Muita gente com diabetes só percebe um machucado no pé quando ele já está infeccionado. Isso acontece porque a neuropatia diabética, uma das complicações mais comuns da doença, reduz a sensibilidade e faz com que pequenos cortes, bolhas ou queimaduras passem despercebidos. Por isso, inspecionar os pés todos os dias deixa de ser apenas um hábito de higiene e passa a ser parte essencial do tratamento.
A inspeção diária é uma das medidas mais importantes para prevenir o pé diabético. Esse hábito simples permite identificar alterações logo no início, antes que elas evoluam para feridas ou infecções. Da mesma forma, a avaliação realizada durante a consulta de enfermagem ajuda a reconhecer fatores de risco precocemente e reforça a importância do autocuidado.
A enfermeira Sherida Paz, pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE), afirma que o pé diabético é uma das complicações mais frequentes do diabetes e pode comprometer significativamente a qualidade de vida. Segundo ela, a inspeção diária dos pés, associada ao acompanhamento da equipe de saúde, é fundamental para identificar alterações precocemente e prevenir complicações.
Por que inspecionar os pés todos os dias é tão importante?
A perda de sensibilidade provocada pela neuropatia faz com que bolhas, calos, pequenas rachaduras e cortes passem despercebidos. Sem a inspeção diária, muitas pessoas só descobrem uma lesão quando ela já está infectada ou apresenta dificuldade para cicatrizar. Nessa fase, o tratamento costuma ser mais complexo e o risco de complicações aumenta.
A orientação é olhar toda a superfície dos pés, incluindo a planta, os calcanhares e os espaços entre os dedos. É importante observar a presença de cortes, bolhas, rachaduras, calos, vermelhidão, áreas escurecidas, inchaço, secreções e alterações na temperatura da pele. Quem tem dificuldade para visualizar a sola dos pés pode utilizar um espelho ou pedir ajuda a um familiar.
Mudanças na sensibilidade também merecem atenção. Dormência, formigamento ou alterações na temperatura dos pés podem indicar problemas neurológicos ou circulatórios e devem ser avaliados pela equipe de saúde.
Outro cuidado para não desenvolver o pé diabético, é importante é evitar andar descalço, mesmo dentro de casa. Pequenos traumas podem passar despercebidos devido à perda de sensibilidade. Também é recomendado usar meias de algodão, sem costuras grossas, limpas e trocadas diariamente para reduzir o atrito e proteger a pele.
Corte das unhas, hidratação e escolha do calçado
O corte inadequado das unhas, em formato arredondado, favorece o aparecimento de unhas encravadas e pequenas lesões nos cantos dos dedos. Quando essas lesões infeccionam ou apresentam dificuldade para cicatrizar, o quadro pode se agravar. Em caso de dúvida, vale procurar avaliação profissional.
A higiene diária também faz diferença. Lavar bem os pés com água morna e sabonete neutro, secar cuidadosamente, principalmente entre os dedos, e hidratar a pele ajudam a prevenir rachaduras. O hidratante deve ser aplicado nas áreas mais ressecadas, como calcanhares e planta dos pés. Entre os dedos, o produto deve ser evitado, pois o excesso de umidade favorece o surgimento de micoses.
O sapato merece atenção
A escolha do calçado merece atenção especial. A recomendação é escolher sapatos fechados, confortáveis, confeccionados em material macio e que permitam a transpiração dos pés. O modelo deve oferecer espaço suficiente para os dedos, não possuir costuras internas e ter solado firme e antiderrapante.
Antes de calçar os sapatos, vale sempre verificar o interior. Uma pequena pedra, um objeto esquecido ou uma dobra na palmilha podem causar lesões sem que a pessoa perceba. Sapatos novos também devem ser usados aos poucos para evitar bolhas e áreas de atrito.
A Sociedade Brasileira de Diabetes desenvolveu o Selo SBD de Calçado Adequado, que identifica modelos com características recomendadas para reduzir o risco de lesões em pessoas com diabetes.
Quem tem diabetes pode fazer as unhas?
Segundo a podóloga Andrea Costa, especialista em pé diabético, pessoas com diabetes podem fazer as unhas, inclusive em salões de beleza. O procedimento não é contraindicado, desde que alguns cuidados sejam adotados para reduzir o risco de cortes, infecções e outras lesões.
“Fazer unha pode, desde que com muita cautela e sem cortar mais do que o necessário. O embelezamento está liberado, mas cutucar a cutícula ou cortar além da linha da unha não é indicado. Além de servir como porta de entrada para micro-organismos oportunistas, isso aumenta o risco de lesões”, explica.
A escolha do estabelecimento também faz diferença. Andrea orienta procurar salões que utilizem autoclave para esterilizar os instrumentos e seguir protocolos adequados de biossegurança. Também é importante informar à manicure que a pessoa tem diabetes e evitar procedimentos que retirem excessivamente as cutículas ou provoquem pequenos sangramentos.
O papel da enfermagem na prevenção do pé diabético
A consulta de enfermagem é um momento importante para prevenir complicações. Além de inspecionar os pés e avaliar a sensibilidade por meio de testes simples e de baixo custo, o enfermeiro identifica fatores de risco e orienta sobre os cuidados necessários no dia a dia.
“É papel do enfermeiro orientar, sensibilizar e estimular as pessoas quanto às mudanças de comportamento necessárias para a prática do autocuidado”, destaca Sherida.
Quando procurar ajuda médica?
Mesmo pequenas alterações merecem atenção. Como a neuropatia reduz a sensibilidade, esperar sentir dor pode significar esperar demais.
Procure a equipe de saúde se observar:
- vermelhidão, escurecimento ou palidez da pele;
- aumento da temperatura em alguma região do pé;
- bolhas, rachaduras ou calos;
- cortes ou feridas que não cicatrizam;
- secreção ou mau cheiro;
- inchaço;
- unha encravada com sinais de inflamação;
- alterações na sensibilidade, como dormência ou formigamento.
Mesmo sem dor, qualquer alteração deve ser avaliada por um profissional de saúde.
O cuidado diário faz toda a diferença
O pé diabético não surge de um dia para o outro. Na maioria das vezes, as complicações começam com pequenas alterações que podem ser identificadas precocemente por meio desse olhar diário e do acompanhamento regular com a equipe de saúde.
“O mais importante é criar o hábito de olhar os pés todos os dias”, reforça Sherida. “Quando a pessoa conhece os próprios pés, consegue perceber rapidamente qualquer mudança e buscar ajuda antes que o problema se agrave”, finaliza a enfermeira.
Pequenos cuidados diários fazem diferença e ajudam a preservar a saúde, a mobilidade e a qualidade de vida.
