Lucas Cássio de Oliveira sabe muito bem o que é ouvir que algo parece impossível. Goleiro do Corinthians Futsal e eleito um dos melhores goleiros do mundo, ele convive com diabetes tipo 1 desde os 11 anos. Hoje, aos 35 anos, morando em Santo André (SP), ele olha para trás e percebe o quanto sua vida mudou desde o dia em que recebeu o diagnóstico.
Na época, Lucas ainda era apenas uma criança apaixonada por futebol. Como qualquer menino daquela idade, o sonho dele era simples: jogar bola. Mas quando descobriu a diabetes tipo 1, tudo pareceu virar de cabeça para baixo.
Ele lembra que sentiu um misto de choque, medo e dúvida. O assunto era pouco falado, existiam poucas informações e quase ninguém sabia explicar direito como seria a vida dali para frente.
O primeiro pensamento que passou pela cabeça dele foi direto: “não vou mais poder jogar futebol”.
Naquele momento, Lucas nem imaginava se tornar atleta profissional um dia. Muito menos vestir a camisa do Corinthians ou disputar competições mundiais. Para uma criança, receber uma notícia dessas parecia o fim de muitos sonhos.
O esporte como parte do controle da diabetes
Apesar do impacto inicial, Lucas conta que sempre tentou lidar com a situação de forma natural. Quem sofreu mais foi sua mãe. Segundo ele, ela ficou muito abalada e chegou até a pensar que tinha alguma culpa pelo diagnóstico do filho.
Com o tempo, porém, a família começou a entender melhor a condição e percebeu que seria possível continuar vivendo normalmente, desde que alguns cuidados passassem a fazer parte da rotina.
E foi justamente o esporte que ajudou Lucas nesse processo. Além de continuar sendo sua paixão, o futsal acabou contribuindo para o controle da glicose.
A partir do diagnóstico, ele precisou mudar alguns hábitos, principalmente na alimentação e no acompanhamento diário antes e depois dos treinos e jogos. Aos poucos, tudo isso deixou de parecer algo assustador e virou parte da vida.
Os desafios da glicose em dias de jogo
Hoje, mesmo com toda a experiência que acumulou, Lucas ainda enfrenta desafios. Em dias de jogo, por exemplo, controlar a glicose exige muita atenção.
Ele explica que partidas importantes trazem nervosismo, ansiedade e pressão. Isso faz o corpo liberar cortisol, um hormônio que pode aumentar bastante a glicose. Ao mesmo tempo, ele também precisa ter cuidado com a quantidade de insulina para evitar uma queda forte depois das partidas.
Segundo Lucas, o pós-jogo também exige bastante atenção. Depois da adrenalina e do esforço físico, a glicose pode cair rapidamente. Por isso, ele aprendeu a observar os sinais do próprio corpo e fazer medições frequentes ao longo do dia.
Para ele, esse é um dos segredos para conseguir manter o equilíbrio sem deixar que a condição atrapalhe sua carreira.
Mesmo convivendo com essas oscilações, Lucas nunca precisou abandonar um treino ou sair de um jogo por causa de crises graves. Claro que algumas alterações acontecem de vez em quando, mas ele aprendeu a entender como o corpo reage em diferentes situações.
Em dias de jogo, por exemplo, costuma ajustar a quantidade de insulina basal para tentar manter tudo mais estável. Ainda assim, faz questão de dizer que cada pessoa precisa descobrir o que funciona melhor para si, porque cada organismo reage de um jeito diferente.
Tecnologia e alto rendimento dentro das quadras
A tecnologia também virou uma aliada importante na rotina dele. Atualmente, Lucas utiliza o sensor FreeStyle Libre, que permite acompanhar a glicose de forma muito mais rápida e prática durante treinos e partidas.
Isso facilita bastante, principalmente em momentos em que ele precisa verificar os níveis de glicose rapidamente sem interromper totalmente a atividade.
Mesmo alcançando grandes conquistas na carreira, Lucas diz que nunca gostou de ser visto como alguém limitado pela diabetes tipo 1. Pelo contrário. Ele sempre acreditou que tinha as mesmas condições de competir que qualquer outro atleta.
Ser reconhecido como um dos melhores goleiros do mundo teve um significado muito especial, mas não porque queria “superar” a condição. Para ele, foi resultado de anos de trabalho, dedicação e esforço dentro das quadras.
Quebrando preconceitos sobre a diabetes tipo 1
Hoje, Lucas gosta de usar sua história para mostrar que ainda existe muito preconceito e desinformação sobre diabetes tipo 1.
Muita gente acredita que uma pessoa com a condição não consegue praticar esportes ou viver normalmente. Para ele, basta olhar para sua trajetória e para a de vários outros atletas de alto nível ao redor do mundo para perceber que isso não é verdade.
A maior lição que a vida trouxe para Lucas foi entender que algo que parece impossível no começo pode, com o tempo, virar apenas parte da rotina.
Com informação, disciplina e cuidado, ele aprendeu não apenas a controlar a glicose, mas também a continuar perseguindo seus sonhos sem deixar que o medo definisse seus limites.
Dentro e fora das quadras, a história de Lucas Cássio de Oliveira mostra que a diabetes tipo 1 não precisa impedir ninguém de conquistar grandes objetivos.