O diagnóstico do diabetes frequentemente traz consigo uma avalanche de dúvidas, especialmente sobre o que comer. Muitas pessoas que recebem a notícia sentem medo da comida, acreditando que precisarão de uma dieta restritiva e sem sabor. No entanto, desvendar os mitos da alimentação no diabetes é o primeiro passo para uma relação saudável com a comida.
Para esclarecer esse tema, o jornalista Tom Bueno recebeu a nutricionista Tarcila Campos, educadora em diabetes e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em mais um episódio do DiabetesCast. Juntos, eles discutiram se quem tem diabetes realmente precisa consumir apenas produtos diet.
Por que a comida impacta a glicose?
A confusão começa na relação entre “açúcar” e “glicose”. A nutricionista Tarcila Campos explica que comemos para obter energia. Praticamente tudo que ingerimos passa por um processo de digestão e influencia a glicose (o açúcar do sangue). Para que essa glicose vire energia dentro das células, o corpo precisa da insulina.
“Quando vem essa alteração no exame, o que acontece é [que] esse hormônio insulina, ou ele deixou de ser produzido, ou ele está com alguma dificuldade de funcionar”, esclarece Tarcila. Por isso, a comida vira o foco. No entanto, ela ressalta que o tratamento não é deixar de comer, mas sim criar uma relação saudável entre o que a pessoa come e seu tratamento.
Um erro comum é achar que apenas o açúcar de doces (sacarose) vira glicose. Tarcila desmistifica isso:
“A sacarose [açúcar de mesa] vai virar glicose na nossa corrente sanguínea, assim como o amido, que é o carboidrato do pão, vai virar glicose […]. Assim como a lactose, que é o carboidrato do leite, vai virar glicose […]. Assim como a frutose, que é o açúcar da fruta, vai virar glicose na corrente sanguínea.”
O segredo está na quantidade, não na proibição
Um dos maiores mitos da alimentação no diabetes é acreditar que a causa da condição é o consumo de doces. A verdade, segundo a especialista, está no equilíbrio. No podcast, Tom Bueno propõe um exemplo: o que impacta mais a glicose, uma fatia fina de bolo (com sacarose) ou uma caixa cheia de uvas (com frutose)?
A resposta de Tarcila é direta: provavelmente a caixa de uvas. “A gente chegou no intuito do quê? […] O segredo tá na quantidade. Sempre. E nas combinações”, afirma.
Isso nos leva à questão dos produtos “diet”. Eles são a solução? Nem sempre. Um refrigerante diet, por exemplo, troca o açúcar por adoçante, zerando o carboidrato. Já um chocolate diet, explica Tarcila, zera o açúcar (sacarose), mas mantém outros ingredientes que possuem carboidratos, como a massa de cacau e o leite. Portanto, ele ainda impactará a glicose.
Estratégias para diferentes tipos de diabetes
É fundamental entender que a necessidade nutricional de quem tem diabetes é a mesma de quem não tem. O que muda é a estratégia de gerenciamento.
Pessoas com diabetes tipo 2 que não usam insulina, por exemplo, geralmente precisam respeitar um limite de carboidratos por refeição. O corpo delas, mesmo com medicação oral, tem uma capacidade limitada de processar essa glicose.
Já quem tem diabetes tipo 1 (ou tipo 2 que utiliza insulina nas refeições) ganha mais flexibilidade através da contagem de carboidratos. “A gente consegue fazer um ajuste mais adequado com [a] contagem de carboidrato”, diz Tarcila. Se essa pessoa quiser comer dois pães em vez de um em uma ocasião especial, ela pode ajustar a dose de insulina para cobrir aquele carboidrato extra, algo que quem usa apenas medicação oral não consegue fazer.
Como reduzir o índice glicêmico das refeições?
O índice glicêmico (IG) refere-se à velocidade com que um carboidrato se transforma em glicose no sangue. Controlar essa velocidade é crucial. A boa notícia é que não precisamos comer apenas alimentos de baixo IG; podemos usar as combinações a nosso favor.
A nutricionista Tarcila Campos deu dicas práticas no DiabetesCast para alimentos comuns:
- Pão francês: Sozinho, tem alto IG e sobe a glicose rapidamente. A estratégia é combiná-lo com proteínas ou gorduras boas, como ovos mexidos ou abacate. Isso lentifica a absorção do carboidrato.
- Arroz branco: Não é preciso trocá-lo obrigatoriamente pelo integral, embora o integral tenha mais fibras. A combinação clássica do prato brasileiro, arroz com feijão (proteína vegetal e fibra), já ajuda a reduzir o IG. Incluir uma boa porção de salada também é fundamental.
- Macarrão: O desafio do macarrão é que, culturalmente, muitas vezes o comemos sozinho. A dica de Tarcila é comer a proteína (como um frango) e a salada antes do macarrão. Mudar a ordem da ingestão faz uma grande diferença na curva glicêmica.
- Suco de fruta: Ao fazer um suco, como o de laranja, perdemos as fibras e concentramos a frutose de várias frutas. A estratégia de Tom Bueno, validada pela nutricionista, é usar a porção de uma fruta (uma laranja) e completar o copo com água, criando uma “laranjada” menos concentrada.
Em resumo, o controle do diabetes não exige uma alimentação sem graça ou baseada apenas em produtos diet. O foco deve ser o equilíbrio, as combinações inteligentes e o ajuste das quantidades, quebrando os mitos da alimentação no diabetes e promovendo a saúde com comida de verdade.
