Uma colher de psyllium misturada ao iogurte, à água ou acrescentada a uma refeição pode parecer apenas mais uma forma de aumentar o consumo de fibras. O psyllium é uma fibra solúvel que pode fazer parte da alimentação de pessoas com diabetes.
Estudos clínicos indicam que seu consumo pode estar associado a reduções da glicemia de jejum e da hemoglobina glicada, principalmente em pessoas com diabetes tipo 2.¹ Isso não significa, entretanto, que a fibra substitua medicamentos ou que deva ser usada por conta própria para tentar baixar a glicose.
A nutricionista Martha Amodio, consultora nutricional do Portal Um Diabético, explica que o psyllium é uma das fibras solúveis que podem ter papel importante na alimentação. Segundo ela, essas fibras chegam ao intestino e podem ser utilizadas pelas bactérias intestinais, participando da produção de substâncias chamadas ácidos graxos de cadeia curta.
Por que o psyllium chama atenção quando o assunto é diabetes?
O psyllium é uma fibra alimentar solúvel que absorve água e forma uma espécie de gel no sistema digestivo. Essa característica pode alterar a velocidade com que os nutrientes são digeridos e absorvidos.
Na prática, isso pode influenciar a resposta da glicose depois das refeições. Um estudo clínico realizado com pessoas com diabetes tipo 2, por exemplo, observou menor elevação da glicose após as refeições quando ele foi consumido antes delas.²
Mas os efeitos não se resumem à glicemia depois de comer. Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu 19 ensaios clínicos randomizados, com 962 participantes, e encontrou redução da glicemia de jejum, da hemoglobina glicada e de um índice utilizado para estimar resistência à insulina entre os grupos que consumiram psyllium e os grupos de comparação.¹
Outro trabalho, publicado em 2020, reuniu oito estudos com 395 participantes com diabetes e também encontrou redução da glicemia de jejum e da hemoglobina glicada, além de alterações favoráveis em triglicerídeos e LDL, conhecido como colesterol ruim. Os autores, porém, não encontraram redução significativa do peso corporal ou do índice de massa corporal.³
Esses resultados ajudam a explicar por que o psyllium aparece nas discussões sobre fibras e controle metabólico. Eles não significam, contudo, que toda pessoa com diabetes terá a mesma resposta.
Psyllium baixa a glicose?
As evidências disponíveis sugerem que essa fibra pode contribuir para melhorar alguns marcadores de controle glicêmico, principalmente em estudos com pessoas com diabetes tipo 2.
Na meta-análise publicada em 2024, a redução média da hemoglobina glicada foi de 0,75 ponto percentual, enquanto a glicemia de jejum caiu, em média, cerca de 6,9 mg/dL.¹
Isso não significa que o psyllium funcione como um medicamento para diabetes. Os estudos avaliaram o uso da fibra como parte da alimentação ou como intervenção complementar, e os resultados não autorizam a substituição dos tratamentos prescritos.
Também é importante observar que os estudos utilizaram diferentes doses, períodos de intervenção e formas de consumo. Portanto, não existe uma quantidade única de psyllium que possa ser indicada para todas as pessoas com diabetes com o objetivo de controlar a glicose.
Psyllium é melhor do que consumir fibras pelos alimentos?
O psyllium pode ser uma maneira de aumentar a ingestão de fibras, mas uma alimentação rica nesse nutriente não depende de suplementos. Frutas, verduras, legumes, feijão, cereais integrais, sementes e oleaginosas também contribuem para o consumo diário.
As recomendações da American Diabetes Association destacam alimentos naturalmente ricos em fibras, incluindo frutas inteiras, leguminosas, sementes e alimentos integrais, dentro de padrões alimentares adequados às necessidades de cada pessoa com diabetes.⁴
Por isso, o psyllium não deve ser encarado como substituto de frutas, verduras, legumes e outros alimentos fontes de fibras.
Quem tem diabetes pode comer psyllium todos os dias?
Essa é uma questão que depende do produto utilizado, da alimentação e das condições de saúde de cada pessoa.
O psyllium pode ser encontrado em diferentes apresentações e também pode aparecer na composição de suplementos. A quantidade de fibra varia conforme o produto e a porção. Por isso, é importante observar as informações do rótulo e, quando houver dúvida, conversar com nutricionista, médico ou farmacêutico.
No Brasil, a Anvisa estabelece regras para suplementos alimentares e mantém listas de constituintes autorizados para uso nesses produtos. A agência também diferencia suplementos de medicamentos e estabelece requisitos específicos para composição, qualidade, segurança e rotulagem.⁵
Outro ponto importante é que aumentar a quantidade de fibras de maneira repentina pode provocar desconfortos gastrointestinais, principalmente em quem habitualmente consome pouca fibra.
Segundo a nutricionista, o intestino precisa se adaptar gradualmente ao aumento da quantidade de fibras.
Água é importante ao consumir psyllium
Existe ainda um cuidado que não deve ser ignorado: o psyllium precisa ser consumido com líquido suficiente. A fibra absorve água e aumenta de volume. Orientações de saúde sobre o uso de psyllium destacam a necessidade de misturar o produto com uma quantidade adequada de líquido e consumi-lo conforme as instruções da apresentação utilizada. A ingestão inadequada de líquidos pode aumentar o risco de engasgo ou obstrução.⁶
Pessoas que têm dificuldade para engolir precisam de avaliação profissional antes de utilizar produtos à base de psyllium.⁶
Fontes e referências
1. Jovanovski E. et al. Meta-análise de ensaios clínicos sobre os efeitos do psyllium no controle glicêmico. PubMed.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38844885/
2. Estudo clínico sobre o efeito do psyllium na resposta da glicose após as refeições em pessoas com diabetes tipo 2. PubMed.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1852093/
3. Revisão sistemática e meta-análise sobre os efeitos do psyllium em parâmetros metabólicos de pessoas com diabetes tipo 2. PubMed.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31919936/
4. American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes, recomendações sobre alimentação, fibras e padrões alimentares.
https://diabetesjournals.org/care/
5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Suplementos alimentares e ingredientes autorizados.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/alimentos/suplementos-alimentares
6. MedlinePlus, U.S. National Library of Medicine. Psyllium: orientações de uso, interações e cuidados.
https://medlineplus.gov/druginfo/meds/a601104.html
