Uma em cada três pessoas que desenvolvem diabetes tipo 2 passou por um estágio anterior sem perceber. Pré-diabetes é uma condição em que os níveis de glicose no sangue já estão acima do normal, mas ainda não atingiram o patamar do diagnóstico da condição. É silenciosa, tratável e, na maioria dos casos, reversível. Nesse contexto, conhecê-la é o primeiro passo para agir.
Segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), cerca de 15 milhões de brasileiros convivem com pré-diabetes. Além disso, o sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, que monitora o diagnóstico médico da condição por inquérito telefônico, não quantifica separadamente esse estágio anterior. Portanto, o número real de pessoas nessa faixa pode ser ainda maior do que as estatísticas mostram.

O que é pré-diabetes?
O pré-diabetes ocorre quando o organismo começa a ter dificuldade em processar a glicose com eficiência. O pâncreas ainda produz insulina, mas as células já respondem com menor sensibilidade ao hormônio. Resultado: a glicose fica mais elevada do que o ideal, sem cruzar, por enquanto, o patamar da condição.
Trata-se de um sinal de alerta metabólico que antecede o diabetes tipo 2. No entanto, ao contrário do que muitos acreditam, essa condição não é apenas um risco futuro. A glicemia cronicamente alterada, por si só, já eleva o risco cardiovascular, aumentando a probabilidade de infarto e AVC mesmo antes de um diagnóstico formal da condição.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) define os critérios diagnósticos com base em dois exames principais:
• Glicemia de jejum entre 100 mg/dL e 125 mg/dL.
• Hemoglobina glicada (HbA1c) entre 5,7% e 6,4%.
Acima desses valores, o diagnóstico muda para doença.
Pré-diabetes tem sintomas? Na maioria dos casos, não
Esse é o ponto mais importante para entender: na grande maioria dos casos, o pré-diabetes não apresenta nenhum sinal perceptível. A pessoa se sente bem, mantém sua rotina normalmente e desconhece que sua glicemia já está alterada.
Sintomas clássicos como sede excessiva, aumento da frequência urinária, visão turva e cansaço persistente tendem a surgir somente quando o quadro já progrediu para o diabetes tipo 2. Por isso, aguardar sintomas para buscar diagnóstico é uma estratégia que não funciona para o pré-diabetes.
Nesse contexto, os exames de rotina são a única forma confiável de detecção. A SBD recomenda rastreamento a partir dos 35 anos para adultos assintomáticos e, independentemente da idade, para pessoas que apresentam fatores de risco como obesidade, histórico familiar da doença, sedentarismo, hipertensão ou síndrome do ovário policístico.
Vou desenvolver diabetes obrigatoriamente?
Não. A evolução para o diabetes tipo 2 não é um caminho inevitável. Quando a condição é identificada cedo e os hábitos são modificados, os níveis de glicose podem retornar à faixa normal. Isso é o que a SBD e as principais diretrizes internacionais chamam de reversão do pré-diabetes.
Estudos de referência demonstram que a combinação de mudança alimentar, atividade física regular e controle do peso pode reduzir em mais de 50% o risco de progressão para o diabetes tipo 2. Portanto, o diagnóstico de pré-diabetes não é uma sentença, mas um ponto de virada.
Como reverter?
A abordagem clínica para sair da faixa de pré-diabetes é baseada em mudanças de estilo de vida, com ou sem medicação, dependendo do caso. A SBD orienta:
• Perda de peso: a redução de 5% a 7% do peso corporal já apresenta impacto relevante na sensibilidade à insulina e na glicemia de jejum.
• Atividade física: cerca de 150 minutos semanais de exercícios aeróbicos moderados, complementados por exercícios resistidos, contribuem diretamente para o controle glicêmico.
• Alimentação equilibrada: o foco está em reduzir açúcares simples, carboidratos refinados e ultraprocessados, priorizando alimentos ricos em fibras, proteínas magras e gorduras saudáveis.
• Acompanhamento médico contínuo: o endocrinologista avalia a evolução da glicemia e ajusta as estratégias conforme necessário.
Em situações específicas, como quando o paciente apresenta outros fatores de risco associados ou não responde suficientemente às mudanças de hábito, o médico pode prescrever medicamentos, como a metformina, para auxiliar na prevenção do diabetes. Ainda assim, esse recurso é avaliado caso a caso.