Muita gente com diabetes evita a vacina da gripe com medo de que a aplicação descompense a glicemia. Essa preocupação aparece com frequência nos consultórios de endocrinologia. No entanto, a ciência aponta para um caminho diferente: para quem convive com diabetes, a imunização é ainda mais necessária, não menos.
A explicação vem da médica Reine Chaves, coordenadora do Departamento de Diabetes e Imunizações da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Segundo a especialista, a pessoa com diabetes é mais vulnerável a infecções por causa da hiperglicemia. Esse quadro altera os mecanismos de resposta imunológica do organismo.
Por que o diabetes aumenta o risco de infecções
De acordo com Reine Chaves, o impacto ocorre em diferentes camadas do sistema de defesa. “Pessoas com diabetes apresentam risco de infecção devido a múltiplos mecanismos da resposta imunológica causada pela hiperglicemia”, afirma a coordenadora, destacando que a alteração vai desde a imunidade inata até a imunidade adaptativa, com diminuição da migração das células de defesa.
Na prática, isso significa que o corpo demora mais para reagir a vírus e bactérias. Segundo a especialista, com níveis de glicemia consistentemente acima de 200, os pacientes começam a apresentar alteração na imunidade nata. Isso causa prejuízo na mobilidade das células que têm atividade de destruição viral. Além disso, a resposta celular tende a ser mais lenta em quem está com o diabetes mal controlado.
Nesse contexto, quanto pior o controle glicêmico, maior a chance de o sistema de defesa funcionar de forma mais lenta e prejudicada. Por isso, a orientação da SBD é clara: a vacina é a melhor forma de prevenir essas complicações.
Gripe e pneumonia: as complicações que mais preocupam
A gripe, segundo Reine Chaves, pode agravar consideravelmente o risco de infecção em quem tem diabetes, levando a complicações pulmonares e pneumonias que resultam em hospitalizações prolongadas. Por esse motivo, a SBD orienta a imunização anual contra o vírus influenza, além de reforçar a necessidade da vacina contra o pneumococo.
Esse risco maior de hospitalização e de complicações, inclusive após o internamento hospitalar, é um dos principais motivos de atenção da SBD. Por isso, os especialistas insistem na imunização como parte do cuidado de rotina.
As recomendações mudam entre diabetes tipo 1 e tipo 2?
Segundo a especialista, as recomendações para o diabetes tipo 1 e o diabetes tipo 2 são essencialmente iguais. O critério principal para a priorização da vacinação é o risco de infecção severa, e não o tipo de diabetes em si. Portanto, o cuidado com a imunização vale igualmente para os dois grupos.
Crianças com diabetes também precisam se vacinar
A recomendação inclui as crianças com diabetes, que devem receber as vacinas contra gripe, pneumonia e covid. “Existe um calendário oficial do Ministério da Saúde, respaldado também pela SBD e pela Sociedade Brasileira de Imunizações. O documento orienta o uso dessas três vacinas na infância”, explica a médica.
A vacina pode descompensar a glicemia?
Esse é um dos medos mais comuns entre pacientes, mas médica endocrinologista esclarece que as reações às vacinas em quem tem diabetes não diferem das reações em qualquer outra pessoa. Pode haver dor no local da aplicação e, ocasionalmente, uma resposta febril leve.
Ainda assim, alguns pacientes evitam a vacina por acreditar que ela vai descompensar o diabetes, o que não costuma se confirmar na prática. “As reações vacinais ficam restritas, em geral, às primeiras 24 a 48 horas após a aplicação. Nesse período, uma elevação leve da glicemia pode ocorrer, mas costuma ser autolimitada” orienta Reine Chaves.
Segundo a especialista, o benefício da vacinação supera o risco mesmo quando há alguma elevação de glicemia. Além disso, não há alteração na conduta com insulina ou com hipoglicemiantes orais por causa da vacina. Por precaução, o monitoramento da glicemia nos dias seguintes pode ajudar a acompanhar a resposta do corpo.
Quando o paciente está bastante descompensado, o ideal é buscar estabilização antes da imunização, o que favorece uma resposta imunológica mais eficiente. No entanto, em surtos e epidemias, a vacinação é indicada mesmo sem o controle glicêmico ideal, dado o risco de complicações graves da própria infecção.
Cartão de Vacinação da SBD: uma ferramenta para orientar médico e paciente
Para reforçar essa orientação, a SBD lançou este ano, durante o CITED, o Cartão de Vacinação para Pessoas com Diabetes. A ferramenta tem como objetivo apoiar endocrinologistas na prescrição e no acompanhamento das imunizações, com o cartão disponível no site da SBD para consulta.
O presidente da SBD, o endocrinologista João Salles, reforça a importância do tema na rotina médica. “O médico precisa sempre se lembrar de falar de vacinas”, afirma. Já Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes e Campanhas da SBD, chama atenção para os números. Segundo ele, estudos mostram um risco de 2 a 4 vezes maior de infecção em pessoas com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Entre as doenças consideradas estão hepatites, covid, VSR e herpes-zóster.
Segundo Valente, o diálogo entre médico e paciente muda o resultado: quando os dois estão de acordo sobre a vacinação, a adesão chega a 87%. Quando só o paciente está disposto, mas o médico não comenta o assunto, a adesão cai para 7%. Já quando o médico insiste, mesmo sem uma postura ativa do paciente, a adesão alcança 70%.
Para a médica Reine Chaves, a criação do cartão representa um avanço concreto. “As populações estão envelhecendo e a necessidade de imunização é cada vez maior”, afirma a coordenadora. O documento pode ser consultado clicando aqui.
