O diabetes não é um obstáculo para quem deseja começar a correr. Em meio ao crescimento da corrida de rua no Brasil, cada vez mais pessoas com diabetes estão participando de provas, compartilhando resultados nas redes sociais e incorporando a atividade física à rotina de cuidados com a saúde.
O medo da hipoglicemia, das complicações nos pés e da falta de preparo ainda afasta muitas pessoas com diabetes das corridas de rua. Especialistas afirmam que esses cuidados existem, mas não impedem a prática do esporte.
A resposta para uma das dúvidas mais frequentes é direta: pessoas com diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2 podem praticar corrida, participar de provas e até completar uma maratona. O que muda é a necessidade de conhecer como o organismo reage ao exercício e adotar algumas medidas para treinar de forma segura.
Diabetes e corrida podem caminhar juntos
A corrida é uma atividade que aumenta o gasto energético e utiliza mais glicose durante o exercício. Isso pode ajudar no controle glicêmico e melhorar a sensibilidade à insulina.
O professor de educação física, ultramaratonista e pessoa com diabetes tipo 1, Emerson Bisan, afirma que a corrida se tornou parte da sua rotina de cuidados.
“Eu escolhi a corrida como meu esporte para ajudar no controle do diabetes.”
Bisan já completou mais de 100 maratonas e participou de uma prova de 250 quilômetros no deserto. Sua trajetória ajuda a mostrar que o diabetes não impede a prática esportiva.
“Se tudo estiver ajustado, se houver um planejamento, é possível ir além do que você imagina.”
Corrida faz a glicose baixar?
Em muitas pessoas, a corrida ajuda a reduzir a glicose no sangue porque aumenta o consumo de energia pelo organismo. O efeito, porém, não acontece da mesma maneira para todos.
A resposta da glicemia pode variar de acordo com a intensidade do exercício, a alimentação, a temperatura, o uso de medicamentos e o tempo de prática.
Por isso, especialistas reforçam que o monitoramento da glicose é uma das medidas mais importantes para quem deseja correr.
O maior cuidado para quem tem diabetes é a glicemia
Embora a corrida possa trazer benefícios, ela exige atenção, principalmente para quem utiliza insulina.
A endocrinologista Denise Franco explica que o principal cuidado está no monitoramento da glicose antes, durante e depois da atividade física.
“Monitorar a glicemia é importante porque ela vai ser o direcionamento para a conduta que você vai ter junto ao exercício físico.”
Segundo a médica, conhecer os números ajuda a decidir se é necessário comer antes do treino, fazer um ajuste na insulina ou até adiar o exercício. Ela faz uma comparação simples.
“É como dirigir de olhos vendados. Você não sabe o que pode acontecer se não estiver monitorando.”
Quais cuidados devem ser considerados antes de começar a correr
Quem deseja iniciar na corrida deve prestar atenção em alguns pontos.
Verificar a glicemia antes do treino
Quem utiliza insulina ou medicamentos que podem causar hipoglicemia precisa saber se a glicose está em uma faixa segura para iniciar a atividade.
Levar uma fonte de carboidrato
Sachês de glicose, mel, suco ou outro carboidrato de absorção rápida podem ser importantes caso a glicemia caia durante a corrida.
Observar os pés
Pessoas com neuropatia diabética precisam prestar atenção aos pés antes e depois do exercício.
Especialistas orientam examinar o calçado, verificar a presença de bolhas e usar um tênis apropriado para a prática esportiva.
Começar de forma gradual
Quem nunca correu não precisa pensar em uma maratona logo no início. A recomendação é começar com caminhadas e aumentar o ritmo aos poucos.
O que levar para uma corrida se você tem diabetes
- Monitor ou sensor de glicose;
- Carboidrato de ação rápida;
- Água;
- Documento de identificação;
- Cartão ou pulseira informando que a pessoa tem diabetes;
- Informação sobre contatos de emergência.
Quem tem diabetes pode correr uma maratona?
Sim. Mas isso exige planejamento.
Emerson Bisan explica que cada treino funciona como uma oportunidade de entender como o corpo reage.
Segundo ele, existem cinco perguntas importantes antes de correr:
- Como está a glicemia?
- O que foi consumido antes do treino?
- Quais medicamentos foram utilizados?
- Qual será o tipo de exercício?
- Qual carboidrato estará disponível em caso de hipoglicemia?
“O segredo é estudar o próprio corpo e planejar.”
O especialista ressalta que cada pessoa responde de maneira diferente ao exercício. A velocidade de queda da glicose pode variar conforme alimentação, temperatura, intensidade do treino e uso de insulina.
Por isso, não existe uma regra única. Especialistas explicam que o objetivo não precisa ser uma maratona. Muitas pessoas começam alternando caminhada e corrida e descobrem, ao longo do tempo, que conseguem avançar para distâncias maiores.
O homem com diabetes que correu 250 quilômetros no deserto
A história de Emerson Bisan começou de forma simples. Ele passou a correr ao lado do pai e percebeu que os dias de treino ajudavam no controle da glicemia.
Um ano após receber o diagnóstico de diabetes tipo 1, completou sua primeira maratona de 42 quilômetros.
Anos depois, participou de uma prova de 250 quilômetros no deserto, levando na mochila toda a alimentação, insulinas e materiais necessários para o controle do diabetes.
“O menor problema que eu tive em todos os meus desafios foi o diabetes, porque eu fui bem treinado, bem estudado e autoconsciente em tudo.”
A experiência também serviu para incentivar outras pessoas que acreditavam não ser capazes de correr.
“Na maioria das vezes, a pessoa mesmo não acredita o tanto que ela pode chegar tão longe.”
A frase resume um movimento que ganhou força nos últimos anos. Cada vez mais pessoas estão descobrindo na corrida uma forma de desafiar os próprios limites e de criar uma nova relação com a saúde.
Corrida também ajuda no diabetes tipo 2
Para quem vive com diabetes tipo 2, a atividade física ocupa um papel central no tratamento.
Segundo Emerson Bisan, a prática regular da corrida melhora a sensibilidade à insulina e contribui para o controle da glicose.
Os benefícios também podem permanecer por horas após o término do exercício, favorecendo o controle metabólico ao longo do dia.
Especialistas destacam que a corrida não substitui medicamentos por conta própria. Qualquer mudança no tratamento deve ser discutida com a equipe de saúde.
Para muitas pessoas, a corrida começa como uma tentativa de melhorar a saúde. Para quem convive com diabetes, ela também pode se transformar em uma forma de descobrir que o diagnóstico não precisa determinar até onde alguém pode chegar.
