Um calo novo, uma rachadura, uma unha encravada ou uma pequena ferida podem passar despercebidos na rotina. Para quem vive com diabetes, principalmente quando já existe perda de sensibilidade nos pés, essas alterações precisam de atenção. O problema é que, em alguns casos, justamente a ausência de dor pode fazer com que uma lesão avance sem que a pessoa perceba.
Esse é o tema do novo episódio do DiabetesCast, apresentado pelo jornalista Tom Bueno. O programa recebe o ortopedista Eduardo Pires, especialista em pé e tornozelo, e a enfermeira e educadora em diabetes Gabriela Cavicchioli para uma conversa sobre prevenção, neuropatia, avaliação dos pés e os sinais que não devem ser ignorados.
Ao longo do episódio, os especialistas também mostram como funciona o teste de sensibilidade dos pés e respondem a dúvidas comuns: quem tem diabetes pode lixar os pés? Como lidar com calos? Onde passar hidratante? Como cortar as unhas? E quando uma mudança aparentemente pequena deve levar a uma avaliação profissional?
Quando não sentir dor pode aumentar o risco
Um dos pontos centrais da conversa é a neuropatia diabética. A complicação pode comprometer os nervos e, entre outras manifestações, reduzir a sensibilidade nos pés.
Eduardo Pires usa uma comparação para explicar o que acontece. Segundo ele, a dor funciona como um painel de alerta do organismo. Quando a neuropatia compromete a sensibilidade, esse mecanismo pode deixar de avisar adequadamente que algo está errado.
“A partir do momento que você fez o diagnóstico de ter uma neuropatia, você tem que começar todo dia a ter uma rotina de cuidado com os pés”, afirma Eduardo Pires no DiabetesCast.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) classifica a neuropatia diabética como a complicação mais comum do diabetes e estima que ela afete de 30% a 50% das pessoas com a condição ao longo da vida. A diretriz brasileira de 2026 também explica que a polineuropatia simétrica distal é a forma mais frequente e pode apresentar sintomas como dormência, formigamento, queimação e alterações de sensibilidade.
Um calo pode dizer mais do que parece
Durante o DiabetesCast, uma alteração comum ganha atenção especial: o calo.
Gabriela Cavicchioli explica que ele pode surgir em uma região submetida repetidamente a maior pressão e, em pessoas que apresentam risco aumentado, funcionar como um sinal que merece avaliação.
“O calo a gente chama de lesão pré-ulcerativa, o que antecede uma úlcera aparecer”, explica a educadora em diabetes durante o episódio.
A situação pode se tornar mais preocupante quando há neuropatia. Eduardo explica que uma pessoa com sensibilidade preservada tende a sentir dor diante de uma pressão excessiva e modificar a maneira de pisar. Com a perda de sensibilidade, esse alerta pode não acontecer. A pressão continua sobre a mesma região e pode favorecer o aparecimento de uma lesão.
Por isso, os entrevistados fazem outro alerta: não tentar cortar ou remover calos por conta própria com lâminas, cortadores ou outros objetos.
Gabriela relata que, em determinadas situações, uma ferida pode já estar presente sob a calosidade e só ser identificada quando o local é avaliado. A orientação é procurar um profissional capacitado.
Você já teve a sensibilidade dos seus pés avaliada?
Essa é uma das perguntas que o novo episódio propõe a quem vive com diabetes.
Gabriela demonstra durante a gravação o uso do monofilamento de 10 gramas, instrumento utilizado para avaliar a sensibilidade protetora dos pés. O teste é realizado por meio de pequenos toques em pontos específicos.
“Se você tem diabetes e nunca ninguém fez a avaliação do pé, pergunte para o seu profissional”, orienta Gabriela.
A recomendação encontra respaldo na diretriz da SBD. Para pessoas com diabetes classificadas inicialmente como de risco muito baixo para ulceração, a entidade recomenda exame anual dos pés, incluindo avaliação física e teste com monofilamento de 10 g, ou alternativamente o teste de toque de Ipswich, procurando sinais de neuropatia periférica e doença arterial periférica. Pessoas que apresentam fatores de risco precisam de avaliações mais frequentes.
Na diretriz específica sobre neuropatia, a SBD recomenda que todas as pessoas com diabetes, mesmo sem sintomas neuropáticos, sejam avaliadas anualmente para polineuropatia diabética periférica. No diabetes tipo 2, o rastreamento começa a partir do diagnóstico; no diabetes tipo 1, a recomendação é iniciá-lo no quinto ano após o diagnóstico.
Olhar os pés deve fazer parte da rotina
Boa parte do episódio é dedicada a atitudes que podem ser incorporadas à rotina.
Gabriela recomenda observar os pés diariamente e prestar atenção ao surgimento de calos, alterações nas unhas, vermelhidão, fissuras, rachaduras e feridas. A hidratação também é importante, mas há um detalhe: o creme não deve ser aplicado entre os dedos, porque manter essa região úmida pode favorecer o aparecimento de infecções por fungos.
A SBD também orienta examinar pés e pernas diariamente, cuidar das unhas, hidratar a pele seca evitando a região entre os dedos e utilizar calçados adequados conforme a orientação da equipe de saúde.
“Na maior parte das vezes, o pessoal me procura só quando alguém já indicou alguma amputação”
Um dos relatos que mais chama atenção no episódio vem da experiência de Eduardo Pires no atendimento de casos mais complexos.
Questionado sobre o momento em que os pacientes chegam ao especialista, ele relata:
“Na maior parte das vezes, o pessoal me procura só quando alguém já indicou alguma amputação.”
Segundo Eduardo, existem situações em que a lesão já chegou a um estágio avançado de infecção e as possibilidades de preservar o membro ficam reduzidas. Para o ortopedista, identificar alterações antes que cheguem a esse ponto é parte importante da prevenção.
A dimensão do problema também aparece nos dados científicos. A diretriz da SBD sobre infecções nos pés estima que cerca de 18,6 milhões de pessoas com diabetes desenvolvam uma úlcera nos pés a cada ano no mundo e que entre 50% e 60% dessas úlceras se tornem infectadas. Essas infecções estão relacionadas a maior risco de hospitalização e amputação.
Novo DiabetesCast mostra o que observar e como prevenir
Ao longo de cerca de 18 minutos, o novo episódio do DiabetesCast transforma recomendações que muitas vezes parecem técnicas em situações do cotidiano. Eduardo Pires e Gabriela Cavicchioli mostram o teste de sensibilidade, explicam a relação entre neuropatia e feridas e orientam sobre calos, unhas, hidratação, calçados e sinais que precisam de avaliação.
A mensagem central é que o cuidado não deve começar quando uma ferida já está instalada. Conhecer o próprio risco, manter o acompanhamento da equipe de saúde e observar mudanças nos pés são medidas que ajudam a identificar problemas precocemente.
No encerramento, Gabriela deixa uma orientação direta:
“Peçam para o profissional que cuida de você olhar o seu pé e pergunte para ele sobre o teste de sensibilidade.”
O episódio completo “Pé diabético: quais sinais nos pés merecem atenção?” está disponível no DiabetesCast, canal do Um Diabético no YouTube e no Spotify.
