O diabetes tipo 1 faz parte da rotina de milhões de pessoas, mas ainda é uma condição cercada por dúvidas, solidão e, muitas vezes, falta de informação prática. Para quem recebe o diagnóstico ainda na infância, o desafio vai além do tratamento: envolve crescer tentando entender o próprio corpo e adaptar a vida a uma condição crônica.
As histórias de Marília Landini e Lucas Lorenzi ajudam a traduzir esse cenário. Em trajetórias diferentes, mas atravessadas pela mesma realidade, os dois passaram por momentos de incerteza, dificuldades no controle da glicemia e impactos emocionais importantes. Hoje, transformaram essas experiências em conteúdo, orientação e, mais recentemente, em um evento voltado à comunidade.
Diagnóstico precoce e impacto emocional
No caso de Marília, os primeiros sinais apareceram aos 11 anos, antes mesmo da confirmação do diagnóstico. Episódios frequentes de hipoglicemia levaram a diversas idas ao hospital, até que exames apontaram um quadro inicial de pré-diabetes.
Com o tempo, foi necessário iniciar o uso de insulina.
Se por um lado isso permitiu um acompanhamento mais próximo da condição, por outro trouxe efeitos emocionais relevantes.
“Foi muito difícil.”
O medo de novas crises passou a fazer parte da rotina. Além disso, a repetição de episódios de hipoglicemia contribuiu para o desenvolvimento de ansiedade e síndrome do pânico.
Esse tipo de impacto não é incomum. O controle da glicemia exige vigilância constante, o que pode gerar insegurança, especialmente em fases mais jovens.
A busca por informação como ponto de virada
Diante desse cenário, Marília começou a buscar mais conhecimento sobre o diabetes tipo 1. Entender como a glicemia reagia, como ajustar a alimentação e como lidar com as oscilações passou a ser parte do dia a dia.
Com o tempo, esse processo deixou de ser apenas individual.
Ela começou a compartilhar a própria rotina nas redes sociais, mostrando não apenas os acertos, mas também as dificuldades.
Hoje, reúne mais de 140 mil seguidores em um perfil que se tornou referência para quem busca informação acessível e identificação.
Além disso, o conteúdo aborda temas práticos, como contagem de carboidratos, uso de insulina e manejo de hipoglicemias, sem perder o olhar humano sobre a condição.
Uma trajetória marcada pela falta de acesso à informação
Já a história de Lucas Lorenzi evidencia outro aspecto do diabetes tipo 1: o impacto da ausência de informação.
Diagnosticado aos 7 anos, ele cresceu em um período em que o acesso a conteúdo sobre a doença era limitado. Não havia redes sociais, comunidades online ou tecnologias amplamente disponíveis para monitoramento contínuo da glicemia.
Sem esse suporte, o cuidado não se estruturou ao longo da juventude.
“Fiquei mais de 10 anos sem voltar ao médico.”
Além disso, o uso da insulina e o monitoramento da glicemia não seguiam uma rotina consistente.
“Às vezes eu esquecia de aplicar.”
Esse cenário contribuiu para o desenvolvimento de complicações ao longo do tempo, incluindo neuropatia diabética e alterações na visão.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, a manutenção da glicemia fora da faixa recomendada por períodos prolongados está diretamente associada a danos em nervos, vasos sanguíneos e órgãos.
Quando as complicações mudam a rotina
Os efeitos começaram a aparecer com mais intensidade por volta dos 28 anos. Dores, perda de sensibilidade e limitações físicas passaram a interferir na rotina.
Atividades simples, como digitar ou caminhar por longos períodos, se tornaram mais difíceis.
“Hoje eu não consigo ficar mais de três minutos digitando sem dor.”
Além disso, o impacto não foi apenas físico. A presença de complicações também exigiu mudanças na organização do dia a dia, no trabalho e nos hábitos pessoais.
Esse tipo de evolução reforça um ponto central no diabetes tipo 1: o controle da glicemia ao longo do tempo é determinante para a qualidade de vida.
A descoberta da comunidade e a mudança de direção
A virada na trajetória de Lucas aconteceu já na fase adulta, quando ele entrou em contato com conteúdos sobre diabetes nas redes sociais.
Pela primeira vez, ele percebeu que não estava sozinho.
Esse contato com outras pessoas vivendo a mesma condição trouxe não apenas informação, mas também identificação.
A partir daí, ele passou a buscar acompanhamento médico, reorganizar a rotina e entender melhor o próprio tratamento.
Com o tempo, começou a compartilhar a própria experiência.
Hoje, também soma milhares de seguidores e atua como palestrante, levando informação e orientação para diferentes públicos.
Do ambiente digital ao encontro presencial
O encontro entre Marília e Lucas aconteceu em eventos relacionados ao diabetes. E foi nesse ambiente que surgiu uma percepção em comum.
“Foi um choque, mas um choque bom.”
A experiência de estar em um espaço onde todos compartilhavam a mesma realidade trouxe um senso de pertencimento que, até então, não fazia parte da rotina dos dois.
A partir disso, surgiu a ideia de ampliar essa experiência.
Um evento pensado por quem vive o diabetes
O projeto Tipo Doce Favorito nasce com essa proposta.
Criar um espaço de troca, aprendizado e acolhimento para pessoas com diabetes tipo 1.
O evento está previsto para acontecer no dia 1º de maio, no Estância Alto da Serra, em São Paulo, e deve reunir profissionais de saúde, influenciadores e pessoas da comunidade.
Entre os temas abordados estão educação em diabetes, contagem de carboidratos, atividade física e acesso ao tratamento.
Além disso, a programação inclui estandes, ativações e serviços como exames oftalmológicos.
Conexão como ferramenta de cuidado
Para Marília e Lucas, o principal objetivo vai além do conteúdo técnico.
“É sobre se sentir acolhido. Se sentir entendido.”
A proposta é criar um ambiente em que as pessoas possam compartilhar experiências, tirar dúvidas e perceber que não estão sozinhas.
Esse tipo de conexão pode impactar diretamente a forma como o diabetes é enfrentado no dia a dia.
Isso porque o cuidado com a glicemia não acontece apenas no consultório, mas nas decisões cotidianas, muitas vezes influenciadas por informação, suporte e troca de experiências.
Quando a experiência individual ganha impacto coletivo
As trajetórias de Marília e Lucas mostram caminhos diferentes dentro do diabetes tipo 1, mas que se encontram em um ponto comum: a importância da informação e da conexão.
Hoje, o que começou como histórias individuais se transforma em um movimento coletivo.
Um movimento que busca reduzir a solidão, ampliar o acesso à informação e fortalecer quem convive com a condição.
E que reforça, na prática, uma mensagem simples:
quem vive com diabetes, não precisa viver sozinho.