A amamentação é recomendada para mulheres com diabetes e pode trazer benefícios para a mãe e o bebê. Mas é importante lembrar que o controle da glicemia, a alimentação e o uso de medicamentos exigem atenção durante esse período. Segundo especialistas ouvidas pelo jornalismo do Um Diabético, a glicose também participa do processo de produção do leite.
A endocrinologista e pesquisadora Denise Franco explica que a insulina tem participação no desenvolvimento das glândulas mamárias e na produção do leite. Por isso, alterações importantes na glicemia podem interferir nesse processo.
Como o diabetes interfere na produção de leite
A enfermeira e educadora em diabetes Gisele Filgueiras explica que a insulina participa da organização dos hormônios envolvidos no desenvolvimento das mamas e na produção do leite.
Durante a gestação, hormônios como progesterona, estrogênio e GH atuam no desenvolvimento das glândulas mamárias. Nesse processo, a insulina ajuda a fornecer energia para que essas estruturas se desenvolvam.
No fim da gestação, o organismo já pode produzir colostro. No entanto, a progesterona mantém a liberação do leite sob controle enquanto a placenta permanece no organismo.
Após o nascimento e a saída da placenta, os níveis de progesterona diminuem. Então, outros hormônios, como prolactina e ocitocina, passam a atuar na liberação do leite.
Segundo Gisele, quando a mulher apresenta descontrole importante da glicemia, essa organização hormonal pode sofrer alterações. Com isso, pode ocorrer atraso na produção do leite ou uma produção menor.
Essa situação pode afetar os primeiros dias após o nascimento. Em alguns casos, o bebê pode precisar receber fórmula enquanto a produção de leite não atende às necessidades.
Mulheres com diabetes podem amamentar
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) afirma que mulheres com diabetes tipo 1 ou tipo 2 podem amamentar seus bebês. A entidade também aponta benefícios metabólicos associados à amamentação.
Segundo a SBD, mulheres com diabetes tipo 1 que amamentaram apresentaram necessidade de menos insulina em comparação com a dose usada antes da gravidez.
Além disso, a amamentação pode reduzir a glicemia porque aumenta o gasto de energia do organismo. A entidade estima que esse gasto possa chegar a 500 kcal por dia.
Por isso, mulheres com diabetes podem precisar ajustar a alimentação durante o período de amamentação. A SBD orienta planejamento alimentar e acompanhamento das doses de insulina e de outros medicamentos com o médico.
Amamentação pode aumentar o risco de hipoglicemia
A redução da glicemia durante a amamentação exige atenção de quem usa insulina. A queda pode acontecer porque o organismo utiliza energia para produzir o leite.
A SBD orienta aumentar a frequência das medições de glicemia e planejar a alimentação para reduzir o risco de hipoglicemia.
Em algumas situações, a mulher pode precisar consumir uma fonte de carboidrato antes de amamentar. A entidade também orienta manter uma fonte de carboidrato de absorção rápida por perto durante a amamentação.
Suco é um dos exemplos citados pela SBD. Além disso, a entidade destaca a importância de manter uma ingestão adequada de água.
O controle da glicose começa ainda na gestação
O cuidado com a glicemia não começa após o nascimento. Durante a gestação, o organismo passa por mudanças metabólicas que aumentam a resistência à insulina.
Denise Franco explica que a placenta produz hormônios que aumentam a glicemia. Para compensar esse efeito, o pâncreas precisa aumentar a produção de insulina.
Quando o organismo não consegue responder a essa demanda, em mulheres sem a condição, pode surgir o diabetes gestacional. O período de maior risco ocorre entre a 24ª e a 28ª semana de gestação.
Nesse período, a resistência à insulina aumenta e o pré-natal inclui a avaliação da glicose. O acompanhamento permite identificar alterações e definir a necessidade de intervenções.
Amamentar também traz benefícios pós diabetes gestacional
A amamentação pode trazer benefícios para a saúde da mulher que teve diabetes gestacional. Segundo Gisele Filgueiras, períodos prolongados de amamentação estão associados à redução do risco de desenvolver diabetes tipo 2 no futuro.
A SBD também destaca benefícios relacionados à função metabólica e à sensibilidade à insulina em mulheres com diabetes tipo 1 e tipo 2.
Além dos efeitos metabólicos, Gisele cita benefícios relacionados ao vínculo entre mãe e bebê e à redução do risco de alguns tipos de câncer.
Entre eles, estão cânceres de mama, ovário e endométrio.
Produção de leite também depende das condições da mãe
A dificuldade para amamentar não depende apenas da glicemia. A rotina após o nascimento envolve mudanças físicas e emocionais que também podem interferir na alimentação e na produção de leite.
Durante a entrevista, Gisele destacou que o bem-estar da mãe também precisa fazer parte do cuidado após o parto.
Nesse contexto, a equipe de saúde deve acompanhar a mulher e observar tanto o controle da glicose quanto a alimentação, a produção de leite e as necessidades do bebê.
A orientação individualizada também permite ajustar o tratamento quando necessário, principalmente para mulheres que utilizam insulina.
