Guria, uma cadela da raça Australian Cattle Dog treinada por Glauco Lima para acompanhar sua mãe, ajuda a explicar uma realidade ainda pouco conhecida no Brasil: os cães de suporte para pessoas com diabetes.
Em países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, esses animais já fazem parte da rotina de muitas famílias. No Brasil, o tema ainda enfrenta desafios relacionados à regulamentação e ao reconhecimento desse trabalho.
O assunto foi discutido no podcast DiabetesCast com os treinadores Glauco Lima e Daniela Costa, que atuam na formação de cães de suporte e assistência para diferentes condições de saúde.
“Muita gente pensa que o trabalho do cão é apenas avisar sobre uma hipoglicemia. Na prática, ele acompanha a pessoa durante toda a rotina”, explicou Glauco Lima durante o DiabetesCast.
O que são os cães de suporte para pessoas com diabetes
Os cães de suporte para pessoas com diabetes passam por um treinamento específico para auxiliar seus tutores em diferentes situações do dia a dia.
Uma das funções mais conhecidas é a identificação de alterações glicêmicas por meio do olfato. Mas o trabalho não se resume aos alertas.
Segundo o treinador, esses animais acompanham seus tutores em diferentes ambientes e funcionam como mais uma camada de suporte para situações que fazem parte da rotina de quem convive com diabetes.
“O cão não substitui a tecnologia. Ele é mais uma ferramenta de segurança para a pessoa”, explicou.
Nos Estados Unidos e em diversos países da Europa, os cães de suporte já fazem parte da rotina de muitas famílias e são reconhecidos como animais de assistência em diferentes contextos.
O que os cães de suporte conseguem fazer na prática
O treinamento permite que os cães auxiliem pessoas com diabetes em diferentes momentos do cotidiano.
Entre as funções mais comuns estão:
- identificar episódios de hipoglicemia;
- identificar episódios de hiperglicemia;
- emitir alertas durante o sono;
- acompanhar atividades físicas;
- acompanhar viagens e deslocamentos;
- permanecer ao lado do tutor em ambientes públicos;
- ajudar familiares a perceber situações de risco;
- oferecer suporte emocional em momentos de estresse ou insegurança relacionados ao diabetes.
Para muitas famílias, especialmente quando há crianças com diabetes, a presença do cão representa mais uma forma de acompanhamento durante atividades diárias e períodos de descanso.
“O cão traz confiança para a pessoa realizar atividades que muitas vezes eram evitadas por medo de uma crise”, relatou Glauco.
Quem pode ter um cão de suporte para diabetes
A utilização de um cão de suporte não segue uma regra única. Segundo os especialistas, cada caso deve ser avaliado individualmente.
O treinamento leva em consideração fatores como idade da pessoa assistida, rotina diária, histórico de alterações glicêmicas, ambiente familiar e perfil comportamental do animal.
Como os cães identificam alterações na glicemia
Estudos publicados em revistas científicas mostram que cães treinados conseguem identificar alterações glicêmicas por meio de compostos orgânicos voláteis liberados pelo organismo durante episódios de hipoglicemia e hiperglicemia.
Os pesquisadores destacam que os animais não substituem sensores, monitorização contínua da glicose ou acompanhamento médico, mas podem atuar como uma ferramenta complementar de suporte para algumas pessoas com diabetes.
Entre eles está o isopreno, substância associada à queda da glicose no sangue. Os cães também podem identificar odores relacionados à produção de corpos cetônicos em situações de hiperglicemia.
Durante o podcast, Glauco explicou que alguns cães conseguem alertar seus tutores antes mesmo que sensores e dispositivos emitem notificações.
Durante o treinamento, o animal aprende a associar esses odores a recompensas. Com o tempo, passa a realizar comportamentos específicos para chamar a atenção da pessoa.
O alerta pode ocorrer por meio de lambidas, toque com a pata, aproximação insistente ou busca de objetos previamente definidos durante o treinamento.
Glauco explicou que os cães utilizam informações presentes no suor e no hálito para reconhecer mudanças no organismo da pessoa acompanhada.
Como funciona o treinamento dos cães de suporte
Nem todos os cães podem desempenhar essa função. De acordo com Glauco Lima, o processo de seleção começa ainda nos primeiros meses de vida. Os treinadores avaliam características ligadas ao olfato, à capacidade de aprendizado, ao interesse por brincadeiras e à adaptação a diferentes ambientes.
Os filhotes passam por testes para avaliar comportamento, persistência e capacidade de rastreamento de odores. Após a seleção, inicia-se o processo conhecido como imprinting olfativo. Nessa etapa, o cão aprende a reconhecer amostras coletadas durante episódios de hipoglicemia e hiperglicemia do futuro tutor.
Durante a entrevista, Glauco explicou que a coleta das amostras utilizadas no treinamento segue protocolos específicos para evitar contaminações. Segundo ele, fatores como alimentação recente, armazenamento inadequado ou coleta incorreta podem interferir na qualidade do odor utilizado durante o condicionamento do cão.
O treinamento inclui obediência básica, socialização em locais públicos, exposição a diferentes ambientes e aprendizado dos comportamentos de alerta.
O processo completo de formação pode levar cerca de dois anos. Nesse período, o cão passa por etapas de seleção, socialização, treinamento olfativo e adaptação à rotina da pessoa que será acompanhada.
“O vínculo faz toda a diferença no resultado do treinamento”, destacou Glauco.
Por que ainda é difícil encontrar cães de suporte para pessoas com diabetes no Brasil
Apesar do crescimento desse trabalho em outros países, o número de cães de suporte para pessoas com diabetes ainda é reduzido no Brasil. Segundo Glauco Lima, a falta de legislação específica representa um dos principais obstáculos.
Diferentemente do que acontece em países como Estados Unidos e Reino Unido, o Brasil não possui um sistema nacional de certificação para cães de suporte voltados ao diabetes.
Também não existem protocolos amplamente conhecidos para orientar estabelecimentos, empresas e órgãos públicos sobre a presença desses animais.
Outro desafio citado pelos especialistas envolve o reconhecimento dessa necessidade em diferentes ambientes. Sem uma regulamentação específica e sem um documento nacional que identifique a necessidade desse tipo de assistência, pessoas acompanhadas por cães de suporte ainda podem enfrentar questionamentos e dificuldades de acesso em alguns locais.
Para o treinador, essa realidade contrasta com países onde existem sistemas de identificação, certificação e protocolos voltados aos cães de serviço.
“A sociedade brasileira ainda não está preparada para entender o papel de um cão de serviço”, afirmou Glauco.
Quem é Glauco Lima
Glauco Lima atua há mais de 37 anos com comportamento e treinamento canino e soma cerca de 1.800 cães treinados ao longo da carreira.
Seu trabalho envolve diferentes modalidades de assistência, incluindo cães voltados para pessoas com autismo, condições psiquiátricas e diabetes.
Um dos casos mais conhecidos envolve Guria, uma cadela da raça Australian Cattle Dog treinada para acompanhar sua mãe, que convive com diabetes.
Como saber mais sobre cães de suporte para pessoas com diabetes
Quem deseja conhecer mais sobre o treinamento e o trabalho realizado com cães de suporte pode acompanhar os conteúdos produzidos por Glauco Lima e sua equipe por meio dos canais oficiais.
Segundo os especialistas, o treinamento de um cão de suporte envolve técnicas específicas de coleta de amostras, condicionamento olfativo, socialização e adaptação a diferentes ambientes. Por isso, o processo deve ser conduzido por profissionais capacitados.
Glauco Lima também compartilha conteúdos sobre comportamento canino, cães de assistência e treinamento especializado em seu canal no YouTube, “Glauco Lima Treinador”.
Canal no YouTube: Glauco Lima Treinador
Instagram: @daniadestramento
Guria continua acompanhando a mãe de Glauco Lima em sua rotina diária. O trabalho da cadela ajuda a mostrar como os cães de suporte podem atuar ao lado da tecnologia e do acompanhamento em diabetes, oferecendo mais uma camada de apoio para pessoas e famílias que convivem com a condição.