A alergia à insulina existe e pode afetar pessoas que precisam do hormônio para controlar o diabetes. Embora seja uma condição rara, entre 0,1% e 3% dos pacientes tratados com análogos de ação rápida podem apresentar reações.
Os sintomas podem aparecer após a aplicação e variar de manifestações na pele até alterações que exigem atendimento médico. No entanto, uma reação não significa necessariamente alergia à molécula da insulina.
Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, outros componentes da formulação também podem provocar hipersensibilidade. Além disso, adesivos de sensores, cânulas de bombas de insulina e até a técnica de aplicação podem estar relacionados aos sintomas.
Quais sintomas podem indicar alergia à insulina
A reação mais comum acontece pouco tempo depois da aplicação e costuma atingir o local onde a insulina foi aplicada. A pessoa pode apresentar vermelhidão, coceira e inchaço.
Em alguns casos, a reação pode atingir outras partes do corpo. Podem surgir urticária, dificuldade para respirar, queda da pressão e outras manifestações.
As reações de hipersensibilidade podem ocorrer de formas diferentes. A classificação médica divide essas respostas em quatro tipos principais.
A reação do tipo I é imediata e envolve anticorpos chamados IgE. Ela pode causar edema, vermelhidão e coceira cerca de uma hora após a aplicação.
Em casos mais graves, a reação pode causar coceira e manchas vermelhas em várias partes do corpo ou até uma reação alérgica grave, chamada anafilaxia.
Algumas reações podem aparecer mais tarde, chegando ao ponto mais intenso entre quatro e seis horas após a aplicação.
A reação do tipo III é rara e pode causar caroços doloridos e manchas roxas na pele entre seis e oito horas após a aplicação.
Já a reação do tipo IV aparece mais devagar e causa uma inflamação na região da aplicação.
A reação pode ser causada por outro componente
Antes de confirmar uma alergia à própria insulina, o médico precisa investigar outras possibilidades. Esse cuidado ajuda a identificar a causa e evita mudanças desnecessárias no tratamento.
Alguns componentes presentes na fórmula da insulina também podem causar reação alérgica, como metacresol, protamina e zinco.
As diferentes formulações de insulina não possuem exatamente os mesmos componentes. Por isso, uma pessoa pode reagir a uma preparação e tolerar outra.
Nesse contexto, a troca da formulação pode controlar a reação em alguns casos. A mudança, porém, deve acontecer com orientação médica.
A endocrinologista Denise Franco também chama atenção para reações provocadas por dispositivos usados no tratamento. Adesivos de sensores e cânulas de bombas de insulina podem causar problemas na pele.
A técnica de aplicação também precisa entrar na investigação. Portanto, a presença de vermelhidão, coceira ou lesão após uma aplicação não confirma, sozinha, uma alergia à insulina.
Como os médicos investigam a alergia à insulina
A avaliação começa pela história dos sintomas. O médico observa quando a reação aparece, onde ela ocorre e se o problema se repete após as aplicações.
Além disso, a investigação precisa considerar os componentes da formulação e os dispositivos utilizados pelo paciente.
O teste intradérmico, conhecido como IDR, apresenta o melhor desempenho entre os exames citados para essa investigação. Os dados fornecidos apontam sensibilidade de 80% e especificidade de 100%.
A sensibilidade indica a capacidade do exame de identificar quem apresenta a condição. Já a especificidade mostra a capacidade de identificar quem não apresenta a condição.
O teste intradérmico apresenta desempenho superior aos testes de puntura, conhecidos como prick test, e à dosagem de IgE específica no sangue, segundo as informações fornecidas.
A avaliação pode envolver endocrinologista e alergista. A análise conjunta ajuda a relacionar os sintomas ao momento da aplicação e aos produtos utilizados.
Trocar a insulina pode resolver a reação
Quando a investigação identifica uma reação relacionada à formulação, o médico pode avaliar outra preparação de insulina.
As formulações apresentam diferenças nos componentes utilizados. Algumas podem conter zinco ou protamina, por exemplo.
Por isso, a troca entre preparações pode permitir que o paciente continue usando insulina sem repetir a mesma reação.
Medicamentos também possuem contraindicações relacionadas aos seus componentes. O Fiasp, por exemplo, é contraindicado para pessoas com histórico conhecido de hipersensibilidade a qualquer um de seus excipientes.
A troca, portanto, não deve ocorrer por conta própria. O profissional precisa avaliar a reação e escolher uma alternativa de acordo com o caso.
O que acontece quando a pessoa precisa continuar usando insulina
Algumas pessoas não conseguem simplesmente retirar a insulina do tratamento. Para quem tem diabetes tipo 1, o hormônio é necessário para a sobrevivência.
Quando a pessoa apresenta alergia e não encontra uma formulação que consiga tolerar, existem outras estratégias de tratamento.
Uma delas é a dessensibilização que busca permitir que o organismo passe a tolerar a insulina em determinadas situações.
Outra possibilidade é a infusão subcutânea contínua de insulina, realizada por meio de uma bomba. A estratégia pode ser usada como forma de dessensibilização.
Os dados fornecidos apontam que protocolos com bomba conseguiram atingir a dose basal necessária em poucas horas e não registraram recidivas no acompanhamento citado.
Em casos específicos, os médicos também podem utilizar medicamentos para controlar os sintomas. Entre as opções citadas estão os anti-histamínicos.
Em alguns casos, o médico pode usar insulina junto com dexametasona, um medicamento que ajuda a controlar a inflamação e a reação do organismo.
Quando as opções de tratamento não controlam a alergia, a equipe médica pode avaliar outras alternativas. Em casos muito raros, o transplante de pâncreas pode ser considerado, principalmente em crianças com diabetes tipo 1.
Camilla teve reação a diferentes tipos de insulina
A experiência de Camilla Barbosa mostra como a alergia pode interferir no tratamento do diabetes.
Ela convive com diabetes tipo 1 e apresentou reações após utilizar diferentes tipos de insulina de ação rápida.
Depois de uma aplicação, Camilla teve inchaço no rosto, coceira intensa e bolhas pelo corpo. Ela também chegou ao hospital com dificuldade para respirar.
Após testar outras opções e apresentar reações semelhantes, Camilla descobriu que conseguia tolerar apenas a insulina Apidra.
O caso mostra por que a investigação precisa considerar diferentes formulações. A reação a uma insulina não significa necessariamente que todas as opções provocarão o mesmo problema.
Hianka apresenta reação a uma formulação específica
Hianka Reis convive com diabetes tipo 1 há 30 anos e relata reação a algumas insulinas específicas.
Entre elas está o Fiasp. Segundo seu relato, a aplicação provoca dor e, depois, ela apresenta coceira pelo corpo e dermatite.
O relato também reforça a necessidade de avaliar cada caso individualmente. Diferentes formulações podem apresentar componentes diferentes, o que interfere na resposta de cada pessoa.
O que fazer diante de uma reação à insulina
Quem apresenta coceira, vermelhidão, inchaço ou outras lesões depois de aplicar insulina deve procurar avaliação médica.
O endocrinologista ou alergista pode investigar o momento em que os sintomas aparecem e verificar se existe relação com a insulina, seus componentes ou os dispositivos utilizados. No entanto, a pessoa não deve suspender a insulina por conta própria.
A suspensão sem orientação pode comprometer o controle da glicose e, no caso do diabetes tipo 1, retirar um hormônio necessário para manter o organismo funcionando.
A investigação também pode indicar se a reação está ligada a um componente da formulação, ao adesivo de um sensor, à cânula de uma bomba ou à própria aplicação.
