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    Novo consenso recomenda rastrear diabetes tipo 1 antes dos sintomas; veja como funciona

    Tom Bueno18 de setembro de 2026Nenhum comentário8 Mins Read
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    Rastreamento de diabetes tipo 1 com coleta de sangue em criança acompanhada por familiar que utiliza sensor de glicose.
    Exames de autoanticorpos podem ajudar a identificar o diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas. Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial.
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    O diabetes tipo 1 pode começar muito antes do aparecimento de sintomas como sede excessiva, aumento da quantidade de urina, cansaço e perda de peso. Agora, um novo consenso internacional propõe ampliar o rastreamento para identificar esse processo ainda nas fases iniciais da doença.

    Publicado em 2026 na revista científica Diabetologia, o documento recomenda que o rastreamento de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 seja oferecido à população geral nos locais onde exista estrutura para confirmar os resultados e acompanhar as pessoas identificadas.

    A proposta representa uma mudança importante na estratégia de detecção da doença. Em vez de procurar sinais de autoimunidade principalmente em familiares de pessoas com diabetes tipo 1 e outros grupos considerados de maior risco, os especialistas defendem ampliar o rastreamento.

    Um dos motivos é que mais de 85% das pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 1 no estágio clínico não têm histórico familiar da doença. Na prática, grande parte dos casos não seria identificada antecipadamente se os exames fossem direcionados apenas aos familiares.

    O consenso foi elaborado por especialistas internacionais e recebeu o endosso de entidades como a European Association for the Study of Diabetes (EASD), International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes (ISPAD), IDF Europe, Breakthrough T1D e outras organizações da área.

    É possível descobrir o diabetes tipo 1 antes dos sintomas? Pesquisa clínica busca voluntários

    Como é possível identificar o diabetes tipo 1 antes dos sintomas?

    O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. O sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.

    Esse processo pode começar meses ou anos antes do diagnóstico clínico.

    O rastreamento procura no sangue os chamados autoanticorpos contra as ilhotas pancreáticas, que funcionam como marcadores desse processo autoimune.

    Atualmente, quatro autoanticorpos são utilizados clinicamente:

    • IAA, contra a insulina;
    • GADA, contra GAD65;
    • IA-2A, contra IA-2;
    • ZnT8A, contra o transportador de zinco 8.

    A presença desses marcadores permite identificar pessoas que apresentam autoimunidade relacionada ao diabetes tipo 1 mesmo quando ainda não existem os sintomas clássicos da doença.

    Um resultado positivo inicial, no entanto, precisa ser confirmado. O consenso recomenda uma nova coleta de sangue e, idealmente, a utilização de outro método de análise para confirmar os autoanticorpos encontrados.

    Ter apenas um autoanticorpo confirmado também não é suficiente para classificar a pessoa como tendo diabetes tipo 1 em estágio inicial. A presença isolada desse marcador está associada a maior risco e pode indicar a necessidade de novo acompanhamento, dependendo de fatores como idade e histórico familiar.

    Consenso indica três momentos para rastreamento na infância

    Uma das principais novidades do documento é a indicação de faixas etárias para o rastreamento da população geral.

    A primeira avaliação é recomendada entre 2 e 4 anos de idade. Caso nenhum autoanticorpo seja identificado, o exame deve ser repetido entre 6 e 8 anos e novamente entre 10 e 15 anos.

    Crianças que não tenham sido avaliadas anteriormente poderiam realizar o rastreamento assim que possível.

    Para pessoas com mais de 15 anos que nunca foram rastreadas, o consenso considera que uma avaliação única também pode ser realizada em conjunto com outras ações de saúde. Os autores reconhecem, porém, que ainda existem menos evidências para determinar a melhor idade e a frequência dos exames entre adultos.

    Diabetes tipo 1 já pode ser identificado em diferentes estágios

    A possibilidade de encontrar autoanticorpos mudou a compreensão sobre quando o diabetes tipo 1 começa.

    No estágio 1, a pessoa apresenta dois ou mais autoanticorpos confirmados e ainda mantém a glicemia normal.

    No estágio 2, além da autoimunidade, começam a aparecer alterações no metabolismo da glicose, chamadas de disglicemia, mas ainda sem o quadro clínico tradicional.

    O estágio 3 corresponde à fase clínica, caracterizada pela hiperglicemia persistente, com ou sem os sintomas clássicos do diabetes.

    Identificar alguém nos estágios iniciais permite acompanhar a evolução da doença antes que aconteça a manifestação clínica.

    Rastreamento pode reduzir diagnóstico com cetoacidose

    Um dos principais benefícios apontados pelo consenso está na redução da cetoacidose diabética no momento do diagnóstico clínico.

    A cetoacidose é uma complicação provocada pela deficiência de insulina. É uma emergência médica que pode exigir internação e, nos casos mais graves, cuidados em unidade de terapia intensiva.

    Segundo o documento, estudos internacionais mostram que entre 20% e 67% das crianças e adolescentes podem apresentar cetoacidose no momento do diagnóstico do diabetes tipo 1, dependendo da população analisada. Cerca de um terço dos casos de cetoacidose citados no consenso necessita de cuidados intensivos.

    Experiências de rastreamento mostram que esse cenário pode ser diferente quando as famílias já sabem que a criança apresenta autoimunidade e recebem acompanhamento.

    Em um centro especializado dos Estados Unidos, a ocorrência de cetoacidose foi de 4,9% entre crianças identificadas precocemente e acompanhadas, comparada a 48,5% na população regional.

    Na Alemanha, o programa Fr1da registrou cetoacidose em 3,2% das crianças identificadas com diabetes tipo 1 em estágio inicial e acompanhadas. Outro programa realizado no Colorado, nos Estados Unidos, encontrou taxa de 4,5% entre crianças com diagnóstico confirmado em estágio inicial, comparada a 58% entre crianças que não haviam participado do rastreamento.

    Os resultados reforçam que o benefício não está apenas em descobrir os autoanticorpos. A identificação precisa ser acompanhada de monitoramento e orientação para reconhecer a progressão da doença.

    Saúde mental e diabetes tipo 1: os impactos do diagnóstico e da cetoacidose | DiabetesCast #68

    Resultado positivo precisa ser confirmado e acompanhado

    O consenso estabelece que um programa de rastreamento precisa ir além da realização do exame.

    Os especialistas defendem uma estrutura que permita confirmar os resultados, avaliar alterações da glicose, encaminhar as pessoas identificadas para serviços de saúde e acompanhar a evolução da doença.

    O documento também recomenda educação para pacientes e familiares e suporte psicossocial quando necessário.

    Isso é importante porque o rastreamento também pode gerar ansiedade, resultados falso-positivos e falsa sensação de segurança após um resultado negativo.

    Um exame sem autoanticorpos naquele momento não significa que a pessoa nunca desenvolverá diabetes tipo 1. A autoimunidade pode surgir posteriormente, uma das razões para o consenso recomendar avaliações em diferentes momentos da infância.

    Experiências já rastrearam milhares de crianças

    Programas realizados em diferentes países ajudam a dimensionar como o rastreamento pode funcionar na prática.

    Na Alemanha, o programa Fr1da rastreou mais de 200 mil crianças entre fevereiro de 2015 e julho de 2024. Destas, 576, o equivalente a 0,30%, foram identificadas com diabetes tipo 1 em estágio inicial.

    Nos Estados Unidos, o programa ASK rastreou 34.110 crianças e adolescentes de 1 a 17 anos entre 2017 e 2023. Cerca de 0,54% apresentaram múltiplos autoanticorpos e 0,42% apresentaram um único autoanticorpo de alta afinidade.

    A Itália também é citada pelo consenso. Em 2023, o Parlamento italiano aprovou uma lei estabelecendo a oferta de rastreamento para diabetes tipo 1 em estágio inicial e doença celíaca para crianças e adolescentes por meio do sistema nacional de saúde. O programa ainda passa por etapas de implementação e avaliação de sustentabilidade.

    Brasil também avança na discussão sobre rastreamento

    A discussão sobre identificar o diabetes tipo 1 antes dos sintomas também está avançando no Brasil.

    A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) prepara uma iniciativa de rastreamento de autoanticorpos no país, ampliando a discussão sobre a identificação do diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas.

    A iniciativa brasileira ganha relevância diante de um dos principais argumentos apresentados pelo novo consenso: a maioria das pessoas que desenvolve diabetes tipo 1 não possui histórico familiar da doença. Por isso, estratégias restritas aos familiares conseguem alcançar apenas uma parcela daqueles que poderão desenvolver a doença.

    Os detalhes sobre abrangência, número de participantes, locais, critérios e início do projeto da SBD não constam no consenso internacional e precisam ser acrescentados a partir das informações oficiais da iniciativa brasileira.

    Identificar antes dos sintomas muda o momento do diagnóstico

    O novo consenso reforça uma mudança que vem acontecendo na compreensão do diabetes tipo 1.

    O diagnóstico não precisa acontecer apenas quando a glicose já está elevada ou quando aparecem sede excessiva, aumento da urina, perda de peso e outros sintomas.

    Os autoanticorpos permitem identificar o processo autoimune antes dessa fase e acompanhar pessoas com maior risco de progressão.

    Para os especialistas, ampliar o rastreamento pode ajudar a preparar pacientes e famílias, reduzir a ocorrência de cetoacidose no diagnóstico, permitir acompanhamento metabólico e identificar pessoas que possam participar de estudos clínicos ou, nos locais onde houver indicação e disponibilidade, ter acesso a terapias capazes de modificar a progressão da doença.

    O consenso ressalta, entretanto, que o rastreamento precisa fazer parte de uma estratégia completa. Encontrar os autoanticorpos é apenas o primeiro passo. Confirmação do resultado, acompanhamento e orientação ao longo do tempo são partes fundamentais da identificação precoce do diabetes tipo 1.

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    Tom Bueno

    Fundador & CEO | Jornalista e Criador de Conteúdo - Tom é jornalista experiente, com mais de 17 anos de carreira em televisão, tendo atuado como repórter e apresentador nas principais emissoras do país. Diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 22 anos, transformou sua trajetória pessoal em uma missão profissional. Além de liderar o Um Diabético, também realiza documentários e curtas com foco em saúde e impacto social. É reconhecido como um dos principais porta-vozes do diabetes no Brasil, dando voz e visibilidade a milhares de pessoas que convivem com a condição.

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