de isolamento e sobrecarga. Além disso, o suporte oferecido pela equipe de saúde permite que a pessoa desenvolva mais segurança para lidar com os desafios do tratamento.
O psicólogo diferencia apoio e suporte. O suporte vem dos profissionais de saúde, como médicos, nutricionistas e psicólogos. Já o apoio está nas pessoas que fazem parte da convivência diária.
O diabetes não pode ocupar toda a vida
Durante a conversa, Cláudio também explicou que o tratamento precisa fazer parte da rotina, mas não deve se tornar o centro de toda a vida.
Segundo ele, pessoas com diabetes tomam cerca de 180 decisões relacionadas ao tratamento todos os dias. Apesar desse número chamar atenção, ele lembra que um adulto toma aproximadamente 35 mil decisões diariamente.
Para o especialista, o peso atribuído a essas decisões pode aumentar o sofrimento.
“Se você vê o tratamento como algo completamente diferente da sua vida, acaba dando um peso que ninguém consegue sustentar”, explicou.
Aceitar não significa desistir
Ao falar sobre adaptação ao diabetes, Cláudio afirma que aceitar o diagnóstico não significa conformismo.
Segundo ele, o primeiro passo é reconhecer que o diabetes passou a fazer parte da realidade da pessoa. Depois vem o ajustamento, quando a rotina começa a ser reorganizada. Por fim, acontece a adaptação, permitindo que o diabetes seja apenas uma das características da vida, e não a única.
Para o psicólogo, esse processo ajuda a reduzir a sobrecarga emocional e favorece um autocuidado mais sustentável ao longo do tempo.
