O diabetes tipo 1 faz parte da rotina de mulheres que convivem com a própria condição e também de mães que acompanham diariamente o tratamento de filhos diagnosticados. Neste Dia das Mães, relatos mostram os desafios enfrentados tanto por mães com diabetes tipo 1 quanto pelas chamadas “mães pâncreas”, que equilibram maternidade, trabalho, monitoramentos e cuidados constantes dentro de casa.
Mais do que controlar glicemias ou calcular carboidratos, essas mulheres aprendem a lidar com medo, ansiedade e a responsabilidade constante que o diabetes exige na rotina familiar.
A relação entre maternidade, autocuidado e diabetes
Entre elas está Eloisa Malieri, advogada, apresentadora do DiabetesCast e influenciadora digital diagnosticada com diabetes tipo 1 ainda na infância e que hoje se tornou referência dentro da comunidade do diabetes.
Ao longo de quase 40 anos convivendo com a condição, ela construiu uma vida ativa, formou uma família e aprendeu a equilibrar maternidade e autocuidado. Mãe de duas meninas, Eloisa também costuma falar sobre os desafios físicos e emocionais da maternidade convivendo com o diabetes tipo 1.

Durante muitos anos, ela ouviu de profissionais de saúde que talvez não pudesse engravidar por causa do diabetes tipo 1 e do hipotireoidismo de Hashimoto. Mesmo assim, decidiu buscar orientação médica para entender se a maternidade seria possível. Pouco tempo depois, descobriu que já estava grávida.
A trajetória, porém, também foi marcada por perdas. Eloisa perdeu o primeiro filho, Guilherme, com 30 semanas de gestação. Anos depois, vieram as filhas Maria Eduarda e Maria Luiza. Hoje, ela costuma dizer que é mãe de três filhos: um que “habita um plano invisível” e duas que crescem ao seu lado diariamente.

Ao falar sobre maternidade, Eloisa mostra que o diabetes nunca foi um impedimento para construir a família que sonhava, embora a jornada tenha exigido ainda mais atenção, preparo e equilíbrio emocional. Entre monitoramentos constantes, cuidados durante a gestação e a adaptação da rotina, ela aprendeu a conciliar o cuidado com a própria saúde sem deixar de viver a maternidade de forma leve.
Em entrevista ao ‘Um Diabético’, Eloisa relembrou que a forma com que os pais encararam o diagnóstico teve impacto direto na maneira como ela passou a enxergar o diabetes ao longo da vida.
“Os meus pais conseguiram me trazer uma normalidade. Hoje, como mãe, eu sei que não existia leveza. Existia uma vontade de não modificar tanto a vida”, contou.

Ela também falou sobre como muitas crianças acabam tentando esconder sentimentos para não preocupar os pais.
“Eu sabia do sofrimento dos meus pais e queria dar conta de tudo para poupá-los”, disse.
Hoje, Eloisa defende a importância de olhar para o diabetes como apenas uma parte da vida.
“Eu sou uma complexidade, uma imensidão. E dentro dessa imensidão tem um pedacinho que eu tenho que cuidar, que é a diabetes.”
Entre medo, aprendizado e acolhimento
Outra história que representa a realidade das “mães pâncreas” é a da Jéssica Falcão de Mogi Guaçu (SP) que viu a rotina da família mudar completamente após o filho Victor, hoje com 8 anos, receber o diagnóstico de diabetes tipo 1.

Mesmo convivendo com o diabetes dentro de casa, já que o marido também possui diabetes tipo 1, ela conta que receber a notícia foi um momento difícil para toda a família.
“Seguramos o choro no consultório para mostrar força pra ele, mas depois foi muito difícil.”
A partir dali, a rotina passou a incluir monitoramentos constantes, aplicações de insulina, contagem de carboidratos e noites interrompidas por alarmes de glicemia. Entre os maiores desafios estavam as madrugadas mal dormidas e a adaptação da rotina escolar.

“A rotina escolar foi a parte mais exaustiva porque eu precisava ir várias vezes ao dia na escola”, relembra.
Mesmo utilizando sensor de monitoramento contínuo, ela afirma que ainda vive em estado de alerta.
“Minha mente não descansa. Eu acordo várias vezes assustada pensando em hipoglicemia.”
Com o passar do tempo, ela também percebeu que precisava olhar para a própria saúde emocional para conseguir enfrentar a rotina de cuidados de forma mais equilibrada.
“O primeiro ano de diagnóstico eu esqueci totalmente de mim. Depois entendi que precisava estar bem para conseguir cuidar deles.”
Ela também aprendeu a respeitar o tempo do filho dentro do tratamento e a não comparar a evolução dele com a de outras crianças.
“Quando vi ele chorando e dizendo que ainda tinha medo, percebi que cada criança tem seu tempo.”
Hoje, Victor já consegue fazer as aplicações sozinho, mas ela acredita que o mais importante nessa jornada sempre foi fazer com que o filho se sentisse seguro e acolhido.
“Nesses dois anos, ele nunca reclamou da diabetes. É uma criança feliz, forte e cheia de gratidão.”

Saúde mental também faz parte do tratamento
A psicóloga e atriz Débora Gomes, mãe de uma criança com diabetes tipo 1, destaca que muitas mães vivem em estado constante de alerta e acabam deixando a própria saúde mental em segundo plano.
Segundo ela, a sobrecarga emocional faz parte da rotina de muitas famílias, principalmente por causa das madrugadas, da preocupação com hipoglicemias e da responsabilidade diária do cuidado.
“Você só cuida do outro se você se cuidar”, destacou.
Ela também reforça a importância de redes de apoio, terapia e acolhimento para famílias que convivem com o diabetes tipo 1.
Neste Dia das Mães, histórias como essas ajudam a mostrar que o cuidado vai muito além da glicemia ou da aplicação de insulina. São mães que ajudam os filhos a crescerem com mais segurança, autonomia e confiança diante do diabetes.
E, muitas vezes, é justamente esse cuidado diário, silencioso e constante que acaba deixando marcas para a vida inteira na forma como essas crianças aprendem a enfrentar desafios, se cuidar e enxergar a própria condição com mais leveza.
Produção: Estefane Moitinho | Estagiária do Um Diabético