O pré-diabetes afeta milhões de brasileiros e representa um alerta para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. Nessa fase, os níveis de glicose já estão acima do considerado normal, mas ainda não atingiram os critérios para o diagnóstico da doença. Entre as estratégias recomendadas para evitar essa progressão, a atividade física ocupa papel central.
No entanto, muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre quais exercícios praticar, qual intensidade escolher e como a atividade física influencia o controle da glicose. Durante participação no DiabetesCast, o fisiologista do exercício William Komatsu explicou os mecanismos que ajudam a entender por que o movimento do corpo pode fazer diferença nessa etapa.
Como o exercício ajuda quem tem pré-diabetes
Segundo William Komatsu, qualquer atividade física pode trazer benefícios. No entanto, diferentes exercícios provocam respostas distintas no organismo.
“O exercício é o exercício feito”, afirmou o fisiologista.
Isso significa que caminhada, bicicleta, corrida ou musculação podem contribuir para a saúde metabólica. Porém, a forma como o organismo utiliza a glicose varia conforme o tipo e a intensidade da atividade.
Nesse contexto, o exercício funciona como uma ferramenta para aumentar o consumo de energia pelas células. Quando o corpo precisa produzir mais energia, mecanismos internos favorecem a entrada da glicose nos músculos, reduzindo sua concentração na corrente sanguínea.
Para pessoas com pré-diabetes, esse processo pode ajudar a combater uma das principais alterações da doença: a resistência à insulina.
Resistência à insulina é um dos principais desafios do pré-diabetes
A resistência à insulina acontece quando as células passam a responder com menos eficiência ao hormônio responsável por transportar a glicose do sangue para o interior dos tecidos.
Como consequência, o organismo precisa produzir mais insulina para manter os níveis de glicose sob controle.
Segundo Komatsu, a atividade física ajuda justamente a estimular mecanismos que facilitam a entrada da glicose nas células, mesmo quando existe resistência à ação da insulina.
Por isso, o especialista defende uma combinação entre exercícios aeróbicos e exercícios de fortalecimento muscular.
“Seria meio a meio que você vai conseguir o resultado”, explicou.
Caminhada e musculação podem atuar de formas diferentes
Os exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida leve e bicicleta, costumam aumentar o consumo de glicose durante a atividade.
Segundo Komatsu, atividades de baixa intensidade tendem a estimular uma via metabólica que favorece a utilização da glicose pelos músculos.
Por outro lado, exercícios de fortalecimento muscular oferecem benefícios complementares.
A musculação aumenta a massa muscular e, consequentemente, eleva o gasto energético do organismo. Além disso, músculos mais desenvolvidos conseguem armazenar mais glicogênio, que funciona como uma reserva de energia.
Nesse contexto, o ganho de massa muscular pode contribuir para um controle metabólico mais eficiente ao longo do tempo.
Intensidade também influencia os resultados
Muitas pessoas acreditam que qualquer intensidade produz os mesmos efeitos sobre a glicose. No entanto, a resposta pode variar.
Segundo Komatsu, uma caminhada em ritmo leve geralmente favorece a redução da glicose durante a atividade.
Por outro lado, exercícios muito intensos podem gerar uma resposta diferente. Em alguns casos, a glicose pode até subir temporariamente durante o treino.
Isso acontece porque o organismo ativa mecanismos voltados para atender à demanda energética imediata do exercício.
Ainda assim, o fisiologista destaca que essa elevação costuma ser transitória.
“Se você tem uma hiperglicemia causada pelo exercício físico, você não precisa se preocupar tanto. Ela vai se controlar mais facilmente”, explicou.
Mais músculo pode ajudar na prevenção do diabetes tipo 2
Além do gasto energético diário, a massa muscular desempenha papel importante no metabolismo da glicose.
Segundo Komatsu, músculos mais desenvolvidos armazenam mais glicogênio e utilizam mais energia para manter suas funções. Por isso, a musculação não deve ser vista apenas como uma ferramenta estética.
Para pessoas com pré-diabetes, o fortalecimento muscular pode representar uma estratégia para melhorar o uso da glicose e reduzir fatores associados à progressão da doença.
A partir dos 30 anos o corpo começa a perder massa muscular
Outro ponto destacado pelo fisiologista envolve o envelhecimento. Segundo ele, a perda de massa muscular começa por volta dos 30 anos e pode se intensificar com o passar do tempo.
Essa redução está relacionada ao desenvolvimento da sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de força e massa muscular.
No caso das pessoas com diabetes tipo 2, esse processo costuma receber atenção especial devido ao impacto que a musculatura exerce sobre o metabolismo da glicose.
Por isso, Komatsu defende que o fortalecimento muscular deve fazer parte da rotina, inclusive entre idosos.
Não existe exercício proibido para quem tem pré-diabetes
Uma dúvida frequente envolve a escolha da modalidade. Segundo Komatsu, não existe um exercício específico que deva ser evitado apenas pelo fato de a pessoa ter pré-diabetes.
A recomendação é encontrar uma atividade compatível com a condição física, os objetivos e as preferências individuais.
Além disso, manter a regularidade tende a ser mais importante do que buscar uma modalidade considerada ideal.
Exercício físico faz parte da estratégia para evitar a progressão da doença
O pré-diabetes não significa que a evolução para o diabetes tipo 2 seja inevitável. Mudanças no estilo de vida podem influenciar diretamente esse processo. Nesse cenário, a atividade física atua em diferentes frentes, incluindo melhora da sensibilidade à insulina, aumento do consumo de glicose pelos músculos e preservação da massa muscular.
Enquanto isso, a escolha do exercício pode variar conforme os objetivos e as condições de cada pessoa. O ponto comum é a necessidade de manter o corpo em movimento de forma regular.