O diabetes pode transformar um pequeno machucado no pé, quase imperceptível, em uma complicação grave quando não é identificado e tratado a tempo. Especialistas explicam por que o cuidado precoce muda esse cenário: essa realidade se repete diariamente em hospitais de todo o país, e o diabetes está por trás da grande maioria dos casos.
Um recorde que preocupa: os números da amputação no Brasil
O Brasil registra hoje uma média de mais de 28 amputações de membros inferiores por dia na rede pública de saúde. O dado é do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do DATASUS, vinculado ao Ministério da Saúde. Em anos recentes, o SUS chegou a realizar entre 10 mil e 11,3 mil cirurgias desse tipo anualmente. Em 2022, foram 10.168 amputações, número 3,9% maior que o registrado em 2021 (9.781 casos).
Esse crescimento acompanha o avanço da doença no país. De acordo com a pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, 10,2% da população adulta brasileira já convive com diabetes. Nesse contexto, entender por que o pé diabético leva à cirurgia é o primeiro passo para reverter essa tendência.
Por que o pé diabético leva à amputação
Cerca de 85% das amputações não traumáticas de membros inferiores no Brasil têm o chamado “pé diabético” como origem. O dado é da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). O mecanismo, no entanto, costuma começar de forma silenciosa.
A neuropatia periférica, complicação crônica mais comum do diabetes, responde por cerca de dois terços das amputações não traumáticas. Isso acontece porque a glicemia elevada compromete a capacidade do organismo de eliminar radicais livres. Esse processo prejudica o metabolismo dos neurônios e reduz a sensibilidade nos pés. Como consequência, pequenos ferimentos passam despercebidos até evoluírem para infecções graves.
O papel da circulação: quando o problema vai além dos nervos
Além da neuropatia, a doença arterial periférica (condição que promove a redução do fluxo sanguíneo para os pés) é outro fator determinante no risco de amputação. Quando há falta de sensibilidade e deficit na circulação, o corpo perde duas das suas principais defesas contra infecções: a capacidade de perceber precocemente uma lesão e a capacidade de promover sua adequada cicatrização.
“A circulação e a sensibilidade caminham juntas no pé diabético. Quando o paciente não sente a ferida e, ao mesmo tempo, tem menos sangue chegando até ali, a cicatrização fica comprometida, e o risco de infecção aumenta rapidamente”, explica o cirurgião vascular Caio Contin.
Segundo o especialista, boa parte das amputações poderia ser evitada com uma avaliação vascular simples, feita a tempo. “O paciente muitas vezes só procura ajuda quando a ferida já está avançada”, alerta o médico.
Sinais que não podem ser ignorados
Muitos casos poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e acompanhamento regular. A partir dos 35 anos, o exame de glicemia passa a ser recomendado mesmo para quem não apresenta sintomas. O risco de diabetes tipo 2 aumenta a partir dessa faixa etária.
Alguns sinais exigem avaliação imediata, como feridas que não cicatrizam, alteração de cor ou temperatura na pele dos pés. Perda de sensibilidade ao toque ou à dor, além de bolhas, calos ou cortes que passam despercebidos, também merece atenção. Além disso, dor nas pernas ao caminhar que melhora com o repouso pode indicar claudicação vascular, e merece investigação.
Como reduzir o risco: cuidados diários e prevenção
A prevenção do pé diabético começa em casa. Inspecionar os pés diariamente, incluindo a sola e entre os dedos, ajuda a identificar alterações antes que evoluam. A hidratação também é importante, mas deve ser feita sem aplicar creme entre os dedos, já que o excesso de umidade favorece infecções fúngicas.
Cortar as unhas retas, usar calçados confortáveis e sem atrito excessivo, e evitar remover calos por conta própria são outros cuidados essenciais. O cigarro merece atenção redobrada. Segundo o médico Caio Contin, o tabagismo é o fator isolado que mais compromete a circulação nos pés.
Observar a temperatura dos pés também é uma estratégia simples de autocuidado. Se um lado estiver visivelmente mais frio que o outro, isso pode indicar má circulação e deve ser avaliado por um profissional. Para quem convive com diabetes há mais de dez anos, a recomendação é procurar um cirurgião vascular pelo menos uma vez ao ano.
Quando buscar ajuda especializada
Muitas vezes, até por falta de atendimento especializado, pacientes costumam chegar tardiamente ao hospital, quando já não há alternativa para salvar o membro. Além do impacto social e físico, a amputação traz consequências emocionais profundas, exigindo fisioterapia, uso de próteses e acompanhamento psicológico na reabilitação.
Por isso, qualquer ferida ou alteração nos pés que não melhore em poucos dias exige atendimento médico imediato. Ainda assim, o cenário não precisa ser de resignação. Com diagnóstico precoce, controle glicêmico adequado e avaliação vascular regular, a maioria dos casos de amputação por diabetes pode ser evitada.
