Quem convive com diabetes sabe que manter a glicose controlada vai além dos números exibidos no sensor ou no glicosímetro. Quando a hiperglicemia permanece por muito tempo, diferentes órgãos podem sofrer impactos silenciosos. Entre eles estão os rins, que podem perder função progressivamente antes mesmo do aparecimento de sintomas.
Nesse contexto, pesquisadores brasileiros identificaram um possível aliado natural na proteção renal: o L-sulforafano, composto presente no brócolis e em outros vegetais crucíferos. O estudo mostrou que a substância conseguiu reativar mecanismos de defesa antioxidante das células renais e reduzir danos provocados pelo excesso de açúcar no sangue.
A pesquisa foi desenvolvida em parceria entre a Universidade Federal de Jataí (UFJ) e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Nefropatia diabética pode evoluir sem sintomas
A nefropatia diabética é uma das principais causas de doença renal crônica e falência renal no mundo. O quadro acontece quando níveis elevados de glicose causam lesões progressivas nos rins.
Segundo a Profa. Dra. Rita de Cássia Aleixo Tostes Passaglia, do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP, o problema costuma avançar silenciosamente.
“O diabetes mellitus é uma das principais causas de doença renal crônica e falência renal terminal em todo o mundo, e a hiperglicemia é o sintoma principal do diabetes. Quando os sintomas aparecem, a doença já pode estar em um estágio avançado. Uma vez estabelecida, ela é progressiva e pode levar à necessidade de diálise ou transplante”, explica a pesquisadora.
Além disso, a especialista destaca que a doença renal diabética frequentemente está associada à hipertensão arterial. Nesse cenário, o comprometimento dos rins também pode agravar alterações cardiovasculares, criando um ciclo contínuo de danos ao organismo.
Como o excesso de açúcar afeta os rins
Os pesquisadores avaliaram como a hiperglicemia interfere nas defesas naturais das células renais. Entre os mecanismos observados, o estresse oxidativo apareceu como um dos principais fatores envolvidos na lesão renal.
Em condições normais, o organismo produz enzimas antioxidantes capazes de neutralizar radicais livres. No entanto, quando a glicose permanece elevada por longos períodos, esse sistema passa a funcionar de forma insuficiente.
Nesse processo, uma proteína chamada Nrf2 exerce papel importante. Ela atua como reguladora da defesa antioxidante celular. Para funcionar corretamente, o Nrf2 precisa migrar para o núcleo das células e ativar genes responsáveis pela produção de enzimas protetoras.
Por outro lado, os experimentos mostraram que a hiperglicemia impede essa migração em pessoas com diabetes. Como consequência, as células renais ficam mais vulneráveis ao dano oxidativo.
Os pesquisadores também identificaram outro mecanismo relevante. O excesso de açúcar aumentou um processo chamado O-GlcNAcilação, que modifica quimicamente o Nrf2 e reduz ainda mais sua atividade. Portanto, a hiperglicemia não apenas aumenta a produção de radicais livres, mas também enfraquece o sistema de proteção das células.
Sulforafano presente no brócolis reduziu danos renais
Foi nesse ponto que o L-sulforafano passou a ser analisado. O professor Rafael Menezes da Costa, da UFJ, conduziu os experimentos durante um estudo de pós-doutorado realizado na FMRP-USP.
Os pesquisadores utilizaram ratos alimentados com dieta rica em açúcar durante 12 semanas. Segundo os cientistas, esse modelo reproduz alterações metabólicas semelhantes às observadas em pessoas com diabetes.
Nas últimas quatro semanas do experimento, o L-sulforafano foi administrado para avaliar se a ativação da via Nrf2 conseguiria reduzir os danos nos rins.
Os resultados mostraram que o composto reativou o Nrf2, permitindo que o fator antioxidante retornasse ao núcleo celular. Com isso, houve retomada da produção de enzimas protetoras.
Além disso, os pesquisadores observaram redução dos radicais livres e da oxidação de proteínas. Alterações estruturais nos rins também diminuíram, incluindo acúmulo de colágeno, dilatação dos túbulos renais e sinais iniciais de fibrose.
O estudo ainda identificou melhora em parâmetros funcionais importantes. A creatinina sérica apresentou redução, enquanto a taxa de filtração glomerular teve recuperação parcial. Esses dados indicam melhora na capacidade dos rins de filtrar o sangue.
Segundo Rafael Menezes da Costa, esse mecanismo pode ajudar a explicar uma situação observada na prática clínica. Muitos pacientes desenvolvem insuficiência renal mesmo após melhora parcial da glicemia. Isso ocorre porque o sistema antioxidante pode continuar comprometido mesmo diante de algum controle glicêmico.
O que os resultados significam para quem vive com diabetes
Os pesquisadores reforçam que os dados ainda pertencem à fase experimental. Até o momento, os resultados foram observados apenas em modelo animal.
Agora, os próximos passos incluem avaliar se o mesmo mecanismo também acontece em humanos.
“Queremos entender se o mesmo mecanismo observado em modelos experimentais também ocorre em pacientes diabéticos, e se compostos naturais poderiam produzir os mesmos efeitos benéficos”, afirma a Profa. Dra. Rita de Cássia Aleixo Tostes Passaglia.
Nesse contexto, o L-sulforafano poderá ser investigado futuramente como terapia complementar para prevenção da nefropatia diabética. No entanto, os pesquisadores destacam que essa possibilidade ainda depende de estudos clínicos em humanos.
O que pode ser feito na rotina agora
Embora o estudo ainda esteja em fase experimental, os pesquisadores apontam medidas que já fazem parte do cuidado renal em pessoas com diabetes.
Entre elas estão:
- incluir regularmente alimentos como brócolis, couve, repolho e couve-flor na alimentação de quem tem diabetes;
- manter o controle glicêmico para reduzir os impactos da hiperglicemia crônica;
- realizar exames periódicos de função renal;
- conversar com o endocrinologista sobre rastreamento de nefropatia diabética e proteção dos rins.
Além disso, os especialistas reforçam que a doença renal diabética costuma começar sem sintomas. Portanto, exames preventivos seguem sendo parte importante do acompanhamento do diabetes.
