O Brasil tirava do papel há quase 40 anos o que hoje é tido como um dos maiores sistemas de saúde público do mundo. Celebrado em 19 de setembro, o aniversário do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma oportunidade para olhar para o passado e entender como era cuidar do diabetes antes de o acesso universal à saúde se tornar um direito no Brasil.
Naquela época, pessoas com diabetes já contavam com tratamentos como a insulina, mas o acesso ao atendimento e ao acompanhamento médico dependia da forma como a saúde pública estava organizada. A assistência médica tinha forte relação com a Previdência Social, e nem toda a população conseguia utilizar os serviços públicos.
Medicamentos, exames e tecnologias também eram diferentes dos disponíveis atualmente. Entender como funcionava esse sistema ajuda a conhecer os caminhos percorridos até a criação do SUS e as mudanças que transformaram o cuidado com o diabetes no país.
Antes do SUS, quem tinha acesso ao atendimento público?
Até a promulgação da Constituição Federal de 1988, o sistema brasileiro não funcionava com a ideia de que toda pessoa tinha direito ao atendimento público de saúde, como ocorre atualmente. Criado em 1977, o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) concentrava grande parte da assistência médica vinculada à Previdência Social. Na prática, o atendimento estava principalmente ligado aos trabalhadores que tinham vínculo empregatício e contribuíam para o sistema previdenciário, além de seus dependentes.

Quem não estava inserido nesse modelo podia depender de serviços privados ou de instituições filantrópicas. Segundo materiais históricos do Ministério da Saúde, antes de 1988 o atendimento público estava restrito a uma parcela da população, enquanto pessoas sem recursos e sem cobertura previdenciária dependiam muitas vezes da caridade e da filantropia, sendo tratados muitas das vezes como “indigentes”.
Isso fazia diferença para uma doença como o diabetes, que exige acompanhamento ao longo do tempo. Não bastava ter um diagnóstico. Era necessário conseguir consultas, exames, medicamentos e, para algumas pessoas, insulina e outros recursos para o controle da doença.
O que mudou com a Constituição de 1988?
A Constituição Federal de 1988 marcou uma mudança importante na forma como a saúde passou a ser entendida no Brasil. Resultado de um processo de mobilização de movimentos sociais e da sociedade civil ao longo da década de 1980, o texto constitucional dedicou um capítulo específico à saúde e estabeleceu que o acesso aos serviços deveria ser universal e igualitário, reconhecendo a saúde como um direito de todos e um dever do Estado.

O artigo 196 da Constituição passou a definir esses direitos, enquanto o artigo 198 estabeleceu as bases de um sistema único e descentralizado. Na prática, isso significa que a responsabilidade pela saúde pública passou a ser compartilhada entre União, estados e municípios, com cada esfera de governo tendo atribuições na organização e na oferta dos serviços de saúde.
A descentralização também aproximou a gestão das necessidades de cada região, permitindo que estados e municípios participassem da organização e da execução das ações de saúde de acordo com as demandas locais.
A implantação desse novo modelo, no entanto, foi gradual. Em 1990, as Leis nº 8.080 e nº 8.142 regulamentaram a organização e o funcionamento do SUS e estabeleceram mecanismos de participação da comunidade e de financiamento do sistema. Nesse processo de transição, o INAMPS foi incorporado ao Ministério da Saúde e, em 1993, foi oficialmente extinto. Suas atribuições foram gradualmente transferidas para as diferentes instâncias responsáveis pela gestão do sistema de saúde.
Mas principal diferença estava no princípio da universalidade: a assistência à saúde deixou de ser organizada apenas em torno da condição de trabalhador segurado e passou a ser um direito de toda a população.
A insulina já existia antes do SUS
A insulina foi descoberta em 1921 e começou a ser utilizada em seres humanos em 1922. A produção comercial veio um ano depois, em 1923. A descoberta representou uma mudança importante principalmente para pessoas com diabetes tipo 1, que até então tinham poucas possibilidades de tratamento.
Antes da insulina, algumas das estratégias utilizadas para pessoas com diabetes envolviam dietas extremamente restritivas. Em casos graves, essas medidas conseguiam prolongar a vida por algum tempo, mas não substituíam o hormônio que faltava no diabetes tipo 1. Com a descoberta da insulina, o cenário mudou. Mas isso não significa que o tratamento disponível há décadas fosse igual ao atual.
As primeiras insulinas eram extraídas do pâncreas de animais, principalmente de bovino e suínos, mas tinham limitações de produção e estabilidade e, por isso, foram sendo modificadas ao longo do tempo.
Como era o tratamento do diabetes no Brasil no fim dos anos 1980?
Dados do Censo de Diabetes realizado em 1988, apresentados na publicação Indicadores básicos para a saúde no Brasil: conceitos e aplicações, ajudam a mostrar como era o cenário do diabetes no Brasil naquele período. O levantamento avaliou a situação do diabetes em nove capitais brasileiras e estimou que 7,6% da população entre 30 e 69 anos tinha diabetes. Entre as pessoas que já sabiam do diagnóstico, 23% não faziam tratamento, 29% eram tratadas apenas com dieta, 41% utilizavam medicamentos por via oral e 7% usavam insulina.
Os números mostram que o tratamento já fazia parte da realidade de muitas pessoas antes da criação do SUS, mas ao mesmo tempo, uma parcela significativa não recebia nenhum tratamento. O mesmo levantamento apontou outro desafio: 46,5% das pessoas com diabetes avaliadas não sabiam que tinham a doença.
Ou seja, além da dificuldade de acesso ao cuidado, existia um problema anterior: muitas pessoas sequer haviam recebido o diagnóstico.
Quando os medicamentos para diabetes passaram a ser distribuídos pelo SUS?
A construção da assistência ao diabetes aconteceu gradualmente. Um marco importante foi a Lei nº 11.347, de 2006. A legislação estabeleceu a distribuição gratuita, pelo SUS, de medicamentos necessários ao tratamento do diabetes e de materiais para sua aplicação e para a monitoração da glicemia capilar, conforme os critérios definidos pelo poder público.
A medida ajudou a transformar em política pública o acesso a medicamentos e insumos necessários para o tratamento da doença.
E hoje?
Mais de três décadas depois da criação do SUS, o tratamento do diabetes continua passando por mudanças. Atualmente, o sistema oferece acompanhamento na Atenção Primária e disponibiliza medicamentos, insulinas e insumos para o monitoramento da glicemia. O objetivo é garantir que o cuidado não fique restrito ao diagnóstico, mas inclua também acompanhamento e tratamento ao longo do tempo.
Um exemplo recente dessa evolução é a chegada da insulina glargina à oferta nacional do SUS. Em julho de 2026, o Ministério da Saúde iniciou uma transição gradual da insulina NPH para a glargina para crianças e adolescentes de 2 a 18 anos incompletos com diabetes tipo 1 e para pessoas com 70 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou tipo 2. A disponibilização ocorre após avaliação clínica e prescrição médica, dentro da Atenção Primária.
A mudança mostra como o cuidado com o diabetes continua sendo atualizado. Se, no passado, a chegada da insulina transformou o tratamento da doença e, décadas depois, a criação do SUS ampliou o acesso à saúde, novas políticas e tecnologias seguem modificando a forma como as pessoas são acompanhadas.
Quer saber mais sobre o assunto? Confira este bate papo com a enfermeira e educadora em diabetes Gabriela Cavicchioli.
