Aos 7 anos, Karol recebeu o diagnóstico de diabetes e desde então, foram 36 anos de uma trajetória importante.
Marcada por momentos de revolta, mudanças na forma de lidar com a doença, complicações e uma amputação.
Hoje, ela olha para essa história de outra maneira: reconhece as dificuldades que enfrentou, mas também os aprendizados, as relações que construiu e a qualidade de vida que conquistou ao assumir o cuidado com a própria saúde.
A primeira dose de insulina foi aplicada em 7 de julho de 1990. Na infância, Karol ainda não compreendia completamente o que significava viver com diabetes. Ao longo da adolescência e da vida adulta, a relação com a doença se tornou mais difícil. A transformação começou anos depois, quando ela decidiu buscar conhecimento, tratamento e uma nova maneira de enxergar a própria saúde.
Foi preciso tempo para Karol entender o próprio diabetes
Karol conta que era muito pequena quando descobriu o diabetes e que só conseguiu compreender melhor o que estava acontecendo alguns meses depois. Ao longo dos anos, passou por períodos de revolta e dificuldade para lidar com a doença.
Em determinados momentos, chegou a interromper o uso da insulina depois de ser influenciada por pessoas que acreditavam que ela havia sido curada. Era algo que Karol desejava muito e, naquele período, ela não tinha clareza sobre os riscos envolvidos.
“Até 2016 eu não tive um bom relacionamento” com o diabetes, conta.
A mudança começou em 2017, quando Karol se converteu ao budismo. A partir dos ensinamentos que recebeu, passou a compreender que precisava cuidar da própria saúde para continuar realizando aquilo que considerava sua missão: ajudar outras pessoas.
A mudança começou quando ela decidiu assumir o próprio cuidado
Para Karol, cuidar da saúde passou a ser uma condição para seguir em frente e também para poder contribuir com outras pessoas.
Ela começou a buscar conhecimento, procurar melhores tratamentos e contou com a ajuda de uma educadora para aprender mais sobre o cuidado com o diabetes. Também passou por um processo de aceitação da própria condição.
Foi nesse período que construiu uma nova relação com a doença e passou a entender que precisava assumir o controle do próprio cuidado.
“Eu sabia que a conta ia chegar. E chegou”
Depois de anos de convivência com o diabetes, Karol começou a enfrentar complicações. A primeira foi a neuropatia diabética, identificada há cerca de dez anos.
Ela conta que, apesar de a neuropatia estar avançada, hoje utiliza medicamentos que, segundo ela, ajudam a controlar a condição e a viver melhor.
Depois veio a retinopatia, descoberta pouco antes da pandemia. O tratamento foi doloroso, segundo Karol, mas ela sabia que precisava realizá-lo para preservar a visão.
“Por mais doloroso que fosse, eu acreditava que tudo no final daria certo.”
A experiência reforçou para Karol a importância de buscar acompanhamento, tratamento e informação para cuidar da própria saúde.
A amputação mudou a rotina, mas também trouxe qualidade de vida
Karol faz questão de esclarecer que a amputação não aconteceu como uma decorrência direta do diabetes. Depois de um período difícil, ela desenvolveu o chamado pé de Charcot.
A neuropatia também esteve envolvida nesse processo. Segundo o relato de Karol, a perda de sensibilidade e dos reflexos dificultava perceber lesões. O médico que a acompanhou em São Paulo acredita que ela provavelmente fraturou o pé e, ao continuar andando, o membro foi sofrendo novas lesões.
Diante da evolução do quadro, Karol precisou passar pela amputação.
A decisão não foi simples, mas ela já havia refletido sobre essa possibilidade. Para Karol, preservar a saúde e recuperar qualidade de vida também significavam aceitar que, se fosse necessário, precisaria tomar aquela decisão.
“Se algum dia eu viesse a precisar amputar, porque eu tenho a minha missão, que é ajudar as outras pessoas com diabetes”, afirma.
Ela resume o significado daquela escolha de uma maneira diferente da que muitas pessoas poderiam imaginar:
“Amputar o meu pé era ganhar uma qualidade de vida imensa, muito grande mesmo.”
Entre medo e alívio, Karol precisou aprender uma nova forma de viver
A amputação trouxe sentimentos diferentes. Karol conta que sentiu medo de não saber como seria a vida sem um pé, mas também experimentou alívio diante da possibilidade de ter mais qualidade de vida.
A adaptação aconteceu com mudanças práticas. Em casa, instalou barras de segurança no banheiro e reorganizou alguns móveis para tornar os espaços mais confortáveis.
Hoje, utiliza uma prótese. Quando está sem ela, precisa usar uma cadeira de rodas.
Fora de casa, porém, a adaptação ainda envolve desafios. Karol chama atenção para a falta de acessibilidade em diferentes espaços, como calçadas inadequadas e guias que dificultam a circulação.
Mesmo assim, ela procura encontrar caminhos possíveis para continuar realizando suas atividades.
Fé, amigos e família ajudaram Karol a seguir
Durante os momentos mais difíceis, Karol encontrou apoio na fé, nos irmãos e nos amigos.
Ela conta que, durante a pandemia, quando os encontros presenciais estavam limitados, continuou recebendo mensagens de incentivo e conforto. A espiritualidade também passou a fazer parte da rotina, e ela afirma que faz diariamente o daimoku.
A convivência com outras pessoas que vivem com diabetes também ganhou importância. Karol passou a conhecer pessoas que antes acompanhava apenas pelas redes sociais e encontrou uma rede de apoio formada por outras pessoas que compreendem os desafios da doença.
“Eu nunca desisti de nada”, afirma.
“Eu ganhei vida”
Quando olha para os 36 anos de convivência com o diabetes, Karol diz que teve mais ganhos do que perdas.
Entre eles, cita a sabedoria, a qualidade de vida e a consciência sobre a importância de cuidar da própria saúde. A terapia também passou a fazer parte desse processo de cuidado.
O diabetes ainda a levou ao ativismo político e possibilitou que conhecesse outras pessoas que vivem com a doença, inclusive amigos que hoje fazem parte de sua vida.
“Eu ganhei vida. Eu tenho qualidade de vida. Eu tenho a consciência de como é me cuidar.”
A experiência também mudou a forma como Karol encara as informações que recebe. Hoje, ela afirma ter mais consciência para avaliar tratamentos e não se deixar convencer por pessoas ou propostas que possam prejudicar seu cuidado.
A história, para ela, não é apenas sobre aquilo que perdeu ao longo dos anos. É também sobre as pessoas que conheceu, os aprendizados que acumulou e a autonomia que construiu.
A mensagem de Karol para quem vive com diabetes
Depois de tudo o que viveu, Karol acredita que cada pessoa precisa ter seu próprio tempo para aceitar o diagnóstico e aprender a conviver com ele.
Ela reconhece que a revolta pode fazer parte desse processo. Ao mesmo tempo, reforça que o cuidado precisa fazer parte da rotina.
Em uma conversa com uma mulher que enfrentava dificuldades relacionadas à visão e precisava de uma prótese para o banho, Karol ouviu que era injusto ter que tomar banho sentada pelo resto da vida. A resposta veio a partir da própria experiência e da maneira como aprendeu a olhar para as dificuldades.
Para Karol, diferentes situações podem ser vistas por mais de um ângulo. Isso não significa ignorar a dor ou as limitações, mas reconhecer que cada pessoa tem seu próprio tempo para lidar com aquilo que está vivendo.
“Cada um tem o seu tempo, o seu tempo de aceitação, o seu tempo para tudo.”
Por isso, sua mensagem para quem recebeu o diagnóstico recentemente ou enfrenta dificuldades para aceitar o diabetes é também um convite ao cuidado.
“As complicações, elas são reais. E se vocês se cuidarem, quem vai ganhar é somente vocês.”
Aos 36 anos do diagnóstico, Karol segue construindo sua história a partir do que aprendeu. O diabetes faz parte da trajetória, mas não define tudo o que ela ainda pretende viver.
