O acesso a sensores de glicose para gestantes com diabetes ainda é limitado no Brasil. Ainda assim, a tecnologia cresce por meio de iniciativas municipais e estaduais. Três exemplos mostram caminhos diferentes para essa ampliação: o Ambulatório de Diabetes do CAISM, em Campinas, é referência nacional em resultados clínicos.
Além disso, os programas municipais de Balneário Camboriú (SC) e Uberaba (MG) também passaram a incluir gestantes entre os grupos prioritários. Juntas, essas experiências indicam que o monitoramento contínuo pode se tornar política pública, mesmo diante de orçamentos e realidades locais distintas.
CAISM/Unicamp: 25 anos de evolução e resultados consolidados
No Ambulatório de Diabetes do CAISM, o acompanhamento de gestantes com diabetes passou por transformações sucessivas nas últimas duas décadas e meia. Nos anos 2000, o protocolo exigia exames de sangue a cada quatro horas, o que gerava desconforto e internações prolongadas.
Em 2005, a coleta capilar trouxe um avanço, ainda que limitado. Em 2018, a desativação da casa de repouso e a adoção de glicosímetros domiciliares deram mais autonomia às pacientes. Nesse sentido, entre 2023 e 2024, o serviço iniciou a modernização com sensores contínuos de glicose, entre eles o FreeStyle Libre.
Quem acompanha essa evolução é a Dra. Patrícia Moretti, ginecologista do CAISM e referência no cuidado a gestantes com diabetes desde o início dos anos 2000.
A médica explica que hoje o ambulatório acompanha cerca de 150 gestantes por mês, entre diabetes tipo 1, tipo 2 e gestacional. As gestantes fazem tratamento com insulina e recebem acompanhamento multiprofissional. Desde 2024, cerca de 60 gestantes já utilizaram o FreeStyle Libre. Além disso, a equipe foi treinada pela Abbott, fabricante do sensor, para garantir uso seguro e eficaz do dispositivo.
Os resultados observados incluem redução significativa de hipoglicemias e hiperglicemias, além de maior controle glicêmico ao longo da gestação. Dessa forma, os bebês nascem com peso mais adequado e menor necessidade de UTI neonatal. “O serviço também registrou queda no número de internações e menor risco de infecções hospitalares associadas a procedimentos invasivos”, conta Patrícia Moretti.
Balneário Camboriú amplia acesso em três etapas
Em Santa Catarina, Balneário Camboriú também passou a oferecer o sensor pelo SUS. O programa municipal começou em abril, contemplando crianças, adolescentes e gestantes com diabetes em uso de insulina. Em maio, a distribuição se estendeu a pacientes de até 24 anos. Na terceira fase, a cidade passou a atender pessoas com diabetes tipo 1 em qualquer idade. Com isso, o número de beneficiários subiu de 35 para cerca de 150 pacientes.
O equipamento distribuído é o FreeStyle Libre 2 Plus, que mede a glicose continuamente por até 15 dias. Segundo a prefeitura, o investimento inicial foi de R$ 641,8 mil, com recursos de emenda parlamentar. Portanto, a expectativa é transformar a iniciativa em política pública permanente.
Uberaba inclui gestantes de alto risco na expansão
Em Minas Gerais, o programa do Centro Municipal de Diabetes e Hipertensão de Uberaba está ampliando o acesso ao sensor. O atendimento começou com crianças de 4 a 9 anos. Neste segundo semestre, no entanto, o programa passará a incluir adolescentes de 10 a 15 anos e gestantes de alto risco com diagnóstico de diabetes, com recursos garantidos até 2027.
O acompanhamento inclui consultas mensais com endocrinopediatra, nutricionista e equipe de enfermagem, e o encaminhamento acontece pelas Unidades Básicas de Saúde. Além disso, a experiência recebeu reconhecimento da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, ao ser selecionada pelo Observatório de Boas Práticas da Atenção Primária à Saúde.
Por que o monitoramento contínuo importa na gestação
O diabetes gestacional afeta cerca de 11% das gestantes no Brasil, segundo a International Diabetes Federation (IDF). No mundo, aproximadamente um em cada seis nascimentos ocorre em gestações com níveis elevados de glicose. Quando a condição não é controlada, aumenta o risco de complicações para mãe e bebê.
Nesse contexto, o monitoramento contínuo se soma às orientações médicas e às mudanças na alimentação como parte do tratamento. Segundo a endocrinologista Jellin Zambon, gerente médica da divisão de cuidados para diabetes da Abbott no Brasil, sistemas como o FreeStyle Libre 2 permitem acompanhar a glicose ao longo do dia de forma prática. Dessa forma, o dispositivo pode oferecer mais confiança às gestantes em um momento que já envolve muitas emoções.
Ainda assim, a tecnologia não substitui o acompanhamento do pré-natal. Ela funciona como ferramenta complementar, que ajuda pacientes e equipes de saúde a tomar decisões mais seguras. Essas decisões envolvem alimentação, atividade física e ajuste de insulina ao longo da gravidez.
