Um vídeo falso sobre diabetes, criado com inteligência artificial, passou a circular nas redes sociais utilizando a imagem e uma voz semelhante à do cantor Roberto Carlos para divulgar um suposto tratamento. No entanto, o artista afirmou publicamente que o conteúdo é falso, que nunca gravou esse vídeo e que não tem qualquer relação com o produto, tratamento ou profissional citado.

Em um comunicado publicado em suas redes sociais, Roberto Carlos pediu que o material não seja compartilhado e alertou para os prejuízos que esse tipo de desinformação pode causar, especialmente para pessoas que buscam informações sobre saúde.
“Está circulando nas redes sociais um vídeo criado com o uso de inteligência artificial, utilizando minha imagem e uma voz que imita a minha para divulgar um suposto tratamento e isso não é verdade. Quero deixar muito claro que esse vídeo é FALSO. Nunca gravei esse vídeo, não autorizei o uso da minha imagem ou da minha voz e não tenho nenhuma relação com o tratamento, produto divulgado ou suposto médico mencionado. Peço que não compartilhem esse material. Além de enganar as pessoas, esse tipo de conteúdo pode causar prejuízos a quem acredita em informações falsas sobre saúde. Sempre que houver alguma informação oficial a meu respeito, ela será divulgada exclusivamente pelos meus canais oficiais.”
O que o vídeo falso afirma sobre diabetes
O conteúdo criado com inteligência artificial apresenta uma narrativa em primeira pessoa, como se fosse o próprio Roberto Carlos relatando que conviveu com diabetes por mais de 15 anos e que teria recuperado a saúde após seguir um suposto “protocolo metabólico suíço”.

Durante o vídeo, aparecem diversas afirmações sem comprovação. Entre elas, a alegação de que a indústria farmacêutica lucraria mantendo pacientes dependentes de medicamentos, que remédios como metformina e insulina apenas controlariam números, sem tratar a doença, e que um protocolo natural seria capaz de resolver o problema.
Além disso, o vídeo afirma que pessoas com diabetes poderiam deixar de depender dos medicamentos após seguir esse método e incentiva o contato com um suposto especialista por meio de um botão do WhatsApp.
Sociedade Brasileira de Diabetes afirma que protocolo citado não existe
O coordenador do Departamento de Educação em Diabetes e Campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Fernando Valente, afirma que não existe nenhum protocolo reconhecido internacionalmente chamado “protocolo metabólico suíço”.
Segundo ele, a promessa de “limpar o pâncreas” por meio de um protocolo natural simplifica de forma incorreta uma doença complexa e pode levar pessoas a abandonar tratamentos comprovados.
Diabetes tipo 2 não pode ser explicado apenas pela gordura no pâncreas
O vídeo também afirma que o diabetes seria causado principalmente pelo acúmulo de gordura no pâncreas e que bastaria “limpar” esse órgão para resolver a doença.
Fernando Valente explica que essa interpretação não corresponde ao conhecimento científico.
“A fisiopatologia do diabetes tipo 2 é altamente complexa. É muito mais do que simplesmente um depósito de gordura no pâncreas, embora isso também explique a progressão do diabetes tipo 2.”
Segundo ele, o tratamento da obesidade e do sobrepeso, condição presente em cerca de 90% das pessoas com diabetes tipo 2, reduz a quantidade de gordura no pâncreas e melhora o funcionamento do órgão.
No entanto, o diabetes envolve diversos mecanismos ao mesmo tempo. Entre eles estão a resistência à ação da insulina, alterações na produção de insulina, mudanças na liberação de hormônios como o glucagon e o acúmulo de gordura em diferentes órgãos. Por isso, não é correto afirmar que toda a doença pode ser resolvida apenas com um protocolo natural voltado ao pâncreas.
Abandonar metformina ou insulina pode trazer riscos
Outro ponto do vídeo é a afirmação de que medicamentos como metformina e insulina fariam parte de um sistema criado para manter pacientes dependentes.
Fernando Valente rebate essa informação e afirma que ocorre justamente o contrário.
Segundo ele, existem estudos clínicos realizados ao longo de décadas que demonstram a segurança e a eficácia desses medicamentos.
O especialista lembra que aproximadamente 30% das pessoas com diabetes tipo 2 precisam utilizar insulina durante o tratamento. Já no diabetes tipo 1, a insulina é indispensável para todas as pessoas.
Além disso, ele explica que medicamentos utilizados no tratamento também ajudam no controle de condições frequentemente associadas ao diabetes, como hipertensão arterial e colesterol elevado.
Diabetes exige acompanhamento contínuo
Fernando Valente ressalta que o diabetes é uma doença silenciosa, progressiva e sem cura.
Por isso, interromper medicamentos sem orientação médica pode permitir que a doença continue evoluindo sem apresentar sintomas imediatos. Em muitos casos, os sinais aparecem quando já existe comprometimento importante do organismo.
Segundo ele, o controle do diabetes depende do acompanhamento com médico e equipe multidisciplinar, além do uso dos medicamentos quando indicados, para reduzir o risco de complicações e aumentar a expectativa de vida.
Imagens verdadeiras foram usadas para criar o vídeo falso
As imagens utilizadas no conteúdo não foram gravadas para falar sobre diabetes. Elas foram retiradas de materiais autênticos em que Roberto Carlos abordava outros temas.
Em um dos casos, as imagens pertencem a uma entrevista concedida pelo cantor a uma rádio colombiana, em 2018, quando falava sobre suas composições.
Já outro trecho foi extraído de um conteúdo publicado em 2025 sobre um espetáculo, sem qualquer relação com tratamentos para diabetes.
