Era véspera de réveillon quando Daniela Paris Soares percebeu que algo estava errado com o filho caçula. O Boaz, então com sete anos, pedia água desesperadamente em um restaurante no sul do Brasil e esvaziava garrafa atrás de garrafa.
A cena era a mesma que uma amiga havia descrito, anos antes, ao contar como identificou o diabetes tipo 1 no filho. Em 8 de janeiro de 2026, o diagnóstico foi confirmado: glicemia de 350 mg/dl e cetona na urina. Três meses depois, a família de São Paulo vive uma reviravolta completa e comemora: o pequeno Boaz está sem insulina.
Uma família de rotina corrida e alimentação desregrada
Daniela Paris Soares e o marido criavam os dois filhos em São Paulo com uma vida intensa: trabalho, escola, babá e, como ela mesma define, ‘alimentação bastante desregrada’. Hambúrguer, pizza, batatinha frita e chocolate faziam parte do cardápio habitual. O Boaz, o caçula, sempre foi o mais ‘gordinho’ da família, apelido carinhoso que todos reproduziam sem questionar.
Nenhum membro da família tinha histórico de diabetes tipo 1. Por isso, quando os sinais começaram a aparecer em novembro de 2025 — cansaço excessivo, lentidão, vontade constante de comer doce — a família interpretou como fase de crescimento. No entanto, os sintomas persistiam.
“Desde novembro, a gente começou a notar que o Boaz estava mais lento, muito cansado o tempo inteiro. Mas sempre com vontade de comer doce, sempre com uma vontade de comer a mais.” Daniela Paris Soares, mãe do Boaz

A virada do ano e o sinal de alerta
Na viagem de férias ao sul, durante um jantar em família, o Boaz entrou em desespero por água. Bebia uma garrafa inteira e imediatamente precisava urinar. Repetiu o ciclo diversas vezes. Foi então que Daniela se lembrou da conversa com a amiga que, três anos antes, havia descrito exatamente os mesmos sintomas antes do diagnóstico do filho dela.
Sem alarmar ninguém, ela começou a observar o filho em silêncio durante quatro dias. Nesse contexto, a cunhada, que tinha um glicosímetro em casa por conta do marido com diabetes tipo 2, propôs uma ‘brincadeira’: medir a glicemia de todos em jejum.
Como o diagnóstico foi identificado em casa
• Dia 4 de janeiro, em jejum: todos na faixa de 90 a 95 mg/dL. O Boaz marcou 120 mg/dL.
• Três dias depois: nova medição em jejum. O resultado chegou a 180 mg/dL.
• Dia 8 de janeiro: exame laboratorial solicitado pela endocrinologista Denise Franco. Glicemia: 350. Cetonúria: 500.
• Diagnóstico confirmado: diabetes tipo 1.
A médica e o início do tratamento
Por indicação da amiga, Daniela entrou em contato na mesma noite com a endocrinologista Denise Franco. O atendimento aconteceu por videochamada, ainda durante as férias, na praia. A médica orientou a realização do exame laboratorial e, com o resultado em mãos, conduziu o início do tratamento à distância.
“A doutora Denise foi um anjo que caiu na minha vida. Ela me ensinou por vídeo como colocar o sensor, como injetar a canetinha da insulina. Cuidou de mim, inclusive, do meu emocional”, lembra Daniela.
No dia seguinte, a família decidiu antecipar o retorno a São Paulo. O diagnóstico era novo demais e o medo do desconhecido era grande. A primeira semana foi a mais difícil: a mãe, de uma hora para a outra, não sabia o que dar de comer ao filho, como calcular a insulina ou como interpretar os dados do sensor.
A decisão de mudar tudo e a adesão de toda a família
O que poderia ter sido um momento de crise tornou-se, para essa família, um ponto de virada. Após dez dias do diagnóstico, Daniela fez um curso de nutrição para entender os alimentos. Em seguida, reuniu o marido, o filho mais velho de 11 anos e o Boaz para uma conversa, e assim veio a decisão coletiva: a família mudaria radicalmente a alimentação.
O que mudou na alimentação da família
• Saída definitiva de fast food, refrigerante, hambúrguer e batatinha frita do cardápio diário;
• Introdução de arroz, lentilha, ovo, frango e peixe como base das refeições;
• Inclusão de chia, linhaça e outros alimentos funcionais antes desconhecidos pela família;
• Redução de frutas com alto teor de açúcar, como banana e uva, e maior atenção às porções;
• Alimentação para todos (e não apenas para o Boaz) passou a ser baseada em comida de verdade.
Em três meses, os resultados foram além do controle glicêmico do Boaz. O menino ganhou energia e disposição para brincar e se exercitar. Atividades que, antes do diagnóstico, ele não conseguia sustentar. Além disso, a mudança feita por ele arrastou toda a família: todos emagreceram e, como Daniela conta com bom humor, ‘viraram fit’ em menos de um trimestre.
Sem insulina: o que os exames mostraram
Após o diagnóstico, o Boaz iniciou a reposição de insulina. Com o acompanhamento próximo da Dra. Denise Franco e as mudanças alimentares, as doses foram diminuindo gradualmente. Cerca de um mês depois do diagnóstico, a insulina foi suspensa.

A hipótese clínica, segundo a família, é que o pâncreas do Boaz ainda estava em fase de produção, o chamado período de lua de mel do diabetes tipo 1, em que as células beta remanescentes ainda funcionam parcialmente. Nesse contexto, com a alimentação equilibrada e a inflamação reduzida, o controle glicêmico passou a ser feito exclusivamente por sensor e dieta.
| ️ Importante entender O período sem uso de insulina no diabetes tipo 1 é chamado de ‘lua de mel’: fase em que as células beta residuais ainda produzem alguma insulina. Essa fase é individual, temporária e não significa cura. O acompanhamento médico é indispensável. Nenhuma mudança no tratamento deve ser feita sem orientação do endocrinologista responsável. O controle pela alimentação complementa, mas não substitui o protocolo médico estabelecido. |
O diagnóstico como recomeço: o olhar de quem viveu
Para a mãe do Boaz, o diagnóstico do filho revelou algo que a família não havia percebido: a necessidade de cuidar de si mesma. ‘Esse diagnóstico veio para a gente olhar para nós’, afirma Daniela. O marido e ela, com a perspectiva de quem já está numa faixa etária em que o cuidado preventivo é essencial, entenderam a mudança como um presente.
“Alguém tem que cuidar, alguém tem que mudar — e vai começar por mim. O diagnóstico do Boaz veio para a gente olhar para a nossa saúde. E mudamos radicalmente.” | Daniela Paris Soares, mãe do Boaz

Hoje, o Boaz faz exames periodicamente, usa sensor de glicose e segue as orientações da equipe médica. Antes, ele não conseguia brincar e jogar sem cansar. Agora, é uma criança alegre, ativa e cheia de energia.
A família, por sua vez, colheu junto os frutos da mudança: mais saúde, mais disposição e uma nova relação com a alimentação. Portanto, a história do Boaz é um lembrete de que, diante do diagnóstico de diabetes tipo 1 na infância, informação, rede de apoio e decisão coletiva fazem toda a diferença.