Para muitas pessoas, receber o diagnóstico de diabetes tipo 1 pode parecer o início de uma série de restrições. Para Hugo Almeida, no entanto, a condição nunca foi vista dessa forma.
Diagnosticado aos 4 anos de idade, ele cresceu ouvindo orientações médicas sobre alimentação saudável, uso diário de insulina e prática de atividade física. Embora não se lembre com detalhes daquele momento por ser muito jovem, Hugo conta que rapidamente aprendeu a incorporar os cuidados com o diabetes à rotina.
No começo, as aplicações de insulina não foram fáceis. Como qualquer criança, ele reclamava e tinha dificuldades para aceitar aquele novo hábito. Com o passar do tempo, porém, aquilo deixou de ser algo assustador e passou a ser encarado da mesma forma que outras tarefas do dia a dia.
“Virou escovar os dentes, tomar banho, algo rotineiro”, relembra.
Desde cedo, Hugo também desenvolveu uma forma diferente de enxergar o diabetes. Em vez de tratá-lo como um obstáculo, passou a vê-lo como uma responsabilidade que precisava ser administrada para que seus objetivos continuassem possíveis.
O tênis ensinou as primeiras lições sobre disciplina
Durante boa parte da infância e adolescência, o esporte ocupou um papel central em sua vida. Entre os 10 e os 20 anos de idade, Hugo treinou tênis de forma competitiva e sonhava em crescer dentro da modalidade.
Foi nesse período que começou a perceber a relação direta entre o controle da glicemia e o desempenho esportivo.
Ele sabia que uma hipoglicemia ou hiperglicemia poderia reduzir seu tempo de treino, prejudicar partidas importantes e colocá-lo em desvantagem em relação aos outros atletas.
Enquanto seus amigos continuavam treinando normalmente, qualquer descontrole glicêmico significava menos tempo em quadra.
Por isso, cuidar da saúde se tornou parte da estratégia para continuar evoluindo no esporte.
“Eu sabia que, se tivesse uma hipo ou hiper, estaria menos tempo em quadra e meus amigos ficariam melhores que eu apenas por terem treinado mais”, explica.
A experiência adquirida no tênis acabaria sendo fundamental anos mais tarde, quando ele encontraria uma nova paixão.
De alguém que odiava correr a maratonista internacional
Curiosamente, Hugo nunca gostou de correr. Após encerrar sua trajetória no tênis, passou cerca de dois anos mais sedentário. Foi somente depois de receber o convite de um amigo para participar de um grupo de corrida que sua relação com o esporte começou a mudar.
O primeiro treino foi um desafio inesperado: 13 quilômetros. Pouco tempo depois, completou uma meia maratona de 21 quilômetros em pouco mais de duas horas. O resultado o surpreendeu e despertou uma nova curiosidade.
Pela primeira vez, ele percebeu que era capaz de percorrer distâncias que antes pareciam impossíveis.
Naquela época, Hugo não se preocupava com velocidade, ritmo ou resultados. O que mais o fascinava era descobrir até onde seu corpo poderia chegar.
A partir daí, as distâncias aumentaram gradualmente. Vieram as maratonas tradicionais de 42 quilômetros e, mais tarde, desafios ainda maiores, incluindo ultramaratonas de 100 e 135 quilômetros.
Os desafios das ultramaratonas e o aprendizado constante
Apesar das conquistas, Hugo afirma que correr uma ultramaratona não é a parte mais difícil do processo. Segundo ele, o verdadeiro desafio começa muito antes da largada.
Ao concluir sua inscrição para uma prova de 100 quilômetros, lembra de ter pensado imediatamente:
“Que besteira que eu fiz. Como vou treinar para isso?”
A preparação exigia meses de planejamento, adaptação física e atenção constante aos níveis de glicose.
Ao longo da carreira, ele acumulou aprendizados importantes, muitos deles construídos a partir dos próprios erros.
Houve ocasiões em que esqueceu a insulina antes de partidas de tênis. Em outras, iniciou atividades físicas com glicemias elevadas e acabou comprometendo o desempenho. Também enfrentou situações em que não ingeriu carboidratos no momento adequado e precisou abandonar provas ou reduzir drasticamente o ritmo para conseguir chegar ao final.
Essas experiências fizeram Hugo perceber que conviver com diabetes exige antecipação.
“Eu precisava estar antes do diabetes, prever as coisas com ciência para agir em tempo hábil e não esperar que a glicemia já estivesse alta ou baixa para tomar uma decisão”, explica.
Tecnologia e autoconhecimento como aliados
Hoje, a tecnologia desempenha um papel importante na rotina esportiva de Hugo. Os sensores de monitoramento contínuo de glicose permitem acompanhar os níveis glicêmicos em tempo real durante treinos e competições, facilitando decisões rápidas e mais seguras.
Mas ele destaca que o conhecimento do próprio corpo continua sendo tão importante quanto qualquer equipamento.
Antes da popularização dos sensores, Hugo realizava diversas medições através da ponta de dedo e criou uma estratégia curiosa para desenvolver sua percepção corporal. Ele tentava adivinhar quanto estava sua glicemia antes de fazer a medição.
A prática ajudou a identificar sinais e sintomas que indicavam alterações nos níveis de açúcar no sangue, habilidade que continua utilizando até hoje para avaliar se os dados apresentados pelos sensores estão compatíveis com o que sente fisicamente.
Das ultramaratonas às maiores maratonas do planeta
Embora tenha ficado conhecido por suas participações em ultramaratonas, Hugo decidiu direcionar seus objetivos para outro desafio nos últimos anos.
Desde 2021, passou a se dedicar ao projeto das Six Majors, circuito formado pelas seis maratonas mais prestigiadas do mundo: Boston, Nova York, Chicago, Berlim, Tóquio e Londres.
Neste ano, ele concluiu o desafio ao cruzar a linha de chegada da Maratona de Londres.
Mais do que completar as seis provas, Hugo alcançou um resultado expressivo. Em Londres, terminou a corrida em 2 horas, 36 minutos e 56 segundos, tornando-se o brasileiro mais rápido da competição.
A marca representou não apenas uma conquista esportiva, mas também a confirmação de que o diabetes tipo 1 nunca precisou determinar os limites de sua trajetória.
Uma mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico
Depois de décadas convivendo com o diabetes tipo 1, Hugo acredita que a condição realmente exige trabalho, disciplina e atenção diária.
Mas faz questão de destacar que isso não significa abrir mão dos sonhos.
“O diabetes dá trabalho? Dá sim. Mas vai ser uma coisa a mais em meio a tantas obrigações que temos que, se bem administrada, te fará fazer o que quiser.”
A história de Hugo Almeida mostra que o controle da glicemia não precisa ser visto como um obstáculo para grandes conquistas. Seja em uma quadra de tênis, em uma maratona ou em qualquer outro desafio da vida, ele acredita que informação, planejamento e dedicação continuam sendo as ferramentas mais importantes para seguir em frente.
E, para ele, a prova disso está nos milhares de quilômetros percorridos ao longo da carreira, sempre correndo ao lado do diabetes, nunca atrás dele.