A hipoglicemia costuma aparecer de forma silenciosa. Primeiro vem um suor frio inesperado. Depois, tremor, fraqueza, dificuldade de raciocinar e aquela sensação de que algo está errado no corpo. Em muitos casos, a glicose cai rapidamente e a pessoa nem percebe o risco imediato. Foi justamente essa discussão que ganhou força após a morte suspeita do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, levantando dúvidas sobre os perigos da hipoglicemia grave e o uso da insulina.
Nas redes sociais, o assunto viralizou em poucas horas. Enquanto isso, pessoas com diabetes passaram a relatar medo e insegurança diante de conteúdos alarmistas sobre o tema. Para quem depende de insulina diariamente, a preocupação não é pequena. Afinal, o medicamento é essencial para milhões de pessoas e faz parte da rotina de tratamento de quem vive com diabetes tipo 1 e também de parte dos pacientes com diabetes tipo 2.
No entanto, especialistas alertam que a hipoglicemia não deve ser tratada como um efeito inevitável ou como consequência automática do uso de insulina. O episódio acontece quando há queda importante da glicose no sangue e pode ter diferentes causas, incluindo jejum prolongado, atividade física intensa, excesso de insulina, atraso nas refeições e consumo de álcool.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, a hipoglicemia é caracterizada quando a glicose fica abaixo de 70 mg/dL. Ainda assim, os sintomas variam bastante e nem sempre aparecem da mesma maneira em todas as pessoas.
Para quem convive com diabetes, entender esses sinais pode fazer diferença importante na prevenção de complicações.
O que acontece no corpo durante a hipoglicemia
A glicose funciona como principal fonte de energia do organismo, especialmente para o cérebro. Quando os níveis começam a cair, o corpo tenta reagir liberando hormônios como adrenalina e glucagon. É justamente essa resposta que provoca sinais clássicos da hipoglicemia.
Entre os sintomas mais comuns estão tremor, suor frio, palpitação, fome intensa, tontura e sensação súbita de fraqueza. Além disso, algumas pessoas relatam irritação, ansiedade e dificuldade de concentração.
No entanto, quando a glicose continua caindo, o cérebro passa a sofrer pela falta de energia. Nesse estágio, podem surgir desorientação, alterações na fala, visão turva e sonolência intensa. Em situações mais graves, existe risco de convulsão e perda de consciência.
Segundo a endocrinologista Denise Franco, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, episódios frequentes podem reduzir a percepção dos sintomas iniciais. “O paciente deixa de perceber os sinais de alerta e isso aumenta o risco de hipoglicemias severas”, explica.
Esse quadro é conhecido como hipoglicemia inadvertida e costuma exigir acompanhamento mais próximo da equipe médica.
Hipoglicemia grave pode acontecer durante o sono
Um dos maiores desafios é a hipoglicemia noturna. Isso porque a queda da glicose pode acontecer enquanto a pessoa dorme, dificultando a percepção dos sintomas.
Muitas vezes, os sinais aparecem apenas ao acordar, com dor de cabeça, suor excessivo durante a noite, sensação de cansaço extremo ou glicemia desregulada pela manhã.
Além disso, exercícios físicos intensos no período da noite podem aumentar o risco de hipoglicemia tardia, principalmente em pessoas que usam insulina.
De acordo com a American Diabetes Association, tecnologias como sensores de glicose com alarmes ajudam a identificar quedas rápidas antes que o quadro se torne grave.
Hoje, esses dispositivos já fazem parte da rotina de muitos pacientes com diabetes tipo 1. Além disso, também vêm sendo utilizados por pessoas com diabetes tipo 2 em insulinoterapia.
Quem usa insulina precisa ter mais atenção?
Pessoas que usam insulina realmente apresentam maior risco de hipoglicemia. No entanto, isso não significa que a insulina seja perigosa quando utilizada corretamente.
Especialistas reforçam que o medicamento salva vidas e continua sendo indispensável para o controle do diabetes em milhões de pacientes no mundo inteiro.
O problema costuma acontecer quando há desequilíbrio entre dose de insulina, alimentação, atividade física e necessidade do organismo naquele momento.
No caso do influenciador Gabriel Ganley, vídeos antigos mostrando relatos sobre uso de insulina no contexto esportivo voltaram a circular nas redes sociais após a morte suspeita por hipoglicemia severa. Entretanto, até o momento, não existe confirmação oficial sobre a causa da morte.
Nesse contexto, médicos alertam para o risco da banalização do uso da insulina fora das indicações clínicas adequadas, especialmente em práticas relacionadas ao fisiculturismo.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, qualquer uso da substância deve ocorrer com acompanhamento médico e monitoramento rigoroso da glicose.
Como agir diante de uma queda de glicose
Ao perceber sintomas de hipoglicemia, a primeira recomendação é medir a glicemia, sempre que possível. Se a queda for confirmada, o tratamento costuma incluir carboidrato de absorção rápida, como suco comum, açúcar dissolvido em água ou tabletes de glicose.
Depois disso, a orientação é repetir a medição cerca de 15 minutos depois para verificar se houve recuperação adequada.
Por outro lado, em casos de perda de consciência ou dificuldade para engolir, não se deve oferecer líquidos ou alimentos pela boca. Nessas situações, o risco de engasgo aumenta e o atendimento médico deve ser imediato.
Além disso, pessoas com maior risco podem receber prescrição de glucagon, medicamento usado em emergências graves de hipoglicemia.
Apesar do medo gerado por casos de grande repercussão, especialistas reforçam que informação correta e educação em diabetes continuam sendo fundamentais para reduzir riscos e garantir segurança no tratamento.
