Pular uma aplicação de insulina para “compensar” um exagero na balança pode parecer, à primeira vista, apenas um deslize isolado. Esse gesto, no entanto, tem nome entre especialistas e é motivo de alerta: diabulimia. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) chama atenção para essa prática, mais frequente entre pessoas com diabetes tipo 1 do que muitos imaginam.
O que são os transtornos alimentares
Transtornos alimentares são alterações no comportamento alimentar voltadas à perda de peso. Muitas vezes, quem vive essa situação não percebe a gravidade do que está acontecendo. Na anorexia nervosa restritiva, a pessoa deixa de comer na quantidade e na qualidade necessárias para o bom funcionamento do corpo. Já na bulimia nervosa, o padrão envolve tentativas de evitar a absorção dos alimentos, por meio de vômitos ou do uso de laxantes.
Além disso, a prática exagerada de exercícios físicos também pode funcionar como forma de compensar as calorias consumidas. Nesse sentido, o diabetes acrescenta uma camada específica de risco a esse quadro, pela relação direta entre insulina, peso corporal e controle glicêmico.
Diabulimia, o comportamento específico do diabetes
No universo do diabetes, a SBD chama atenção para um comportamento particular, batizado de diabulimia. Apesar do nome, não se trata da combinação entre diabetes e bulimia. O termo descreve a prática de restringir, pular ou deixar de aplicar propositadamente as doses de insulina com o objetivo de perder peso. Como consequência, o corpo passa a eliminar calorias pela urina.
Para entender o mecanismo, vale lembrar o papel da insulina. Trata-se de um hormônio anabolizante, que ajuda a manter estáveis os níveis de glicose no sangue. Quando a pessoa com diabetes tipo 1 deixa de aplicar as doses corretamente, o resultado é a hiperglicemia. Em seguida, ocorre a glicosúria, processo em que o corpo elimina glicose pela urina, levando consigo calorias e peso.
Por que o comportamento é mais comum entre jovens
A diabulimia atinge, principalmente, pré-adolescentes, adolescentes e adultos jovens. Segundo a psicóloga Claudia Pieper, membro do Departamento de Saúde Mental da SBD, a vulnerabilidade maior nesse grupo não tem uma causa única. Trata-se, segundo ela, de uma combinação de fatores.
A especialista cita as diretrizes da SBD e os trabalhos da pesquisadora Ann Goebel-Fabbri. Cerca de 30% das pessoas com diabetes tipo 1 já omitiram doses de insulina para perder peso, em algum momento da vida. Entre meninas pré-adolescentes, o índice é de 2%. Já entre adolescentes do sexo feminino, a proporção sobe para 11% a 15%. Segundo Pieper, esse comportamento também pode ressurgir na fase adulta.
“Quando o diabetes tipo 1 é diagnosticado, a pessoa costuma perder peso rapidamente. Ao iniciar a terapia com insulina, o corpo volta a absorver a glicose corretamente, o que leva a uma recuperação do peso de forma fisiológica”, explica a psicóloga.
Esse ganho inicial, segundo ela, pode atuar como um dos gatilhos para o transtorno alimentar. Além disso, o diabetes exige monitorização constante da glicemia e adesão a um plano alimentar estruturado. Para Pieper, esses fatores funcionam como estressores adicionais, aumentando a vulnerabilidade a um distúrbio alimentar.
Os riscos para a saúde
Segundo a SBD, deixar de aplicar a insulina representa um comportamento de alto risco. Nesse sentido, a prática pode provocar uma descompensação aguda da glicose, conhecida como cetoacidose diabética, capaz de levar a internações de emergência. Com o tempo, a hemoglobina glicada tende a permanecer elevada, muitas vezes acima de 10%. Esse indicador reflete a média da glicemia nos últimos três meses.
Nesse cenário, o resultado fica distante da meta de bom controle, que é igual ou inferior a 7%. Dessa forma, em poucos anos, podem surgir complicações crônicas precoces, sobretudo as microvasculares: retinopatia, nefropatia e neuropatia diabética.
Sinais que os familiares podem confundir com desleixo
Segundo Claudia Pieper, alguns sinais costumam passar despercebidos pela família. Em muitos casos, são interpretados apenas como falta de disciplina no tratamento, quando na verdade indicam um alerta mais sério. A psicóloga reforça que esses sinais devem ser observados em conjunto, e não isoladamente.
Sinais que merecem atenção:
• Dificuldade para aceitar o tratamento prescrito, sobretudo em relação às doses de insulina.
• Glicemias capilares ou glicose intersticial persistentemente altas na monitorização contínua.
• Controle metabólico ruim, com hemoglobina glicada persistentemente elevada.
• Evitar que os pais observem a autoaplicação de insulina.
• Ganho ou perda significativa de peso.
• Dietas frequentes e preocupação excessiva com o planejamento das refeições.
• Visão negativa da imagem corporal e baixa autoestima.
• Humor triste, baixa de energia, falta de concentração, fadiga e sono interrompido.
Como orientar a família sem parecer vigilância
O primeiro passo recomendado para a família é buscar apoio imediato da equipe médica que já acompanha o paciente. De preferência, a conversa deve começar pelo endocrinologista, para iniciar uma abordagem multidisciplinar com psicólogo e nutricionista. Segundo Pieper, a tecnologia pode ajudar a reduzir o desgaste entre pais e filhos.
Sensores de monitoramento contínuo de glicose podem ser configurados para enviar dados diretamente à equipe médica. Alarmes dos próprios aparelhos também substituem, com vantagem, as cobranças verbais no dia a dia. A psicóloga recomenda ainda criar um ambiente neutro nas refeições. Dessa forma, fazer as refeições em família, sem colocar o foco constante na comida, ajuda a evitar que o acompanhamento pareça uma vigilância permanente.
“O primeiro passo recomendado para a família é buscar o apoio imediato da equipe médica que já acompanha o paciente, de preferência conversando com o endocrinologista para que se inicie uma abordagem multidisciplinar especializada com psicólogo e nutricionista” Claudia Pieper | Psicóloga, membro do Departamento de Saúde Mental da SBD.
O que fazer diante desses sinais
• Procure primeiro a equipe médica que já acompanha o paciente, de preferência começando pelo endocrinologista.
• Inicie uma abordagem multidisciplinar com psicólogo e nutricionista especializados.
• Use a tecnologia a favor do diálogo: sensores configurados para enviar dados à equipe médica reduzem a necessidade de cobrança verbal.
• Crie um ambiente neutro nas refeições em família, sem focar constantemente na comida.
• Evite julgamentos: a escuta acolhedora favorece a busca por tratamento.