Imagine duas pessoas com diabetes tipo 1, da mesma faixa etária e com necessidade semelhante de monitorar a glicose. Uma delas pode conseguir um sensor de glicose pela rede pública do município onde mora, enquanto a outra, em uma cidade diferente, pode não encontrar o mesmo recurso disponível.
Essa diferença começou a chamar atenção à medida que as prefeituras passaram a criar programas próprios para fornecer sensores de monitorização contínua da glicose. Em 2026, cidades como São José dos Campos, Indaiatuba e Aracaju ampliaram iniciativas voltadas a determinados grupos de pessoas com diabetes.
Contudo, a existência desses programas não significa que o sensor de glicose tenha se tornado um recurso disponível para todos pelo SUS, uma vez que os critérios podem mudar de uma cidade para outra, e o acesso depende das regras estabelecidas por cada programa.
Por que o acesso muda de uma cidade para outra?
Os sensores de monitorização contínua da glicose não fazem parte, atualmente, de uma política nacional que garanta o fornecimento para todas as pessoas com diabetes. Isso é diferente do que ocorre com medicamentos e alguns insumos utilizados no tratamento da doença, que seguem políticas, listas e protocolos nacionais, ainda que a organização da distribuição também envolva estados e municípios.
No caso dos sensores de glicose, algumas administrações municipais criaram políticas próprias para determinados grupos, porém a definição de quem pode receber o dispositivo fica vinculada às regras estabelecidas localmente. São José dos Campos é um exemplo disso. Em março de 2026, o município sancionou uma lei que autoriza a disponibilização dos dispositivos pelo SUS municipal.
São José dos Campos autoriza sensor de glicose pelo SUS municipal
A Lei nº 11.255 estabelece que o acesso ao dispositivo depende de prescrição médica que comprove a necessidade do aparelho, e que política siga a regulamentação do Poder Executivo. Na prática, isso significa que a existência da lei não deve ser interpretada como uma liberação automática do sensor para qualquer pessoa com diabetes, de maneira que o acesso depende das regras de implementação e dos critérios previstos.
Em Indaiatuba, o programa tem critérios próprios
Também no interior de São Paulo, Indaiatuba iniciou em 2026 a disponibilização do sensor de glicose dentro do Programa Municipal de Atenção Integral às Pessoas com Diabetes.
Os primeiros dispositivos começaram a ser entregues em agosto. O programa atende pessoas que se enquadram nos critérios definidos pelo protocolo clínico municipal, incluindo grupos específicos de pessoas com diabetes tipo 1. Nesse caso, novamente, o município estabeleceu suas próprias regras para definir quem pode participar.
A iniciativa mostra como uma tecnologia pode chegar à rede pública por meio de uma política municipal, mesmo sem existir uma oferta nacional para toda a população com diabetes.
Aracaju amplia o acesso para crianças, adolescentes e jovens
Já em Aracaju, o projeto Sem Medir a Vida também criou uma alternativa para pessoas com diabetes tipo 1 acompanhadas pela rede municipal. O programa começou como projeto-piloto para crianças e adolescentes e foi ampliado.
Em 2026, passou a contemplar pacientes de 2 a 22 anos, desde que atendam aos critérios estabelecidos pelo município, incluindo diagnóstico de diabetes tipo 1, uso de insulina e acompanhamento regular pela rede municipal. Em julho de 2026, a Prefeitura informou a entrega de novos sensores e a continuidade da iniciativa. Assim como nos outros municípios, o acesso está relacionado às regras do programa local.
Por que o sensor de glicose ainda não faz parte da oferta nacional do SUS?
Para uma nova tecnologia chegar a toda a rede do SUS, não basta que ela já esteja disponível no mercado. Antes de ser oferecida nacionalmente, ela precisa passar por um processo de avaliação e incorporação ao sistema público.
Esse processo é analisado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, a Conitec. A comissão avalia as evidências disponíveis sobre a tecnologia, considerando aspectos como eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário. O produto também precisa ter registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para poder ser avaliado para incorporação.
A Conitec então emite uma recomendação, que subsidia a decisão do Ministério da Saúde sobre a incorporação, e quando a decisão é pela inclusão da tecnologia no SUS, as áreas técnicas do Ministério da Saúde têm prazo de até 180 dias para efetivar a oferta.
Esse caminho ajuda a explicar por que uma tecnologia pode estar disponível em uma cidade e ainda não fazer parte da assistência oferecida em todo o país. No caso do sensor de glicose, a incorporação nacional ainda é tema de avaliação.
Em julho de 2026, a Conitec voltou a analisar o uso de sistemas de monitoramento contínuo da glicose, desta vez em tempo real, para pessoas com diabetes tipo 1. A proposta foi discutida pela comissão em 3 de julho e posteriormente passou por consulta pública. A nova avaliação ocorreu após uma decisão anterior, de 2025, que não incorporou ao SUS o sistema de monitoramento por escaneamento intermitente para pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2.
Enquanto não há uma política nacional de fornecimento para essas tecnologias, municípios podem criar iniciativas próprias, com critérios específicos para definir quem terá acesso. É nesse cenário que a cidade onde a pessoa mora pode fazer diferença.
Como saber se a sua cidade oferece sensor?
Quem tem diabetes e quer saber se pode ter acesso a um sensor pela rede pública deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS), a Secretaria Municipal de Saúde ou o serviço especializado que acompanha o tratamento. Como os critérios podem variar entre os municípios, algumas perguntas ajudam a entender como funciona o acesso em cada local:
- O município oferece algum programa de monitorização contínua da glicose?
- Quais pessoas podem participar?
- O programa é destinado apenas a quem tem diabetes tipo 1?
- Há limite de idade?
- É necessário fazer uso de insulina?
- É preciso apresentar receita, laudo ou indicação médica?
- O paciente precisa ser acompanhado pela rede municipal?
- Como funciona a inscrição e quais documentos são necessários?
Essas informações podem indicar se existe um programa na cidade e quais são os critérios para solicitar o sensor de glicose. Mesmo quando há uma iniciativa municipal, o acesso não é necessariamente automático e depende das regras estabelecidas pelo próprio programa.
O que pode mudar daqui para frente?
A criação de programas municipais ocorre em meio às discussões sobre a ampliação do acesso ao sensor de glicose na rede pública. No Congresso Nacional, há propostas em tramitação que tratam do fornecimento de sistemas de monitorização contínua ou por escaneamento intermitente da glicose para pessoas com diabetes. Até que essas iniciativas resultem em mudanças na política nacional de saúde, os programas municipais seguem como uma das formas de ampliar o acesso à tecnologia para grupos específicos.
Quer saber mais sobre o assunto? Confira este episódio do Diabetescast, que aborda o que o SUS oferece às pessoas com diabetes, com a participação da enfermeira e educadora Gabriela Cavicchioli.
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