A discussão sobre a oferta de sensor de glicose pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entra em uma fase decisiva nesta segunda-feira (17). Termina o prazo para participar da consulta pública que avalia a incorporação do sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real para pessoas com diabetes tipo 1.
Até a manhã deste domingo (16), a Consulta Pública nº 63/2026, da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), contabilizava 22.194 respostas, segundo o contador disponível na plataforma Brasil Participativo.
O número representa o equivalente a cerca de 3,7% das aproximadamente 600 mil pessoas que vivem com diabetes tipo 1 no Brasil. A estimativa de 600 mil brasileiros com a condição também aparece em documentos recentes do Congresso Nacional.
A comparação serve para dimensionar a mobilização, mas não significa que somente pessoas com diabetes tipo 1 possam participar da consulta. Familiares, cuidadores, profissionais de saúde e outros cidadãos também podem contribuir.
A consulta pública começou em 29 de julho e termina em 17 de agosto de 2026.
O que está sendo discutido?
A Consulta Pública nº 63/2026 analisa especificamente a incorporação do sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real, conhecido pela sigla rt-CGM, para pessoas com diabetes tipo 1.
A própria Conitec identifica a tecnologia dessa forma no Relatório para a Sociedade nº 735, documento preparado para subsidiar a participação da população.
Esses sistemas utilizam um sensor aplicado ao corpo para medir continuamente a glicose no líquido intersticial. Dependendo do dispositivo, as informações são transmitidas para um celular ou receptor e podem incluir dados sobre a direção e a velocidade de mudança da glicose, além de alertas.
Isso permite acompanhar não apenas um valor isolado, mas também entender como a glicose está se comportando ao longo do dia e da noite.
Conitec deu recomendação inicial desfavorável
A abertura da consulta acontece depois de a Conitec emitir uma recomendação preliminar desfavorável à incorporação da tecnologia no SUS.
Isso não significa, porém, que a decisão esteja encerrada.
A consulta pública acontece justamente depois da avaliação inicial. Segundo a própria Conitec, o Relatório para a Sociedade possui uma versão preliminar, disponibilizada após a apreciação inicial, e uma versão final, publicada depois da decisão do Ministério da Saúde. As contribuições recebidas nesta etapa integram o processo que antecede a recomendação final.
Por isso, a participação da sociedade é especialmente importante neste momento.
Pacientes, familiares e profissionais podem apresentar experiências, informações e argumentos que serão analisados antes da conclusão do processo.
Sensor já passou por outra avaliação no SUS
Essa não é a primeira vez que sensores para monitoramento da glicose entram na pauta da Conitec.
Em uma avaliação anterior, o Ministério da Saúde decidiu, em janeiro de 2025, não incorporar ao SUS o sistema de monitorização contínua da glicose por escaneamento intermitente para pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2. A decisão foi formalizada pela Portaria SECTICS/MS nº 2, de 31 de janeiro de 2025.
É importante, entretanto, diferenciar os dois processos.
A avaliação anterior envolvia o sistema por escaneamento intermitente, conhecido como sistema flash, e incluía diabetes tipo 1 e tipo 2.
A consulta atual trata de monitoramento contínuo em tempo real (rt-CGM) especificamente para pessoas com diabetes tipo 1. Portanto, embora seja uma nova discussão sobre sensores no SUS, não se trata exatamente da mesma tecnologia e da mesma população avaliadas anteriormente.
Ciência já demonstra benefícios do monitoramento contínuo
O debate atual não acontece por falta de evidências de que o monitoramento contínuo possa trazer benefícios para pessoas com diabetes.
O uso da tecnologia permite acompanhar a glicose durante as 24 horas do dia, identificar tendências e reconhecer períodos de glicose alta ou baixa que poderiam passar despercebidos em medições pontuais.
Entre os desfechos avaliados em estudos sobre monitoramento contínuo estão hemoglobina glicada, tempo na faixa-alvo, tempo em hipoglicemia e segurança do tratamento.
Na prática, uma das grandes diferenças em relação à medição convencional é a quantidade de informação disponível para a tomada de decisões.
Enquanto o teste de ponta de dedo mostra a glicemia naquele determinado momento, o sensor permite visualizar o comportamento da glicose ao longo do tempo.
Para quem utiliza insulina diariamente, essas informações podem ajudar a identificar oscilações durante o sono, após as refeições, durante atividades físicas e em outras situações da rotina.
A discussão da Conitec, portanto, envolve não apenas a eficácia da tecnologia, mas também custo-efetividade, impacto orçamentário, critérios de acesso e a capacidade de implementação dentro do SUS. Esses aspectos fazem parte do processo de avaliação de tecnologias em saúde utilizado pela comissão.
Municípios já começaram a oferecer sensores pelo SUS
Enquanto uma política nacional não é definida, o Brasil passou a assistir nos últimos anos ao crescimento de iniciativas locais para fornecimento de sensores de glicose.
Desde o início desta década, municípios e estados começaram a criar programas próprios, com critérios diferentes para distribuição da tecnologia.
Hoje, dezenas de cidades brasileiras já possuem ou anunciaram iniciativas para oferecer sensores a determinados grupos de pessoas com diabetes.
Em alguns locais, o acesso é destinado principalmente a crianças e adolescentes com diabetes tipo 1. Em outros, os critérios foram ampliados para diferentes faixas etárias ou situações específicas.
O resultado é uma espécie de mapa desigual de acesso à tecnologia: dependendo do município onde mora, uma pessoa com diabetes pode ter direito ao sensor pela rede pública enquanto outra, com a mesma condição e necessidade clínica, não encontra o dispositivo disponível pelo SUS em sua cidade.
É justamente essa diferença que torna a discussão sobre uma eventual política nacional relevante.
Uma incorporação ao SUS poderia estabelecer critérios nacionais de acesso, embora as condições exatas de fornecimento dependessem da decisão final e da estratégia de implementação definida pelo Ministério da Saúde.
O que escrever na consulta pública?
Uma dúvida comum é se é necessário ter conhecimento técnico para participar.
Não é.
A consulta pública também existe para que pessoas diretamente afetadas pela decisão contem suas experiências.
Quem vive com diabetes tipo 1 pode relatar, por exemplo, como realiza atualmente o monitoramento da glicose e quais dificuldades enfrenta no dia a dia.
Também pode contar experiências relacionadas a:
- episódios de hipoglicemia, inclusive durante a madrugada;
- medo de glicose baixa durante o sono;
- necessidade frequente de testes de ponta de dedo;
- prática de exercícios físicos;
- rotina escolar ou profissional;
- dificuldade financeira para comprar sensores;
- experiência anterior com monitoramento contínuo;
- impacto da tecnologia na autonomia e na tomada de decisões;
- acompanhamento de crianças e adolescentes pelos responsáveis.
Familiares e cuidadores também podem explicar como o diabetes interfere na rotina da família e quais mudanças perceberam quando tiveram acesso ao monitoramento contínuo.
Profissionais de saúde podem contribuir com sua experiência clínica e discutir benefícios, limitações e possíveis critérios para utilização da tecnologia no SUS.
O mais importante é que a contribuição seja verdadeira, individual e baseada na experiência ou no conhecimento de quem está respondendo.
Não é necessário copiar textos prontos para participar.
Como participar da consulta do sensor de glicose no SUS?
A participação é gratuita e feita pela plataforma Brasil Participativo, do governo federal.
É necessário entrar com uma conta gov.br, localizar a Consulta Pública nº 63/2026 e responder ao questionário.
Antes de participar, a Conitec disponibiliza também o Relatório para a Sociedade, uma versão resumida e em linguagem mais acessível do documento técnico que embasou a recomendação inicial. Segundo a comissão, esse relatório foi criado justamente para ajudar a sociedade a participar das consultas públicas.
O prazo termina nesta segunda-feira, 17 de agosto.
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Por que a participação pode fazer diferença?
A consulta pública não é uma votação e o número de respostas, sozinho, não determina se o sensor será ou não incorporado ao SUS.
Essa distinção é importante.
A Conitec avalia evidências científicas, segurança, eficácia, efetividade, avaliação econômica e impacto da tecnologia sobre o orçamento público. Depois da consulta, as contribuições são organizadas e avaliadas pelo comitê responsável antes da deliberação final.
Mas é justamente nessa etapa que a sociedade pode formalmente apresentar informações e experiências para serem consideradas no processo.
E há precedentes de consultas públicas que acrescentaram informações relevantes às avaliações da comissão.
Para uma tecnologia que interfere diretamente na rotina de quem precisa tomar decisões sobre glicose e insulina todos os dias, relatos de pacientes, familiares, cuidadores e profissionais ajudam a mostrar aspectos que números de estudos econômicos nem sempre conseguem traduzir sozinhos.
Mais de 22 mil respostas e as últimas horas
Com 22.194 participações registradas até a manhã deste domingo, a consulta chega às últimas horas.
Em comparação com uma população estimada em aproximadamente 600 mil brasileiros com diabetes tipo 1, o número de respostas equivale a cerca de 3,7% desse contingente.
Isso não significa que apenas 3,7% das pessoas com diabetes tenham participado, já que o questionário também pode receber manifestações de familiares, profissionais e outros cidadãos. O percentual funciona como uma referência para dimensionar o tamanho da mobilização diante da população diretamente envolvida na discussão.
Depois de uma decisão negativa sobre outro sistema de monitoramento em 2025 e de uma nova recomendação preliminar desfavorável em 2026, a discussão sobre o acesso nacional aos sensores de glicose pelo SUS chega novamente a um momento decisivo.
Desta vez, quem quiser ter sua experiência considerada oficialmente no processo tem até esta segunda-feira (17) para participar.
