Furar o dedo de três a quatro vezes por dia, ou mais, faz parte da rotina de muitas pessoas que convivem com diabetes. Mas em algumas cidades do Brasil, essa realidade está mudando. Por meio de programas municipais, crianças, gestantes e adultos passaram a receber gratuitamente o sensor de glicose FreeStyle Libre, um dispositivo de monitoramento contínuo da glicose que elimina a necessidade de punção com agulha a cada verificação.
As cidades de Nova Friburgo (RJ), Uberaba (MG), Atibaia (SP) e Ilhabela (SP) são exemplos de iniciativas locais que têm transformado o cuidado com o diabetes. A equipe do canal Todos pelo Diabetes visitou cada uma delas e registrou histórias de pacientes, famílias e profissionais de saúde que vivenciaram essa mudança de perto.
O que é o sensor de glicose FreeStyle Libre e por que ele importa
O FreeStyle Libre, da empresa de saúde global Abbott, é um sistema de monitoramento contínuo da glicose que utiliza um pequeno sensor fixado ao braço. Por meio de um aplicativo ou leitor, o usuário verifica sua glicemia a qualquer momento, sem precisar furar o dedo. O dispositivo fornece dados em tempo real sobre a variação da glicose, além de alertas para episódios de hipoglicemia e hiperglicemia.
Para pessoas com diabetes tipo 1, que dependem de insulina e precisam monitorar a glicemia com frequência, a tecnologia representa um avanço significativo em termos de conforto, segurança e autonomia. Para crianças pequenas e seus familiares, o benefício é ainda mais direto: menos dor, mais tranquilidade e mais dados para decisões de tratamento.
Nova Friburgo (RJ): quando a lei municipal abre portas
Na região serrana do Rio de Janeiro, Nova Friburgo foi uma das pioneiras ao transformar a distribuição do FreeStyle Libre em lei municipal. Desde novembro de 2023, a prefeitura disponibiliza o sensor pelo sistema público de saúde para aproximadamente 60 crianças e adolescentes entre 4 e 19 anos, todos com diabetes tipo 1 cadastrados na unidade de referência do município.
“Desde o momento em que o paciente começa a usar o sensor, ele passa a aplicar a insulina de uma forma mais adequada.” Dra. Thais Lengruber, médica endocrinologista | Nova Friburgo (RJ)
Luís Daniel, 11 anos, participa do programa desde o início. Ele convive com diabetes tipo 1 desde o 1 ano e meio. O diagnóstico veio durante um Réveillon na praia, quando sede excessiva, urina em grande volume e assaduras que não cicatrizavam levaram a família ao hospital. Recentemente, ele recebeu também o diagnóstico de autismo nível 1.
Antes do sensor de glicose, a rotina era cansativa. A mãe furava os dedos das mãos e dos pés do filho várias vezes ao dia e, mesmo assim, Luís enfrentou uma convulsão por hipoglicemia severa, com glicemia de 26 mg/dL. Na vida escolar, ele só conseguiu entrar na creche aos 5 anos, porque muitas instituições se recusavam a medir a glicemia ou aplicar insulina. A mãe precisou abandonar o emprego para cuidar do filho integralmente.
Com o sensor, os episódios graves diminuíram, o monitoramento passou a ser contínuo e Luís ganhou mais autonomia. A família, mais tranquilidade.
A médica endocrinologista responsável pelo acompanhamento dos pacientes na cidade destaca ainda o impacto do programa na rede de saúde como um todo. Para a gestora da atenção básica do município, Alexandra Rodrigues Barbosa, o raciocínio é direto: investir na atenção primária reduz gastos com hospitalizações.
Uberaba (MG): foco na criança e na família
Em Uberaba, o programa de distribuição do FreeStyle Libre nasceu da mobilização de famílias e do apoio da Câmara de Vereadores, e hoje é gerido pelo Centro Municipal de Diabetes e Hipertensão. Inicialmente voltado a crianças de 4 a 11 anos com diabetes tipo 1, o programa oferece acompanhamento mensal multidisciplinar no Hiperdia Infantil, com consultas de endocrinopediatra e nutricionista, e foi ampliado para gestantes.
Samuel, que convive com diabetes tipo 1 desde 2022, começou a usar o sensor em março de 2025. A mãe dele define bem o impacto do monitoramento contínuo: o sensor reduz as dores nos dedos das crianças, um alívio para as mães que assumem o papel de “mãe pâncreas”, e convivem com a angústia de ver os filhos sendo picados a todo momento.
Outro caso registrado pela equipe do Todos pelo Diabetes em Uberaba é o de Ricardo, 7 anos, que convive com diabetes tipo 1 e transtorno do espectro autista, além de dieta seletiva. Para ele, o sensor ajuda a organizar melhor as refeições e a reduzir os episódios de hipo e hiperglicemia. Com as informações do dispositivo, os pais conseguem acompanhar e intervir com mais precisão, e descansar com mais tranquilidade.
Atibaia (SP): crescimento constante e zero internações
Em Atibaia, o programa foi implantado oficialmente em 10 de janeiro de 2023, com cerca de 60 pacientes. Hoje são 80 pessoas monitorando sua glicemia pelo FreeStyle Libre, e a previsão é chegar a 120, entre crianças e gestantes, ainda este ano.
Um dos dados mais expressivos do programa, segundo a farmacêutica Lucila Martino Ribeiro, responsável pela implantação e ela própria diabética, é que desde o início do projeto nenhum paciente precisou de internação. Para ela, o crescimento do número de participantes também é um sinal positivo: indica que o diagnóstico está sendo feito e a doença tratada antes de complicações graves.
Atibaia já distribui o FreeStyle Libre 2, uma versão mais moderna do sensor que, além do escaneamento, emite alarmes automáticos de alerta para variações de glicose. O avanço é especialmente relevante para crianças menores, já que o alarme avisa os pais mesmo durante o sono, sem depender do escaneamento.
Maria Eduarda, 13 anos, começou a usar o sensor logo no início do diagnóstico, há 4 anos, mas o acesso era irregular por causa do custo. Com o programa da prefeitura, o uso se tornou contínuo. Sua mãe, Daniele, conta que hoje, enquanto a filha está na escola, o aplicativo no celular dá alertas em tempo real — o que permitiu evitar um episódio de desmaio por hipoglicemia quando ela recebeu o aviso e acionou a equipe escolar a tempo.
“Antes, os pais não sabiam o que era dormir uma noite inteira. Com o sensor, o monitoramento é feito com precisão e à distância.” Daniele Nogueira, mãe de Maria Eduarda | Atibaia (SP)
Ilhabela (SP): do diabetes tipo 1 ao tipo 2, sem limite de idade
Em Ilhabela, o programa foi lançado em dezembro de 2024 com foco inicial em pacientes com diabetes tipo 1 de até 29 anos. Em seis meses de operação, o alcance foi ampliado: hoje, todos os pacientes com DM1 do município são atendidos, sem limite de idade, e o programa passou a incluir também pacientes com diabetes tipo 2 insulinodependentes, descompensados ou de difícil controle, conforme indicação da equipe da Estratégia de Saúde da Família.
O acompanhamento é realizado por médicos de família e comunidade em conjunto com o endocrinologista, que monitoram os dados dos pacientes diretamente na plataforma do sensor. Ao todo, cerca de 90 pacientes já foram atendidos desde o início. Destes, 80 seguem no programa ativamente.
Um exemplo é Antônio Paulo, 35 anos, agente de administração pública e ciclista, que usa o sensor desde dezembro de 2024. Diagnosticado com diabetes tipo 1 em 1998, ele conta que o monitoramento contínuo eliminou o medo que sentia de hipoglicemia noturna. Agora consegue acompanhar as variações durante os exercícios e ajustar a glicose em tempo real, algo impossível com a ponta do dedo.
“Às vezes você come e acha que vai dar hiperglicemia, mas acontece o contrário. Eu tinha medo de hipoglicemia noturna e hoje fico tranquilo.” Antônio Paulo Vasconcelos Marcelino, paciente com DM1 | Ilhabela (SP)
Um panorama das cidades
A tabela abaixo resume os programas visitados pela equipe do Todos pelo Diabetes:
| Cidade | Estado | Ano de início | Público atendido | Sensor distribuído |
| Nova Friburgo | RJ | Nov. 2023 | Crianças e adolescentes 4–19 anos (DM1) | FreeStyle Libre |
| Uberaba | MG | 2024 | Crianças 4–11 anos (DM1); gestantes | FreeStyle Libre |
| Atibaia | SP | 2023 (jan.) | Crianças e gestantes (a partir de 2 anos) | FreeStyle Libre 2 |
| Ilhabela | SP | Dez. 2024 | DM1 (todas as idades); DM2 descompensados | FreeStyle Libre |
O que esses programas têm em comum
Apesar de contextos e trajetórias diferentes, as quatro cidades compartilham alguns elementos que parecem centrais para o sucesso das iniciativas: a mobilização de famílias e da sociedade civil como ponto de partida; o envolvimento de profissionais de saúde comprometidos; a integração do monitoramento com o acompanhamento clínico regular; e a visão de que a tecnologia é um meio para melhorar a qualidade de vida, não um fim em si mesmo.
Para as famílias, o ganho mais imediato é a redução da dor e do estresse associado à ponta do dedo. Para os profissionais de saúde, é a disponibilidade de dados contínuos que permitem ajustes mais precisos no tratamento. E para os sistemas municipais de saúde, os resultados apontam para algo que a farmacêutica de Atibaia resumiu bem: quando se investe em prevenção e monitoramento, as internações diminuem.
O que você pode fazer se mora em um município sem programa
• Procure a Secretaria Municipal de Saúde e pergunte se há iniciativa em andamento ou em planejamento.
• Grupos de pacientes e associações de diabetes têm histórico de mobilização
• Converse com seu endocrinologista sobre as opções disponíveis no seu tratamento.