A produção nacional de insulina começa a chegar à ponta da rede pública. Aparecida de Goiânia, em Goiás, recebeu em julho as primeiras unidades de insulina glargina. O medicamento é fabricado pela Biomm em parceria com o Ministério da Saúde e a Fiocruz. Antes da distribuição efetiva aos pacientes, as equipes das unidades de saúde já passaram por treinamento para receber o novo protocolo.
O primeiro lote e os próximos passos
O lote inicial, de 400 unidades, marca a primeira etapa da chegada da insulina glargina à cidade. Segundo a secretaria de saúde, entre 250 e 300 pessoas se enquadram nas regras de transição definidas pelo Ministério da Saúde. Enquanto a segunda remessa não chega, a gestão municipal já se prepara para ampliar a dispensação nas UBS a todos os pacientes elegíveis.
Nesse meio tempo, as endocrinologistas do Centro de Especialidades já vêm mapeando os pacientes. Elas também os encaminham para suas UBS de referência, preparando o terreno para a próxima fase.
Por que a dispensação vai começar pelo Centro de Especialidades
Na primeira etapa, enquanto a segunda remessa não chega, a gestão municipal aproveita o mapeamento de pacientes já em andamento. Assim, a dispensação começa pelo Centro de Especialidades. Fabricio Moraes, diretor da Farmácia de Alto Custo de Aparecida de Goiânia, explica a lógica da escolha:
“As endocrinologistas do Centro de Especialidades já vêm mapeando e encaminhando os pacientes para suas UBS de referência”.
Com esse direcionamento, as 400 unidades recebidas chegam de forma mais precisa às unidades de referência de cada paciente. Assim, o lote inicial é otimizado nessa fase. Na etapa seguinte, com a chegada da nova remessa, a distribuição avança para as 42 UBS da cidade. Isso amplia o acesso ao medicamento pela Atenção Primária.
Aparecida de Goiânia tem hoje entre 30 mil e 35 mil adultos convivendo com diabetes, segundo a secretaria de saúde.
Uma fábrica que retomou a produção nacional após 20 anos
A insulina glargina, um análogo de insulina humana de ação prolongada, é indicada para o controle glicêmico de pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2. A fábrica da Biomm foi inaugurada em abril de 2024, em Nova Lima, Minas Gerais. Ela marcou a retomada da produção nacional de insulina em escala industrial após cerca de 20 anos.
“Somos o único laboratório produtor de insulina glargina no Brasil. Temos uma fábrica inteiramente dedicada à produção desse medicamento e uma parceria importante com o Ministério da Saúde para fornecer insulina ao SUS.”
Para o executivo, a retomada da produção representa um avanço para a saúde pública. Além disso, ele destaca o potencial de reduzir a dependência de importações: “O Brasil durante muitas décadas dependeu da importação de insulina. Queremos contribuir para reduzir essa dependência e aumentar a autossuficiência do país.”
Parceria com o Ministério da Saúde fortalece o abastecimento do SUS
A produção da Biomm integra uma parceria com o Ministério da Saúde e a Fiocruz voltada ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Fernanda de Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, avalia que a retomada da fabricação nacional aumenta a segurança no abastecimento do SUS.
“A gente retomou a produção de insulina no país, então isso nos deixa mais seguros frente aos episódios de escassez, de falta de insulina que têm ocorrido no mercado mundial”, afirma.
Segundo ela, a produção nacional também contribui diretamente para a expansão do acesso ao tratamento. “Essa migração para a glargina resolve uma parte do problema, e uma parte significativa é resolvida quando você consegue retomar essa produção nacional, porque isso nos dá mais garantia de fornecimento para o Sistema Único de Saúde”, completa Fernanda de Negri.
Quem pode receber a insulina glargina pelo SUS
Neste momento, a ampliação contempla crianças e adolescentes de 2 a 18 anos com diabetes tipo 1. Também inclui pessoas com 70 anos ou mais, com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Nos dois casos é preciso atender aos critérios do Ministério da Saúde. A avaliação deve ser feita por um profissional da UBS. Esse profissional verifica se o paciente atende aos critérios clínicos para a mudança de tratamento.
Nesse sentido, o Ministério da Saúde realizou 131 oficinas presenciais para médicos, enfermeiros e farmacêuticos da Atenção Primária, para preparar a rede pública. Além disso, foram oferecidos cursos de educação a distância voltados à implantação da nova estratégia terapêutica.
Expansão gradual em todo o país
O Ministério da Saúde já iniciou a distribuição da insulina glargina para todos os estados brasileiros. Nesse contexto, a implantação ocorre de forma gradual, permitindo que estados e municípios organizem o atendimento e acompanhem a adaptação dos pacientes ao novo tratamento. Segundo Fernanda de Negri, a expectativa é beneficiar cerca de 50 mil pessoas ainda em 2026, primeiro ano de implantação. O número equivale a aproximadamente 30% do público previsto para essa etapa.
Ao final da implantação, a estimativa é que cerca de 2 milhões de brasileiros tenham acesso à insulina glargina pelo SUS. O número consolida uma das maiores ampliações desse tratamento já realizadas na rede pública. Aparecida de Goiânia, portanto, é um retrato do início dessa transição, que agora avança cidade a cidade.
