Nos últimos meses, o Glicovex passou a aparecer com frequência em anúncios na internet e despertou a curiosidade de pessoas que convivem com diabetes. O suplemento é apresentado como uma alternativa natural para auxiliar no controle da glicose e reduzir sintomas associados à doença, utilizando ingredientes como inulina, resveratrol, coenzima Q10 e extrato de abacate.

A proposta chama a atenção, principalmente porque promete benefícios percebidos logo nas primeiras semanas de uso. Mas será que essas alegações são sustentadas por evidências científicas? O que se sabe sobre os ingredientes da fórmula? E existem estudos que comprovem a eficácia do próprio Glicovex?
Para responder a essas perguntas, o Um Diabético analisou as informações disponíveis sobre o produto e ouviu especialistas para entender o que já foi demonstrado pela ciência e quais pontos ainda exigem cautela.
O que o Glicovex promete?
Na página oficial de vendas, o suplemento afirma que pode auxiliar no controle da glicose e melhorar sintomas frequentemente associados ao diabetes, como:
- cansaço;
- formigamento;
- visão embaçada;
- dificuldade de cicatrização.
O material também afirma que o consumidor “sente a diferença nos primeiros dias” e destaca que o produto é “100% natural” e “regularizado”.
No entanto, a página não apresenta estudos clínicos realizados com o próprio Glicovex nem informa a composição completa da fórmula ou a quantidade de cada ingrediente.
O problema está justamente aí
Segundo a nutricionista Tarcila Campos, mestre em Nutrição e integrante do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), existe uma diferença importante entre estudar ingredientes isoladamente e comprovar a eficácia de um suplemento comercial.
“Existem estudos sobre alguns ingredientes que estão na fórmula do Glicovex isoladamente, como a inulina, o resveratrol e a coenzima Q10, mas isso é bem diferente de dizer que a fórmula comercial funciona.”
Ela explica que a ausência da ficha técnica completa impede qualquer conclusão científica.
“Não encontrei a ficha técnica completa com as quantidades de cada ingrediente. Sem essas informações, não temos como saber se as doses utilizadas são semelhantes às que demonstraram algum benefício nos estudos ou se são apenas quantidades muito pequenas, sem efeito clínico.”
O que dizem as pesquisas sobre os ingredientes?
Nem todos os componentes citados pelo fabricante possuem o mesmo nível de evidência científica.
Inulina
Entre os ingredientes apresentados, a inulina é a que possui o melhor respaldo científico.
Algumas revisões sistemáticas mostram pequenas melhoras na glicemia de jejum e em alguns marcadores metabólicos em pessoas com diabetes tipo 2.
Mesmo assim, os benefícios costumam ser modestos e dependem da dose utilizada.
Além disso, esses estudos avaliaram a inulina isoladamente, e não o Glicovex.
Resveratrol
O resveratrol é um composto encontrado naturalmente em algumas plantas e frutas.
Embora existam estudos experimentais sugerindo possíveis efeitos antioxidantes e metabólicos, os resultados em pessoas com diabetes ainda são inconsistentes.
Até o momento, as principais diretrizes internacionais não recomendam seu uso como tratamento para diabetes.
Coenzima Q10
A situação é semelhante para a coenzima Q10.
Existem pesquisas mostrando possíveis benefícios sobre alguns marcadores metabólicos, mas as evidências continuam insuficientes para recomendar sua utilização com esse objetivo.
Extrato de abacate
O extrato de abacate possui poucas pesquisas clínicas envolvendo pessoas com diabetes.
Grande parte dos estudos disponíveis foi realizada em laboratório ou em modelos animais.
Falta o principal: estudos com o próprio produto
Outro ponto destacado por Tarcila Campos é que não existem estudos clínicos publicados avaliando especificamente o Glicovex.
“Hoje não existe respaldo científico para recomendar esse suplemento. Se no futuro forem publicados estudos clínicos de boa qualidade avaliando especificamente o Glicovex, aí poderemos analisar os resultados. Mas, por enquanto, eu teria bastante cautela.”

O que significa “produto regularizado”?
Outro detalhe que costuma gerar dúvidas é a expressão “produto regularizado”.
Isso não significa que o suplemento tenha eficácia comprovada para tratar ou controlar o diabetes.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), suplementos alimentares não podem alegar prevenção, tratamento ou cura de doenças. Essas alegações são exclusivas de medicamentos que passaram por estudos clínicos específicos.
Ou seja, um suplemento pode estar regularizado para comercialização e, ainda assim, não possuir comprovação científica de que controla a glicose.
Depoimentos substituem pesquisas?
A página do Glicovex apresenta relatos de consumidores afirmando melhora da disposição, redução do formigamento e satisfação com o atendimento.
Esses depoimentos, porém, não têm o mesmo peso científico de um ensaio clínico.
Melhoras percebidas podem estar relacionadas a mudanças na alimentação, atividade física, ajuste de medicamentos, efeito placebo ou outros fatores que não foram controlados.
Por isso, relatos individuais não permitem concluir que um produto seja eficaz.
O que dizem as diretrizes sobre suplementos?
As principais entidades internacionais, como a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Associação Americana de Diabetes (ADA) e a Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), não recomendam suplementos alimentares para controle do diabetes na ausência de deficiência nutricional específica.
O tratamento continua baseado em medidas com eficácia comprovada, como alimentação adequada, prática regular de atividade física, uso dos medicamentos prescritos, monitorização da glicose e acompanhamento com profissionais de saúde.
Vale a pena comprar?
Até o momento, não existem estudos clínicos publicados demonstrando que o Glicovex reduz a glicose, melhora a hemoglobina glicada ou previne complicações do diabetes.
Embora alguns de seus ingredientes tenham sido estudados isoladamente, isso não é suficiente para afirmar que a fórmula comercial ofereça os mesmos benefícios.
Antes de investir em qualquer suplemento, especialistas recomendam conversar com o médico ou nutricionista responsável pelo tratamento, principalmente porque alguns produtos podem interagir com medicamentos ou criar uma falsa sensação de segurança, atrasando terapias que realmente possuem eficácia comprovada.