Um calo no pé pode parecer apenas um incômodo comum. Para quem convive com diabetes, porém, principalmente quando existe neuropatia e perda da sensibilidade protetora, uma nova calosidade merece atenção. Ela pode indicar que determinada região está recebendo pressão repetidamente e, em algumas situações, anteceder o surgimento de uma ferida.
O alerta foi feito durante um episódio do DiabetesCast, do portal Um Diabético, que reuniu o ortopedista Eduardo Pires, especialista em pé e tornozelo, e a enfermeira e educadora em diabetes Gabriela Cavicchioli para falar sobre prevenção e cuidados com os pés.
Durante a conversa, Gabriela explicou que uma calosidade nova pode funcionar como um sinal de que houve mudança na distribuição da pressão sobre o pé.
“O calo a gente chama de lesão pré-ulcerativa, o que antecede uma úlcera aparecer”, explicou.
Segundo a especialista, o espessamento da pele ocorre como uma resposta do organismo a uma região submetida a maior pressão.
A recomendação está alinhada às diretrizes atuais da American Diabetes Association (ADA). O Standards of Care in Diabetes 2026 inclui calos e outras lesões pré-ulcerativas entre os fatores associados ao chamado pé em risco e recomenda atenção especial a pessoas que apresentam perda da sensibilidade protetora, alterações na estrutura dos pés ou doença arterial periférica.
Por que o calo pode ser um problema para quem tem diabetes?
Ter diabetes não significa que qualquer calo necessariamente evoluirá para uma ferida. O risco aumenta especialmente quando existem complicações que comprometem a sensibilidade dos pés.
Uma delas é a neuropatia periférica diabética, que pode causar dormência e perda da capacidade de perceber adequadamente estímulos nos pés. A ADA destaca que até 50% dos casos de neuropatia periférica diabética podem ser assintomáticos. Quando a perda de sensibilidade não é identificada, pequenos traumas podem passar despercebidos.
No DiabetesCast, Eduardo Pires explica que a neuropatia pode comprometer progressivamente a sensibilidade, frequentemente começando pelas regiões mais distais dos pés.
Isso cria uma situação importante: a pessoa pode continuar exercendo pressão sobre determinado ponto sem receber da dor o mesmo sinal de alerta que teria se a sensibilidade estivesse preservada.
Gabriela explica que alterações na maneira de pisar também podem criar novos pontos de pressão. Quando isso acontece repetidamente, a pele pode ficar mais espessa naquela região e formar a calosidade.
O perigo pode estar embaixo do calo
O problema não é apenas o que aparece na superfície.
Eduardo Pires compara o calo a uma espécie de corpo rígido sobre o qual a pessoa continua pisando. Quando existe perda de sensibilidade, esse processo pode ocorrer repetidamente sem que a dor seja percebida de maneira adequada.
Gabriela acrescenta que, em alguns casos, ao retirar profissionalmente a camada de pele espessada, já pode existir uma ferida por baixo da calosidade.
Por isso, perceber que surgiu um calo novo, que uma área da pele ficou mais espessa ou que determinada região do pé mudou de aparência é motivo para observar com atenção e buscar avaliação, sobretudo quando a pessoa já apresenta neuropatia ou outros fatores de risco.
Quem tem diabetes deve cortar ou lixar o calo em casa?
A orientação é evitar tentar retirar calos por conta própria com objetos cortantes ou procedimentos que possam provocar lesões.
Durante o DiabetesCast, Gabriela chama atenção para práticas como usar cortador de unha, lâmina ou lixa para remover a calosidade. Segundo ela, a avaliação deve ser feita por profissional capacitado, que poderá verificar quanto tecido deve ser retirado e, principalmente, se existe alguma lesão abaixo da área aparentemente endurecida.
A recomendação também consta nas diretrizes de 2026 da ADA. O documento orienta evitar o autocuidado de calos e unhas encravadas em pessoas consideradas de risco e recomenda acompanhamento especializado de acordo com a condição dos pés.
O que observar nos pés?
Além das calosidades, a inspeção dos pés pode revelar outras alterações que merecem atenção.
Entre elas estão rachaduras, ressecamento, vermelhidão, feridas, alterações nas unhas e lesões entre os dedos. Gabriela recomenda que a pessoa com diabetes crie o hábito de observar os próprios pés regularmente.
Para pessoas com perda de sensibilidade protetora, a ADA recomenda inspeção diária dos pés. Feridas abertas, inchaço sem explicação, vermelhidão ou aumento da temperatura da pele são situações que exigem avaliação profissional rápida.
Avaliação dos pés faz parte do acompanhamento do diabetes
A prevenção não depende apenas da observação em casa.
As recomendações da ADA para 2026 indicam uma avaliação abrangente dos pés pelo menos uma vez por ano para identificar fatores associados ao risco de úlceras e amputações. Pessoas que já apresentam perda de sensibilidade, histórico de úlcera ou outros fatores de maior risco precisam de acompanhamento mais frequente.
Entre os recursos utilizados está o teste com monofilamento de 10 gramas, empregado para investigar a perda da sensibilidade protetora. A avaliação profissional também considera a pele, possíveis deformidades, circulação e outros aspectos neurológicos.
No DiabetesCast, Gabriela deixa uma orientação direta para quem nunca passou por esse tipo de avaliação: conversar com o profissional responsável pelo acompanhamento do diabetes e perguntar sobre o exame dos pés e o teste de sensibilidade.
Um calo, portanto, não significa que uma pessoa com diabetes terá uma úlcera ou uma complicação grave. Mas, principalmente quando surge uma nova calosidade ou existe perda de sensibilidade, o sinal não deve ser ignorado. Identificar precocemente alterações nos pés permite avaliar o risco e agir antes que um problema aparentemente pequeno evolua.
