Cólicas menstruais intensas, inchaço abdominal e fadiga persistente já fazem parte da rotina de muitas mulheres com endometriose. Agora, um novo estudo sugere que a doença pode estar associada a outro problema de saúde: um risco maior de desenvolver diabetes tipo 2.
A pesquisa analisou quase 3 milhões de mulheres e identificou um risco 46% maior de diabetes tipo 2 entre aquelas que tinham diagnóstico de endometriose. O resultado chama atenção principalmente porque a associação foi mais evidente entre mulheres que não apresentavam obesidade, um dos fatores tradicionalmente relacionados ao diabetes tipo 2.
A endometriose afeta cerca de 7 milhões de mulheres no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), o equivalente a aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Embora seja conhecida principalmente pelos impactos ginecológicos, a doença vem sendo estudada por seus possíveis efeitos sistêmicos.
Por que a endometriose pode estar relacionada ao diabetes?
Para o ginecologista e obstetra Dr. Marcos Tcherniakovsky, especialista em endometriose e diretor de comunicação da SBE, uma possível explicação para a associação está na inflamação crônica.
“A endometriose hoje não é vista como uma doença única e exclusivamente da parte pélvica, mas de uma maneira sistêmica. Ela é uma inflamação crônica e tem repercussão no organismo”, explica.
Segundo o especialista, a inflamação persistente pode interferir na forma como o organismo responde à insulina. Substâncias envolvidas nesse processo, como a interleucina-6 (IL-6) e a proteína C-reativa (PCR), podem estar elevadas e prejudicar a sensibilidade à insulina.
Essa alteração pode contribuir para a resistência à insulina, mecanismo associado ao desenvolvimento do diabetes tipo 2.
“O elo entre elas é esse processo inflamatório crônico que ambas as doenças têm”, afirma o médico.
Estudo chama atenção para mulheres sem obesidade
Um dos resultados que mais surpreendeu os pesquisadores foi a associação observada entre endometriose e diabetes tipo 2 entre mulheres que não apresentavam obesidade.
Isso chama atenção porque o excesso de peso é um dos fatores de risco conhecidos para o diabetes tipo 2. No entanto, na análise, a relação entre as duas doenças foi especialmente relevante entre mulheres com menor índice de massa corporal.
“Essa é a parte mais interessante e surpreendente desse estudo”, avalia Marcos Tcherniakovsky.
Na prática, o resultado amplia a discussão sobre quais mulheres com endometriose podem precisar de maior atenção à saúde metabólica.
Segundo o especialista, uma mulher com endometriose, sem obesidade e ainda na pré-menopausa não deve ser automaticamente considerada de baixo risco para alterações metabólicas.
A transição para a menopausa também merece atenção. A endometriose é uma doença influenciada pelo estrogênio e pode apresentar atividade importante durante esse período.
Estudo não prova que endometriose causa diabetes
Apesar do tamanho da pesquisa e do resultado encontrado, o estudo não permite afirmar que a endometriose cause diabetes tipo 2.
Isso porque estudos observacionais conseguem identificar associações entre condições, mas não são suficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito.
Outro ponto importante é que a pesquisa não avaliou diretamente os marcadores inflamatórios das participantes. Por isso, a hipótese de que a inflamação crônica seja um dos mecanismos responsáveis pela associação ainda precisa ser investigada.
“É um estudo relevante porque envolve quase 3 milhões de mulheres, então precisa ser levado em consideração, mas outros estudos ainda têm que ser realizados”, pondera o médico.
Quando investigar a saúde metabólica?
O resultado reforça a importância de uma avaliação individualizada das mulheres com endometriose, especialmente quando existem outros fatores de risco para alterações da glicemia.
Entre os sintomas que podem estar relacionados à própria endometriose estão:
- cólicas menstruais intensas;
- inchaço abdominal;
- dor durante as relações sexuais;
- sintomas intestinais ou urinários;
- dificuldade para engravidar.
A presença desses sintomas não significa que a mulher tenha diabetes. No entanto, diante de indicação clínica, o médico pode solicitar exames para avaliar a saúde metabólica, como glicemia de jejum e hemoglobina glicada.
Dependendo do caso, o acompanhamento também pode envolver outros profissionais, como o endocrinologista.
Endometriose precisa ser vista de forma integral
A possível associação entre endometriose e diabetes tipo 2 reforça uma mudança na forma de compreender a doença. Em vez de considerar apenas os sintomas ginecológicos, especialistas defendem uma avaliação mais ampla da saúde da mulher.
“O médico tem que ter ciência disso, e a paciente também. Acho que é importante fazer o melhor acompanhamento possível dessa mulher”, destaca Marcos Tcherniakovsky.
O especialista também reforça que sintomas persistentes não devem ser normalizados.
“Conviver com dor não é normal, e sintomas persistentes precisam ser acolhidos e investigados, a dor da mulher não deve ser desacreditada ou naturalizada”, finaliza.
