Pessoas com diabetes tipo 2 tratadas com insulina basal que utilizavam um sensor de monitoramento contínuo da glicose apresentaram menor risco de morte do que aquelas que não usavam a tecnologia.
A diferença foi de 45% após 12 meses e de 36% após 24 meses, segundo dados divulgados pela Abbott para apresentação no Congresso Europeu de Diabetes, o EASD 2026, que começou nesta segunda-feira (28), em Milão.
A pesquisa analisou prontuários eletrônicos de quase 28 mil adultos nos Estados Unidos. Aproximadamente metade usava sensores de glicose e a outra metade não. Os pesquisadores também encontraram uma associação entre o uso da tecnologia e menos complicações cardiovasculares, inclusive eventos recorrentes. O comunicado, porém, não informa quantas mortes ou complicações ocorreram em cada grupo.
O resultado chama a atenção porque trata de pessoas com diabetes tipo 2 que fazem uso de insulina basal, aplicada para ajudar a controlar a glicose ao longo do dia. A discussão sobre sensores nesse grupo ganhou espaço à medida que as pesquisas passaram a avaliar não apenas as medições de glicose, mas também desfechos como internações e complicações.
Como foi feita a pesquisa sobre mortalidade?
O estudo comparou cerca de 14 mil adultos que usavam monitoramento contínuo da glicose com outros 14 mil que não utilizavam sensores. Todos tinham diabetes tipo 2 e estavam em tratamento com insulina basal. Segundo a Abbott, a maioria das pessoas do grupo que usava sensores utilizava a tecnologia Libre. Isso significa que os resultados sobre mortalidade não se referem exclusivamente a uma marca ou modelo.
Para tornar os grupos mais comparáveis, os pesquisadores consideraram 29 características dos participantes no início do acompanhamento. Também fizeram análises adicionais para verificar se os resultados se mantinham em diferentes condições.
A metodologia foi descrita como uma emulação de ensaio clínico: os pesquisadores organizaram dados já existentes para tentar reproduzir alguns aspectos de um estudo em que participantes seriam acompanhados após a definição de uma intervenção. Essa estratégia pode fortalecer uma análise observacional, mas não transforma a pesquisa em um ensaio clínico com distribuição aleatória de sensores.
O sensor reduziu o risco de morte?
Ainda não é possível fazer essa afirmação. O estudo encontrou uma associação entre o uso de sensores e um risco menor de morte. Como os participantes não foram sorteados para usar ou deixar de usar a tecnologia, outros fatores podem ter contribuído para a diferença observada.
Pessoas que conseguem acesso ao monitoramento contínuo, por exemplo, podem ter condições distintas de acompanhamento médico ou de acesso a outros recursos de cuidado. O ajuste estatístico procura reduzir a influência das diferenças conhecidas entre os grupos, mas não consegue eliminar com certeza todos os fatores que possam afetar o resultado.
Há outra distinção importante para entender os números divulgados. Os 45% em 12 meses e os 36% em 24 meses representam reduções relativas de risco na comparação entre os grupos. Não significam que 45% das pessoas deixaram de morrer por usar um sensor. Como as taxas absolutas de morte não constam no comunicado, ainda não é possível traduzir os percentuais em uma estimativa como “quantas mortes ocorreram a menos a cada mil pessoas acompanhadas”.
A informação sobre menos complicações cardiovasculares também merece atenção, mas o material divulgado pela empresa não apresenta, para esses eventos, percentuais ou números absolutos comparáveis aos dados de mortalidade.
Estudo francês encontrou menos internações
Outra pesquisa anunciada para o EASD analisou dados de mais de 253 mil pessoas com diabetes tipo 2 na França após o início do uso da tecnologia Libre. Nesse grupo, os pesquisadores observaram uma queda nas internações por eventos agudos relacionados ao diabetes.
Entre as pessoas que usavam insulina basal, a taxa de internações caiu 47%. A redução relatada foi de 56% entre aquelas que faziam múltiplas aplicações diárias de insulina e de 81% entre participantes tratados sem insulina. Os eventos avaliados incluíam episódios graves de glicose alta, glicose baixa e coma relacionado ao diabetes.
Esse segundo estudo avaliou internações, e não mortalidade. Os percentuais dos dois trabalhos, portanto, não devem ser somados nem tratados como se medissem o mesmo benefício. A pesquisa francesa também é observacional: a queda registrada após o início do uso do Libre não permite concluir, sozinha, que todas as internações foram evitadas pelo sensor.
Como o monitoramento contínuo pode ajudar no cuidado?
Um sensor de monitoramento contínuo fornece leituras frequentes e mostra a direção em que a glicose está variando. Com isso, a pessoa pode perceber padrões que seriam difíceis de identificar apenas com medições pontuais, como uma queda durante a noite ou uma elevação repetida após determinado horário.
Segundo a Associação Americana de Diabetes, os dados podem ajudar a entender como alimentação, atividade física, medicamentos e outros fatores afetam a glicose. Eles também permitem acompanhar o tempo na faixa, indicador que mostra por quanto tempo a glicose permaneceu dentro de um intervalo definido com a equipe de saúde. Essas informações podem orientar conversas sobre o tratamento e ajudar a reconhecer episódios de glicose alta ou baixa.
Isso não significa que toda pessoa com diabetes tipo 2 precise da mesma tecnologia ou que os dados do sensor dispensem acompanhamento profissional. A decisão sobre seu uso depende do tratamento, do histórico de hipoglicemias, das necessidades individuais e do acesso ao dispositivo.
O que falta esclarecer?
Os estudos apresentados ampliam as evidências sobre o monitoramento contínuo em pessoas com diabetes tipo 2, especialmente entre aquelas que usam insulina basal. Ao mesmo tempo, os dados divulgados até agora por meio do comunicado da fabricante não permitem medir toda a dimensão dos resultados.
Para uma avaliação mais completa, é importante conhecer os resumos científicos e os trabalhos na íntegra, incluindo as taxas absolutas de morte e internação, os detalhes dos grupos comparados e as limitações apontadas pelos próprios pesquisadores. Até lá, a conclusão mais fiel aos dados é que o uso de sensores esteve associado a melhores desfechos nas populações estudadas. Demonstrar que a tecnologia foi a causa da redução do risco exige evidências adicionais.