Quem vive com diabetes e usa insulina já se fez essa pergunta em algum momento: será que o hormônio está fazendo eu engordar? A dúvida é legítima e frequente. Portanto, antes de responder com um simples sim ou não, é preciso entender como ela funciona no organismo.
A nutricionista Tarcila Campos, especialista em diabetes, explica que a insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas com papel anabólico em diferentes processos metabólicos. Ela auxilia o organismo a construir moléculas complexas a partir de moléculas simples, entre elas, o transporte de carboidratos para dentro das células, a síntese de glicogênio, a produção de proteínas nos músculos e o acúmulo de triacilglicerol nas células de gordura.
Nesse contexto, existe em condições normais um equilíbrio entre anabolismo e catabolismo no organismo. A insulina inclina essa balança para o lado construtivo e, é justamente por isso que sua ausência tem efeito oposto.
O que acontece quando a insulina está em falta
Para entender o papel dela no peso, vale refletir sobre o que ocorre quando ela falta. Uma das características clínicas mais comuns em pessoas com diabetes que apresentam deficiência de insulina é a perda de peso não intencional. Sem o hormônio, o organismo não consegue usar a glicose como fonte de energia e passa a degradar gordura e músculo para se manter, um estado predominantemente catabólico.
Por isso, quando o tratamento com insulina é iniciado, esse processo se inverte. A nutricionista Tarcila Campos esclarece que, ao recuperar a ação insulínica, o paciente retoma o equilíbrio metabólico e, com ele, o peso perdido. Nesse sentido, a recuperação de peso é, na maioria dos casos, um sinal de que o tratamento está funcionando, não um efeito colateral indesejado.
Então a insulina engorda? O mecanismo é o mesmo para todo mundo
Sim, ela pode contribuir para o ganho de peso, mas o raciocínio é mais simples do que parece. Tarcila Campos explica de forma direta: quem não tem diabetes também engorda se comer mais do que o corpo precisa. O excesso de comida é armazenado dentro das células e vira gordura, e é exatamente isso que leva ao ganho de peso.
No diabetes, o mecanismo é o mesmo. A pessoa que não produz insulina em quantidade suficiente faz sua alimentação normalmente. No entanto, se ela começa a comer mais do que precisa e compensa tudo com doses de insulina, fará exatamente o que qualquer pessoa sem diabetes faz nessa situação, e vai engordar da mesma forma.
A insulina, nesse caso, não é a vilã: ela apenas cumpre sua função de transportar o excesso calórico para dentro das células.
Portanto, o que determina o ganho de peso não é o uso da insulina em si, mas o desequilíbrio entre o que se come e o que o corpo realmente precisa.
Quatro situações que podem levar ao ganho de peso no tratamento
No contexto do tratamento, Tarcila Campos aponta quatro situações específicas que merecem atenção. A primeira é a recuperação do peso perdido antes do diagnóstico, o que, como explicado, representa uma normalização esperada. A segunda é a compensação alimentar: consumir mais carboidratos ou calorias do que o necessário e ajustar as doses de insulina para compensar esse excesso leva ao acúmulo progressivo de gordura.
A terceira situação envolve o tratamento da hipoglicemia. Quedas bruscas de glicose geram fome intensa e, quando corrigidas com ingestão exagerada de alimentos, criam um ciclo contínuo de calorias excedentes. E, por fim, doses de insulina superiores à real necessidade também estimulam o armazenamento de gordura, especialmente na região abdominal.
O equilíbrio entre dieta e insulina é o ponto central
A chave para evitar o ganho de peso não está em suspender ou reduzir a medicação por conta própria, conduta que traz riscos graves à saúde. Já a omissão proposital de doses de insulina para controlar o peso, conhecida como diabulimia, é uma prática extremamente perigosa e que exige atenção clínica especializada.
O que realmente faz diferença, segundo Tarcila Campos, é o equilíbrio entre dieta adequada e dose correta de insulina. Nesse sentido, o acompanhamento conjunto de endocrinologista e nutricionista é fundamental para ajustar o plano alimentar ao tratamento e evitar tanto o excesso calórico quanto as correções desnecessárias de dose.
Portanto, a insulina não engorda por si só. A insulina restaura o metabolismo e, quando usada com equilíbrio, é parte central de um tratamento que protege a saúde e o controle glicêmico a longo prazo.