O ex-jogador e senador Romário é um dos casos mais conhecidos de cirurgia metabólica no Brasil. No final de 2016, ele se submeteu ao procedimento para controlar o diabetes tipo 2, condição com a qual convivia havia anos. Antes da operação, seu índice glicêmico estava acima de 400 mg/dL. Após a intervenção, ele relatou queda para a casa dos 90 mg/dL, além de perda de 10 a 15 kg já nos primeiros meses.
O caso ajudou a popularizar o termo “cirurgia metabólica” no Brasil. No entanto, também trouxe à tona dúvidas que vão além da história pessoal do ex-jogador. Em que casos o procedimento é indicado? Ele controla o diabetes de forma definitiva? Nesse contexto, existem técnicas diferentes, e nem todas são reconhecidas pela medicina.
Para esclarecer essas questões, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) reuniu as principais informações sobre o tratamento. A entidade deixa claro que sua posição sobre a cirurgia metabólica como alternativa terapêutica é voltada especificamente para pacientes com diabetes tipo 2.
Uma cirurgia para o metabolismo, não apenas para o peso
A cirurgia metabólica utiliza técnicas semelhantes às da cirurgia bariátrica, como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical, conhecida como sleeve. A diferença está no objetivo: a bariátrica trata a obesidade, enquanto a metabólica controla o diabetes tipo 2 e outras alterações metabólicas associadas.
Por isso, ela pode ser indicada até para pacientes com índice de massa corporal (IMC) menor do que os tradicionalmente exigidos para a bariátrica. Nesse sentido, muitos especialistas preferem o termo “cirurgia bariátrica e metabólica” na prática clínica. Afinal, os benefícios costumam abranger ao mesmo tempo a perda de peso e a melhora de doenças associadas, como hipertensão e alterações no colesterol.
“A cirurgia metabólica é indicada principalmente para pacientes com diabetes tipo 2 que apresentam obesidade e dificuldade de controle glicêmico mesmo com o uso adequado de medicamentos. Não se trata de uma alternativa para quem deseja apenas perder peso, mas de um tratamento para quem tem a doença metabólica instalada.” Flávio Pirozzi | Endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Segundo o médico, a avaliação precisa ser individualizada. Nesse processo, entram na conta o tempo de diagnóstico, a reserva de produção de insulina do paciente e outras comorbidades.
O endocrinologista Fernando Valente, também membro da SBD, reforça esse ponto e detalha porque o tempo de diagnóstico pesa tanto na decisão.
“Principalmente quando a pessoa tem pré-diabetes ou diabetes com pouco tempo de diagnóstico, a chance de sucesso no controle da glicose é maior. Quanto mais cedo, melhor, porque depois de muitos anos de doença o pâncreas vai entrando em falência. Para quem já usa insulina ou tem mais de dez anos de diabetes tipo 2, a cirurgia talvez não seja esse milagre que representa para os casos de menor duração.” Dr. Fernando Valente | Endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
O termo correto é remissão, não cura
Um dos pontos que mais geram confusão é a ideia de que a cirurgia metabólica “cura” o diabetes. Essa interpretação é reforçada pela repercussão de casos como o do senador Romário. Segundo a SBD, porém, o termo tecnicamente correto é remissão. Muitos pacientes mantêm glicemia normal sem medicamentos por anos. Ainda assim, o diabetes tipo 2 pode retornar, especialmente em caso de reganho de peso ou progressão natural da doença.
Estudos científicos mostram que a cirurgia é mais eficaz do que o tratamento exclusivamente clínico para promover essa remissão. Em alguns casos, a melhora da glicose ocorre poucos dias após a operação, antes mesmo de uma perda de peso relevante. Isso reforça que os benefícios envolvem alterações hormonais e intestinais, e não apenas a redução do peso corporal.
“A remissão significa que a pessoa passa a ter níveis normais de glicose sem precisar de medicação, mas isso não quer dizer que o diabetes desapareceu para sempre. O quadro pode voltar com o tempo, principalmente se houver reganho de peso ou se outros fatores de risco não forem controlados.” Renato Redorat | Endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
O endocrinologista Fernando Valente explica o mecanismo por trás da remissão.
“A gente nunca fala em cura do diabetes. Diabetes não tem cura, tem remissão. Na verdade, você melhora a liberação de hormônios que conseguem fazer com que o pâncreas doente trabalhe melhor, e ao longo do tempo, perdendo peso, você tira o excesso de trabalho do pâncreas. Remissão é a normalização dos níveis de açúcar no sangue, sem tratamento farmacológico, por pelo menos três meses.” Dr. Fernando Valente | Endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
A técnica utilizada no procedimento
O procedimento realizado por Romário utilizou uma técnica específica, desenvolvida por um cirurgião em particular. O método altera o trânsito intestinal para estimular a produção de insulina e antecipar a liberação do hormônio GLP-1. Segundo Fernando Valente, porém, esse método não segue os protocolos reconhecidos pela SBD.
“O Romário fez a cirurgia por um método diferente, que não é aprovado, de um cirurgião específico. Ele ficou bem magro, mas não sabemos como ele está hoje, se tem diarreia o tempo todo ou deficiência de vitaminas. Pessoas que fazem esse tipo de cirurgia precisam tomar vitaminas com regularidade, para não resolver um problema e piorar outros.” Dr. Fernando Valente | Endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
A posição da SBD é direcionada especificamente a pacientes com diabetes tipo 2. Nesse sentido, as técnicas de referência citadas pela entidade são o bypass gástrico e a gastrectomia vertical convencional. Ambas seguem os protocolos estabelecidos pelos órgãos médicos brasileiros.
Uma técnica conhecida há décadas, reconhecida formalmente há pouco tempo
O termo “cirurgia metabólica” só se popularizou nos últimos anos. No entanto, a relação entre cirurgias para obesidade e melhora do diabetes é observada desde as décadas de 1950 e 1960. Já naquela época, médicos notaram que pacientes operados apresentavam melhora na glicose antes mesmo de perder peso de forma significativa.
A partir dos anos 2000, estudos científicos passaram a investigar esse fenômeno com mais profundidade. Eles revelaram o papel das alterações hormonais e intestinais no controle do diabetes tipo 2. Assim, o reconhecimento formal da cirurgia metabólica ocorreu de forma gradual. Hoje, ela é uma opção terapêutica validada para pacientes selecionados.
Segurança do procedimento
Quando realizada por equipes experientes em centros especializados, a cirurgia metabólica é considerada segura. Os avanços nas técnicas cirúrgicas, sobretudo com a videolaparoscopia, reduziram os riscos e aceleraram a recuperação. Hoje, as taxas de complicações graves e mortalidade são baixas e comparáveis às de outras cirurgias amplamente realizadas, como a retirada da vesícula biliar.
Isso não significa, porém, ausência de riscos. Sangramentos, infecções, tromboses, vazamentos nas suturas e deficiências nutricionais a longo prazo podem ocorrer. Por isso, uma avaliação criteriosa antes da operação e o acompanhamento multidisciplinar depois dela são fundamentais. Ainda assim, sociedades médicas internacionais apontam que os benefícios costumam superar os riscos para pacientes bem selecionados. Isso vale sobretudo quando o diabetes mal controlado já eleva o risco cardiovascular, renal e neurológico.
Remédios podem ser reduzidos, mas a decisão é médica
Muitos pacientes conseguem reduzir ou suspender medicamentos para diabetes após a cirurgia, mas isso não acontece com todos. Tudo depende dos mesmos fatores que definem a indicação, como tempo de diagnóstico e reserva de produção de insulina pelo pâncreas. Pesam ainda a idade e o controle prévio da doença. Por isso, a SBD reforça um ponto importante: essa decisão cabe exclusivamente ao endocrinologista responsável pelo caso. Não deve se basear apenas no resultado de outras pessoas.
Diabetes tipo 1 não tem indicação para o procedimento
A cirurgia metabólica é indicada apenas para diabetes tipo 2. No tipo 1, o organismo deixa de produzir insulina pela destruição autoimune das células do pâncreas, e a cirurgia não restaura essa produção. Pacientes com diabetes tipo 1 e obesidade podem até ter benefícios ligados à perda de peso. Ainda assim, o procedimento não substitui a insulinoterapia nem promove remissão da doença nesse grupo.
Perda de peso é um dos efeitos centrais
Embora o foco principal seja o controle metabólico, a perda de peso está entre os efeitos mais relevantes da cirurgia. Ela contribui para melhorar a resistência à insulina, reduzir a pressão arterial, controlar o colesterol e diminuir o risco cardiovascular. Dependendo da técnica e das características de cada paciente, essa perda pode ser significativa e duradoura.
A cirurgia metabólica representa um dos maiores avanços no tratamento do diabetes tipo 2 das últimas décadas. Os resultados incluem remissão da doença, redução de medicamentos e melhora na qualidade de vida. Ainda assim, ela não substitui mudanças de hábito: alimentação equilibrada e atividade física regular continuam sendo pilares para manter os benefícios conquistados com o procedimento.