O Brasil vai iniciar um rastreamento de pessoas com possível diagnóstico de diabetes tipo 5, uma condição associada à desnutrição e ainda pouco conhecida. A iniciativa busca identificar pacientes que podem ter recebido diagnóstico de diabetes tipo 1 ou tipo 2.
A estratégia foi confirmada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM 2026), realizado no Rio de Janeiro até sábado (29).
A ação envolve a Federação Internacional de Diabetes (IDF), a SBD, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Além disso, estudos devem contar com participação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O que é o diabetes tipo 5
O diabetes tipo 5 recebeu essa denominação porque apresenta características diferentes das outras formas catalogadas. Segundo a endocrinologista Hermelinda Pedrosa, vice-presidente da IDF e membro da SBD, a condição ocorre principalmente em pessoas muito magras.
Essas pessoas costumam ter menos de 30 anos e precisam de uma quantidade menor de insulina para controlar a glicemia. Além disso, o diabetes tipo 5 está relacionado a deficiências nutricionais graves durante períodos importantes do desenvolvimento.
Entre os sinais que podem levantar suspeita estão baixo índice de massa corporal (IMC), histórico de desnutrição e baixa produção de insulina.
A condição também apresenta uma diferença em relação ao tipo 2. A pessoa com diabetes tipo 5 não apresenta a resistência à insulina típica do tipo 2.
Por que o tipo 5 pode ser confundido com o tipo 1
A idade e o baixo peso podem levar profissionais de saúde a considerar inicialmente o diagnóstico de tipo 1. O fator hereditário também pode contribuir para essa classificação.
No diabetes tipo 1, o organismo apresenta deficiência na produção de insulina. Já no tipo 2, o organismo costuma desenvolver resistência à ação desse hormônio ao longo da vida.
No entanto, o diabetes tipo 5 apresenta outras características. Segundo Hermelinda Pedrosa, a pessoa não apresenta resistência à insulina e não desenvolve cetoacidose.
A cetoacidose ocorre quando a falta de insulina impede a glicose de entrar nas células. A condição pode causar uma emergência de saúde.
No diabetes tipo 5, o problema ocorre por uma deficiência nas células responsáveis pela produção de insulina. Essa alteração está relacionada à deficiência nutricional.
O que pode acontecer quando o tipo 5 recebe tratamento para tipo 1
A classificação incorreta pode interferir na quantidade de insulina utilizada pelo paciente. Uma pessoa com diabetes tipo 5 tratada como se tivesse tipo 1 pode receber uma dose maior do que precisa.
O excesso de insulina pode provocar hipoglicemia. Isso acontece porque a insulina facilita a entrada da glicose nas células e reduz a liberação de glicose pelo fígado.
Quando a glicemia cai de forma grave, podem surgir confusão, convulsões e perda de consciência. Em situações mais graves, também podem ocorrer coma e morte.
Por isso, identificar as características do tipo 5 pode ajudar a diferenciar a necessidade de reposição de insulina de cada paciente.
Rastreamento do tipo 5 começa pelo Norte e Nordeste
O rastreamento deve começar pelas regiões Norte e Nordeste. A escolha considera a presença de bolsões de desnutrição e insegurança alimentar nessas regiões.
A iniciativa pretende coletar dados sobre pessoas que podem apresentar características compatíveis com o tipo 5. O levantamento também deve ajudar a identificar possíveis classificações incorretas.
A estratégia busca ampliar as evidências brasileiras sobre a condição. Enquanto isso, os dados poderão contribuir para compreender melhor quem apresenta esse tipo de diabetes e quais cuidados podem ser necessários.
O que se sabe sobre o tratamento do diabetes tipo 5
Ainda existem poucas evidências sobre a remissão do diabetes tipo 5, segundo Hermelinda Pedrosa.
A médica afirma que a aplicação de insulina associada ao reajuste da alimentação pode ajudar a recuperar o controle da glicemia.
No entanto, o conhecimento sobre a condição ainda está em construção. A coleta de dados do rastreamento pretende contribuir para o desenvolvimento de novas formas de tratamento.
Diabetes tipo 5 é conhecido desde os anos 1950
Embora o tipo 5 ainda seja pouco conhecido, a condição foi identificada nos anos 1950.
O tema voltou a ser discutido no ano passado após uma reunião de especialistas realizada na Índia. A partir dessas discussões, especialistas passaram a usar de forma consensual a denominação diabetes tipo 5.
Segundo Hermelinda Pedrosa, a classificação considera as características que diferenciam essa condição das demais formas de diabetes catalogadas.