Independência de insulina é um dos objetivos mais perseguidos por pesquisadores que estudam o diabetes tipo 1. Afinal, a possibilidade de o organismo voltar a produzir insulina suficiente para controlar a glicose poderia transformar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Durante as 86ª Sessões Científicas da Associação Americana de Diabetes (ADA 2026), realizadas entre os dias 5 e 9 de junho, pesquisadores da Universidade de Chicago apresentaram uma atualização de um estudo que vem sendo acompanhado de perto pela comunidade científica. Os novos dados mostram que pacientes com diabetes tipo 1 continuam sem precisar de insulina por até 22 meses após receberem um transplante de ilhotas pancreáticas.
Mais do que a interrupção do uso de insulina, os resultados indicam que os participantes mantiveram controle glicêmico adequado, não apresentaram episódios graves de hipoglicemia e seguiram sem sinais de rejeição das células transplantadas.
O estudo foi conduzido pela UChicago Medicine e avaliou 12 adultos com diabetes tipo 1 de longa duração submetidos ao transplante alogênico de ilhotas pancreáticas. Os participantes receberam um esquema de imunossupressão baseado no tegoprubart, medicamento experimental desenvolvido para ajudar a proteger as células transplantadas contra a rejeição pelo sistema imunológico.
O que aconteceu com os pacientes após o transplante
Segundo os dados apresentados na ADA 2026, todos os 12 participantes alcançaram independência de insulina.
Na prática, isso significa que deixaram de precisar de aplicações externas de insulina para controlar os níveis de glicose no sangue.
Além disso, todos apresentaram hemoglobina glicada (HbA1c) abaixo de 6,5%, limite utilizado para o diagnóstico do diabetes. A média mais recente observada pelos pesquisadores foi de aproximadamente 5,4%, enquanto antes do transplante a média era de cerca de 8%.
Os pesquisadores também observaram melhora rápida do controle glicêmico após o procedimento e estabilidade da função das células transplantadas ao longo do acompanhamento.
O tempo mediano de seguimento foi de oito meses. No entanto, alguns participantes já acumulam até 22 meses de acompanhamento, o equivalente a quase dois anos, mantendo a capacidade de produzir insulina.
Por que esses resultados chamaram atenção
O transplante de ilhotas pancreáticas não é uma novidade. O grande desafio sempre foi garantir que as células transplantadas continuassem funcionando por longos períodos.
Isso acontece porque o sistema imunológico tende a reconhecer as células transplantadas como algo estranho e tentar destruí-las.
Por esse motivo, pessoas submetidas a esse tipo de procedimento precisam utilizar medicamentos imunossupressores para evitar a rejeição.
Nesse contexto, o dado mais relevante da atualização apresentada na ADA 2026 talvez seja justamente a durabilidade dos resultados.
Além da independência de insulina, os pesquisadores relataram ausência de rejeição do enxerto em todos os participantes avaliados.
Nenhum paciente desenvolveu anticorpos HLA específicos contra o doador, um marcador frequentemente associado ao risco de rejeição imunológica.
Ausência de hipoglicemias graves reforça o potencial da estratégia
Outro resultado que chamou atenção dos especialistas envolve as hipoglicemias graves.
Antes do transplante, todos os participantes apresentavam histórico de episódios graves e recorrentes de hipoglicemia.
Essa é uma das complicações mais temidas do diabetes tipo 1 porque pode provocar perda de consciência, convulsões, acidentes e necessidade de atendimento médico de emergência.
Após o transplante, nenhum episódio grave de hipoglicemia foi registrado.
Para os pesquisadores, esse resultado é particularmente relevante porque sugere não apenas melhora laboratorial, mas também potencial impacto na segurança e na qualidade de vida dos participantes.
O que é o tegoprubart e por que ele é diferente
Os participantes receberam um regime imunossupressor baseado no tegoprubart, um anticorpo monoclonal experimental desenvolvido pela Eledon Pharmaceuticals.
O medicamento atua bloqueando uma proteína chamada CD40L, envolvida na ativação da resposta imunológica.
O objetivo é proteger as células transplantadas sem a necessidade dos tradicionais inibidores de calcineurina, como o tacrolimo.
Embora esses medicamentos sejam amplamente utilizados em transplantes, eles podem estar associados a efeitos adversos importantes, incluindo toxicidade renal, hipertensão arterial, alterações neurológicas e até danos às próprias células produtoras de insulina.
Segundo os dados apresentados na ADA 2026, não foram observados sinais de nefrotoxicidade, hipertensão ou neurotoxicidade normalmente associados aos esquemas convencionais baseados em tacrolimo.
Além disso, os pesquisadores observaram níveis mais elevados de enxertia das células transplantadas quando comparados a pacientes históricos tratados com regimes tradicionais na própria Universidade de Chicago.
Isso significa uma cura para o diabetes tipo 1?
Ainda não. Embora os resultados sejam considerados promissores, os participantes continuam utilizando imunossupressão para evitar a rejeição das células transplantadas.
Além disso, o estudo avaliou apenas 12 pessoas e foi realizado em um único centro de pesquisa.
Outro desafio é que o transplante de ilhotas ainda depende de células obtidas de doadores de órgãos, um recurso limitado.
Por isso, especialistas consideram os resultados um passo importante em direção a uma possível cura funcional, mas não uma cura definitiva para o diabetes tipo 1.
Ainda assim, o estudo reforça o avanço das pesquisas que buscam restaurar a produção de insulina e reduzir a carga diária da doença.
O que vem pela frente
Embora os resultados sejam considerados promissores, especialistas lembram que o estudo ainda é pequeno e envolveu apenas 12 participantes.
Além disso, os pacientes continuam utilizando medicamentos para evitar a rejeição das células transplantadas e o procedimento ainda depende de ilhotas obtidas de doadores de órgãos.
Por esse motivo, os dados apresentados na ADA 2026 não representam uma cura para o diabetes tipo 1.
Ainda assim, os resultados ajudam a responder uma das perguntas mais importantes dessa área de pesquisa: por quanto tempo as células transplantadas conseguem continuar funcionando dentro do organismo.
No estudo apresentado pela Universidade de Chicago, alguns participantes já acumulam quase dois anos de acompanhamento mantendo a produção de insulina, sem episódios graves de hipoglicemia e sem sinais de rejeição.
Os próximos passos serão acompanhar esses pacientes por períodos ainda mais longos e confirmar os resultados em estudos maiores.
Resultados apresentados na ADA 2026 também repercutiram no mercado financeiro
A relevância dos dados ultrapassou a comunidade científica.
Após a apresentação dos resultados durante as 86ª Sessões Científicas da Associação Americana de Diabetes, as ações da Eledon Pharmaceuticals, empresa que desenvolve o tegoprubart utilizado no estudo, registraram forte valorização nas negociações pré-abertura da Nasdaq.
A reação dos investidores ocorreu após a divulgação de que todos os 12 participantes alcançaram independência de insulina, mantiveram hemoglobina glicada abaixo de 6,5%, não apresentaram episódios graves de hipoglicemia e seguiram sem sinais de rejeição durante um acompanhamento que chegou a 22 meses.
Na prática, o mercado enxergou potencial para que a tecnologia seja utilizada futuramente não apenas em transplantes de ilhotas para diabetes tipo 1, mas também em outras áreas da medicina de transplantes.
Para as pessoas que vivem com diabetes, porém, o dado mais importante continua sendo o avanço científico. Embora ainda existam desafios importantes antes que esse tipo de terapia se torne amplamente disponível, os resultados apresentados na ADA 2026 mostram que a busca por tratamentos capazes de restaurar a produção de insulina continua avançando.